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O que são os interferons, 'soldados na linha de frente' da luta do corpo contra o coronavírus

Os seres humanos produzem interferons naturalmente para combater os efeitos de alguns vírus. Agora, os cientistas estão procurando maneiras de usá-los para combater pandemia.

14 set 2020
07h47
atualizado às 08h18
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Os tratamentos com interferon são usados ​​há anos para doenças como a esclerose múltipla
Os tratamentos com interferon são usados ​​há anos para doenças como a esclerose múltipla
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Eles foram chamados de "nossos melhores soldados".

Assim, o mais conhecido epidemiologista e líder nos Estados Unidos na luta contra o coronavírus, Anthony Fauci, descreveu os interferons.

E, de acordo com especialistas consultados pela BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, Fauci não estava exagerando.

Os interferons são glicoproteínas com alta atividade antiviral produzidas em nosso corpo. Eles são considerados parte essencial da defesa do organismo contra múltiplos vírus, incluindo o novo coronavírus.

Na verdade, diferentes estudos sugerem que o fortalecimento da presença dessas moléculas no corpo humano com o tempo pode inibir fortemente os efeitos da covid-19.

A esperança é que, junto com outros tratamentos, a recuperação possa ser acelerada e os danos à saúde a longo prazo possam ser evitados.

Mas estudiosos ressaltam também há riscos quando a doença já está avançada devido aos possíveis intensos efeitos colaterais.

Apesar disso, os tratamentos com interferon já são usados em doenças como a hepatite C e a esclerose múltipla.

Os interferons são produzidos naturalmente pelo corpo humano, mas os tratamentos foram desenvolvidos para fortalecer o sistema imunológico
Os interferons são produzidos naturalmente pelo corpo humano, mas os tratamentos foram desenvolvidos para fortalecer o sistema imunológico
Foto: BBC News Brasil

Descrição

"Eles são os nossos soldados da linha de frente. Quando você se infecta com um vírus, as células realizam um trabalho fundamental. Podemos dizer que a primeira coisa que fazem é um chamado para aumentar as defesas do organismo. Essa ação é mediada por essas proteínas chamadas interferons", explica Benjamin tenOever, diretor do Centro de Engenharia de Vírus para Terapia e Pesquisa, com sede em Nova York.

O médico descreve, por exemplo, que os interferons agem quando as pessoas têm sintomas de um resfriado ou gripe, como febre e dores no corpo.

"Eles lutam contra os efeitos que os vírus produzem, tentando reduzir seus efeitos", diz ele.

Por sua vez, um ensaio produzido por cientistas alemães, publicado em julho pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, indica que os interferons "reagem rapidamente durante o processo de uma infecção viral."

"Eles são uma parte essencial de um mecanismo de defesa muito antigo."

Contra o coronavírus

Segundo a equipe de médicos alemães, um indicador da importância dos interferons é a constatação de que, em culturas de células e experimentos com animais, eles podem inibir fortemente os efeitos do coronavírus.

É por isso que diferentes estudos no mundo visam aumentar sua capacidade no corpo humano, o que significaria que o sistema imunológico das pessoas teria mais opções para que a covid-19 não produza efeitos graves ou fatais.

Até o dia 14 de setembro, 924.643 pessoas já tinham morrido por contágio do novo vírus e mais de 29 milhões de infecções foram registradas no mundo.

Estados Unidos, Brasil, Índia e México são os países com o maior número de mortes pela pandemia.

Benjamin tenOever explica que não é surpresa que os interferons sejam uma forma eficaz de combater infecções como o coronavírus, mas ele também diz que há alguns problemas.

Até o final de agosto, a pandemia causou mais de 850 mil mortes
Até o final de agosto, a pandemia causou mais de 850 mil mortes
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Os perigos

"Pode haver casos em que, se esta proteína for administrada como medicamento, você poderá ter a pior gripe da sua vida. Uma dose pode ser muito maior do que o que seu corpo pode produzir naturalmente e você se sentirá péssimo mesmo no caso em que os interferons ajudem a combater o vírus", explica ele.

O especialista afirma que esse é um dos motivos pelos quais ainda se discute se essa possibilidade deve ser utilizada de forma mais ampla com os infectados pelo novo coronavírus.

E existe a possibilidade de que os possíveis efeitos deste procedimento sejam definidos pelo momento em que ele é aplicado.

Uma dose em estágio inicial da infecção pode ser mais eficaz do que quando o paciente já está internado, "mas isso é algo que ainda está em análise", diz tenOever.

"Ainda não está claro. É algo que ainda não sabemos e, além disso, ele atua de forma diferente em cada caso", afirma.

E é por isso que cientistas de todo o mundo estão estudando como os interferons podem ser usados de uma maneira melhor.

Ao mesmo tempo, diferentes laboratórios em todo o mundo tentam desenvolver uma vacina contra a covid-19 que seja segura e eficaz.

O momento de agir parece ser vital, de acordo com uma pesquisa de um grupo de cientistas franceses liderado por Jérôme Hadjadj.

Cuba desenvolveu seu medicamento Interferon Alfa 2b há mais de duas décadas
Cuba desenvolveu seu medicamento Interferon Alfa 2b há mais de duas décadas
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Em um artigo publicado na revista Science, eles explicam que a produção de células do sistema imunológico diminui em casos avançados da doença.

"Descobrimos que quanto mais graves os pacientes estavam, menos interferon tipo 1 eles produziam", observa o artigo intitulado "Atividade prejudicada do interferon tipo 1 e respostas inflamatórias em pacientes graves com covid-19".

TenOever, por sua vez, acrescenta que, em casos avançados, o vírus "reprime muito ativamente a produção e a ação dos interferons".

Embora esses tratamentos para o vírus não tenham o aval da Organização Mundial da Saúde (OMS), eles já são usados em países como Cuba, que desenvolveu seu medicamento Interferon Alfa 2b há mais de duas décadas com tecnologia própria.

O Ministério da Saúde Pública da ilha destaca que a inclusão do medicamento em seus protocolos de tratamento trouxe resultados positivos.

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