Da cisão do MAS aos protestos contra Paz: para onde caminha a crise na Bolívia?
Contudo, mesmo em meio às divisões recentes, um elemento atravessa os diferentes setores mobilizados: a construção de Rodrigo Paz como novo inimigo comum do campo popular
A Bolívia voltou às ruas. Pouco mais de seis meses após a eleição do presidente Rodrigo Paz, o país vive bloqueios de estradas, paralisações nacionais e mobilizações que reúnem sindicatos urbanos, organizações campesino-indígenas, cocaleiros, mineiros e outros setores contrários às medidas de austeridade, privatizações e flexibilização do controle estatal sobre recursos naturais. Mais do que uma reação à crise econômica, os protestos revelam a fragmentação do bloco político construído pelo MAS ao longo de duas décadas e o processo de reconfiguração da esquerda boliviana após a ruptura entre Evo Morales e Luis Arce.
A situação é particularmente significativa porque ocorre poucos anos após o retorno do MAS ao poder. Depois da ruptura que levou Jeanine Áñez à presidência em 2019, a vitória de Arce em 2020 parecia indicar uma recomposição da força institucional da esquerda. Apoiado por Evo (impedido judicialmente de concorrer), Arce venceu no primeiro turno e o MAS recuperou maioria parlamentar.
Mas a estabilidade durou pouco. A recessão econômica, marcada por queda das receitas do gás natural, inflação crescente e escassez de combustíveis, foi acompanhada por uma crise política profunda dentro do MAS. Evo e Arce romperam em meio a divergências programáticas e disputas pela liderança do partido e pela candidatura presidencial de 2025, provocando divisões no movimento campesino-indígena e em organizações históricas como a CSUTCB.
Saída de Evo Morales gravou crise
A crise se agravou quando o Tribunal Constitucional retirou Evo da liderança do MAS em favor do setor "arcista". Com a bancada governista fragmentada, o governo perdeu capacidade de aprovar empréstimos e medidas emergenciais para enfrentar a deterioração econômica.
Nas eleições de 2025, consolidou-se a ruptura da hegemonia masista construída ao longo de duas décadas. Desgastado politicamente, Arce desistiu da reeleição e o MAS lançou Eduardo Del Castillo como candidato.
Evo rompeu definitivamente com o partido e tentou construir uma nova sigla (EVO Pueblo), mas não conseguiu registrá-la nem viabilizar sua candidatura. Passou então a defender o voto nulo como forma de protesto.
A divisão atravessou também os movimentos. Enquanto alguns setores permaneceram alinhados ao governo, outros questionaram a legitimidade do processo eleitoral sem a participação de Evo. Outra parte apoiou a candidatura independente do senador Andrónico Rodríguez (destacado na resistência ao governo de Áñez), que se apresentava como terceira alternativa para unidade.
Fragmentação da esquerda
O resultado eleitoral evidenciou a profundidade da fragmentação da esquerda boliviana. Andrónico recebeu 8% dos votos, superando a candidatura oficial do MAS (3%). Já o voto nulo alcançou 19,8% nacionalmente, a maior cifra da história boliviana, chegando a 33,3% no núcleo central do "evismo", Cochabamba (onde se tornou a opção mais votada).
Os números indicam a persistência da influência de Evo, mas a fragmentação abriu espaço para a rearticulação da direita, que avançou ao segundo turno com Jorge Quiroga e Rodrigo Paz. Este último venceu ao construir uma candidatura capaz de absorver votos de diferentes setores, inclusive de regiões anteriormente ligadas ao MAS (como El Alto e Cochabamba), adotando um discurso de renovação, conciliação e empreendedorismo ("capitalismo para todos"), com imagem moderada e um vice popular (Edman Lara, ex-policial e ativista digital "anticorrupção").
O contraste com o MAS foi dramático. O partido que havia governado a Bolívia por quase duas décadas e conquistado maioria parlamentar em 2020 terminou 2025 sem nenhum senador e com apenas dois deputados. A direita recuperava força institucional, enquanto a esquerda atravessava seu momento de maior fragmentação desde a eleição de Evo.
A derrota eleitoral, porém, não significou o desaparecimento da capacidade de mobilização construída ao longo de décadas. Enquanto o MAS perdia sua hegemonia institucional, parte importante dos movimentos mantinha capacidade de organização e mobilização nas ruas.
Explicitando o tom do governo poucos dias após sua posse em novembro, Paz avança na reativação da DEA, na revogação de impostos sobre grandes fortunas, transações financeiras e promoções empresariais e em um corte de 30% nos gastos públicos previstos para 2026. Em dezembro, Arce é preso acusado de corrupção. Poucos dias depois, Paz promulga o Decreto 5503, que declarou "emergência econômica nacional" e implementou medidas de austeridade, incluindo o fim dos subsídios aos combustíveis e a flexibilização das regras para exploração de recursos naturais.
Reação social
A reação social foi imediata. Organizações historicamente ligadas ao MAS (como CSUTCB e COB) convocaram mobilizações nacionais que reuniram sindicatos urbanos, mineiros, transportadores, campesino-indígenas, profissionais da saúde e do magistério. Os protestos denunciaram o favorecimento das elites econômicas, criticaram o aumento do custo de vida e acusaram o governo de abrir caminho para a privatização de recursos como lítio, hidrocarbonetos e terras raras.
