Cuidado contínuo de idosos exige reorganização das famílias
O cuidado diário de idosos pode exigir mudanças no trabalho e na rotina familiar. Dados sobre cuidadores e a experiência da Serena Nobre mostram os desafios de organizar a presença, o revezamento e o acompanhamento ao longo do tempo.
O agravamento da saúde de idosos costuma inviabilizar escalas familiares informais, exigindo cuidados contínuos de longo prazo. No Brasil, milhões cuidam de parentes idosos e um quarto abandona trabalho ou estudos para a função. Diante de transformações sociais apontadas pela OCDE, a contratação de cuidadores profissionais surge como solução para garantir assistência contínua, aliviar a sobrecarga dos parentes, monitorar a saúde do idoso e devolver a sustentabilidade à convivência familiar.
Em muitas famílias, a conversa sobre o cuidado de um pai ou de uma mãe começa por uma escala: quem fica de manhã, quem dorme na casa, quem leva ao médico na quinta-feira. Enquanto o idoso anda sozinho e lembra-se dos remédios, a escala de cuidados funciona com algum esforço. Quando o quadro muda, depois de uma queda, de um AVC ou de um diagnóstico de demência, a escala deixa de funcionar. É nesse momento que a soma de visitas dá lugar ao cuidado de longo prazo, que exige alguém presente todos os dias.
A situação está longe de ser rara. Em 2022, 5,3 milhões de pessoas de 14 anos ou mais cuidavam de moradores de 60 anos ou mais do próprio domicílio, segundo a PNAD Contínua do IBGE. No ELSI-Brasil, estudo com dados de 2015 e 2016 sobre pessoas com 50 anos ou mais, 25,8% dos cuidadores principais tinham deixado de trabalhar ou de estudar para cuidar. No relatório Health at a Glance 2025, a OCDE aponta que famílias menores, maior mobilidade geográfica e a maior participação das mulheres no mercado de trabalho pressionam, nos países da organização, a disponibilidade de quem cuida de parentes e amigos.
Na Serena Nobre, empresa de cuidadores de idosos em São Paulo, o cuidado contínuo é organizado em plantões de 8 a 24 horas, com profissionais especializados e formação em saúde. A maior parte das famílias atendidas está no plantão de 12 horas. O de 24 horas costuma entrar quando o quadro se agrava: o idoso perde mobilidade, precisa mudar de posição na cama durante a madrugada ou volta para casa depois de um AVC. Nesse formato, três ou quatro profissionais se revezam ao longo da semana. A família recebe todos os dias um relato do que aconteceu no plantão.
"Quem está todo dia entende o que o idoso não diz: as atitudes, a falta delas, se está mais alegre ou não", afirma o fundador, Luiz Gustavo Dávila. É no relato diário que aparecem, antes de a família perceber, sinais como apatia, esquecimento ou uma mudança no jeito de andar. São informações que a família pode levar ao médico na consulta seguinte.
A presença também muda a rotina de quem é cuidado. Dávila relata que, com companhia diária, é comum ver o idoso "reacender" e a disposição melhorar com o tempo. São gestos de convívio: o café tomado junto, a conversa, a ida à feira, um almoço fora, a visita a uma amiga. O revezamento não substitui a família; retira dela a obrigação de cobrir todos os turnos e preserva o que só ela oferece: a visita, o telefonema, as decisões e a história em comum.
A Serena Nobre apoia o Instituto Hikari, associação sem fins lucrativos de São Paulo presidida por Miyako Kohata Akazawa. O instituto oferece estadia gratuita a pacientes de outros estados em tratamento para transplantes de coração, pulmão, fígado, rim e pâncreas. A estadia pode durar muito: no site do instituto, há o relato de um paciente que aguarda um transplante de pulmão há dois anos.
"Conhecemos de perto o trabalho do Hikari com pacientes que chegam de outros estados para um transplante. É o tipo de cuidado em que acreditamos", diz Dávila. Além dos mantenedores e da venda de produtos da causa, cuja renda é revertida integralmente em benfeitorias e manutenção da casa, o instituto busca empresas patrocinadoras para manter a estadia gratuita, segundo a presidente.
Para a família que ainda tenta fechar a escala, alguns sinais indicam que o cuidado já se tornou de longo prazo: alguém deixou de trabalhar para ficar com o idoso, um parente passou a dormir na casa todas as noites ou mudanças de comportamento acontecem sem que ninguém as registre. Nesse ponto, a pergunta muda: em vez de perguntar "quem leva ao médico na quinta-feira?", é preciso pensar em como dividir o cuidado para que ele seja sustentável, seja entre parentes, com profissionais ou com ambos.
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