Embora o governo tenha revogado o Decreto 5503 em janeiro, a crise continuou se aprofundando. Em fevereiro, novas manifestações emergiram diante da escassez de combustíveis e denúncias de adulteração. Em abril, a promulgação da Lei 1720 voltou a intensificar os conflitos e a fratura institucional do governo ao permitir que pequenas propriedades rurais fossem convertidas em médias propriedades, ampliando acesso a crédito.
Movimentos sociais denunciaram a medida como um retrocesso histórico, argumentando que ela permitiria o confisco de terras familiares e favoreceria a concentração fundiária, enfraquecendo proteções conquistadas pela reforma agrária.
A tensão aumentou quando Paz propôs, em maio, reformas para ampliar autonomias regionais e flexibilizar normas constitucionais sobre mineração e hidrocarbonetos para atrair investimentos estrangeiros. A agenda foi recebida por muitos setores como uma tentativa de aprofundar o neoliberalismo e enfraquecer a soberania estatal sobre recursos naturais.
Reivindicações convergentes
Os protestos passaram, então, a articular pautas diversas em torno de reivindicações convergentes: rejeição às privatizações e à austeridade, defesa de territórios e recursos naturais, recomposição salarial diante da inflação, manutenção dos subsídios aos combustíveis e retorno do imposto sobre grandes fortunas. Também ganharam força críticas ao alinhamento do governo com interesses internacionais e aos riscos de aprofundamento da dependência externa em setores estratégicos.
Assim, ainda que lideranças indígenas do Oriente (CIDOB) venham defendendo desescalonamento (expondo uma fratura antiga entre povos das Terras Baixas e Altas), seguem nas ruas setores tradicionalmente masistas: sindicatos mineiros e urbanos, bases e organizações indígenas do Altiplano (CONAMAQ, CSUTCB), cocaleiros e suas federações, associações de moradores (FEJUVEs), transportadores, magistério e servidores públicos.
Suas formas de mobilização remetem a ciclos históricos de protesto na Bolívia: bloqueios de estradas, marchas em direção a La Paz, manifestações de rua, paralisações nacionais e dinamitazos. Destaca-se sobretudo o engajamento ativo da COB e da Federação Departamental Única de Trabalhadores Camponeses de La Paz "Túpac Katari" (afiliada à CSUTCB), que mais vêm preocupando o governo.
As mobilizações já provocaram a revogação do Decreto 5503 e da Lei 1720, a queda de ministros (Hidrocarbonetos, Trabalho, Defesa, Educação) e da direção da estatal petrolífera YPFB. Ampliou-se o isolamento político de Paz, atingindo inclusive sua coalizão: o vice-presidente rompeu publicamente com o governo, enquanto elites regionais de Santa Cruz e empresários nacionais pressionam o Executivo.
Propostas de conciliação recentes envolveram a redução em 50% nos salários do gabinete, políticas de alívio fiscal e a criação de espaços mediadores (Conselho Econômico Social, Comissão de Diálogo).
Ao mesmo tempo, seguem os episódios de repressão, criminalização de militantes e mandados de prisão contra dirigentes (como Mario Argollo da COB, Vicente Salazar da CSUTCB, Justino Apaza da FEJUVE paceña e Bernabé Gutiérrez dos Ponchos Rojos) - totalizando ao menos 7 mortos, 23 feridos e 321 detidos apenas em maio. Os protestos também foram denunciados pelos Estados Unidos como tentativa de "golpe de Estado", reforçando a dimensão internacional da crise.
Apesar do discurso oficial de pacificação, o conflito segue sem solução. O que começou como um conjunto de reivindicações setoriais articulou-se cada vez mais em torno do "¡Fuera Paz!", engendrando uma profunda crise de governabilidade (diante de base social deficitária do governo, instabilidade parlamentar e uma La Paz cercada e desabastecida).
O futuro político da Bolívia permanece aberto. Paz tece laços com a extrema-direita internacional e negocia um empréstimo com o FMI. Evo Morales (resguardado em Cochabamba desde 2024 diante de diferentes pedidos de prisão) voltou a defender eleições antecipadas, rememorando sua proposta na Guerra do Gás de 2003.
Mas o governo não recua, e avanços concretos em direção a um "estado de exceção" causam preocupação quanto ao aumento da repressão.
Ausência de liderança unificada
Ao mesmo tempo, diante do cansaço social, surgiram sinais de desgaste dentro dos setores mobilizados. Nos últimos dias, o número de pontos de bloqueio caiu de mais de 100 para 50, enquanto cinco das nove centrais operárias departamentais (CODs) defenderam que a COB aceite diálogo institucional - posição para a qual sua direção vem demonstrando abertura. Por outro lado, a "Túpac Katari" e os cocaleiros mantêm pressão, concentrando os principais bloqueios entre La Paz, El Alto, Cochabamba e Oruro.
No contexto de um sistema partidário esfacelado, o projeto EVO Pueblo pode vir a ganhar relevância nas próximas disputas (sobretudo caso consiga registro eleitoral). Ainda assim, os protestos seguem sem liderança unificada. A ausência de uma força política transversal gera dúvidas sobre o futuro do MAS, o peso de Evo e a possibilidade de emergência de novas figuras no cenário nacional.
Contudo, mesmo em meio às divisões recentes, um elemento atravessa os diferentes setores mobilizados: a construção de Rodrigo Paz como novo inimigo comum do campo popular. Nesse sentido, os protestos atuais talvez representem mais do que uma reação conjuntural à crise econômica. Eles podem sinalizar o início de uma recomposição da esquerda social boliviana após anos de fragmentação institucional e disputas internas no MAS
Luan Cardoso Ferreira não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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