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Guerra de preços diminui estoques dos supermercados e já falta até chocolate nas prateleiras

Varejistas vêm trabalhando com estoques cada vez menores e repondo menos os produtos não essenciais

24 jun 2022 - 22h01
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Os preços mais altos têm feito os supermercados apostarem menos na reposição de itens não essenciais. Antes, no auge da distribuição de auxílios durante a pandemia, a demanda dos consumidores levava as redes a aceitarem mais repasses de preço da indústria que, por sua vez, vivia um período de maior escassez de insumos. Hoje, a alta inflacionária e o menor poder de compra da população já leva a outro efeito, de menor demanda por aquilo que não faz parte da cesta básica. Como consequência, clientes podem sentir falta de alguns produtos como o chocolate em barra nas prateleiras. Se não é prioridade no carrinho dos consumidores, os estoques ficam menores para forçar menos repasses de custos dos fabricantes.

No mês de maio, a indisponibilidade de chocolates disparou nas gôndolas e a venda desse item diminuiu. A falta de barras de chocolate nas prateleiras atingiu o patamar de 20,3%, maior indisponibilidade desde maio de 2020, quando o índice atingiu 17,8%. Em abril, o indicador havia ficado em 11,1%. Os números são do Índice de Ruptura da Neogrid, que considera os dados de cerca de 80% das maiores redes supermercadistas do Brasil.

Para o diretor de Sucesso do Cliente da Neogrid, Robson Munhoz, com a inflação e o embate entre indústria e varejo para que o custo da produção não seja repassado aos itens nas gôndolas, os varejistas vêm trabalhando com estoques cada vez menores e repondo menos os chamados produtos de indulgência, aqueles que os consumidores compram para se presentear.

"O supermercado abasteceu menos, a prateleira está menos reforçada, e, tirando o efeito Páscoa, quando a ruptura no mês seguinte ao evento de fato sobe um pouco, agora o que vimos é uma diminuição de estoque e de venda - o varejo comprou menos chocolate porque acreditou que venderia menos em virtude do aumento de preço e da dificuldade de dinheiro do consumidor no supermercado", afirma Munhoz.

Queda de braço

Eugênio Foganholo, sócio da consultoria especializada em varejo Mixxer, diz que, hoje, os custos de produção continuam a aumentar, mas a novidade é que a demanda diminuiu. "Isso faz com que aquilo que o varejista em geral pagava 'qualquer preço', hoje já não pague. A queda de braço tende a ser cada vez mais acirrada entre fabricantes e varejistas. Antes, quem queria comprar era o varejo. Hoje, o fabricante é quem quer vender", afirma. Ele lembra que a cesta de compras dos consumidores diminuiu em razão da alta dos preços, além das trocas por marcas mais baratas. "Nos próximos meses, teremos instabilidade e tensão na relação (entre varejo e indústria), pois é preciso haver ajuste entre oferta e demanda", diz.

O consultor acredita que os recentes pedidos do presidente da República, Jair Bolsonaro, para que o setor de supermercados obtenha o 'menor lucro possível' na cesta básica, além de falas do ministro da Economia, Paulo Guedes, pedindo uma nova tabela de preços só em 2023, não interfiram nas negociações reais entre varejistas e fabricantes: "é mais discurso", diz.

Foganholo chama a atenção, porém, para a falta de familiaridade do empresariado do setor com um momento econômico como o que se vive hoje. "A grande novidade é que, em geral, poucos gestores atuais, vivenciaram um período inflacionário. Como consequência, esse está sendo um aprendizado para eles. Nesses patamares tão elevados e persistentes, a inflação é novidade para muitos fabricantes e varejistas", diz. Nesse contexto, ele diz que é difícil decidir o momento de repassar preços ao consumidor, reduzir estoques ou aproveitar oportunidades para reabastecê-los. "A tendência é que os estoques sejam segurados, menos abastecidos", diz.

Vendas menores

Ainda de acordo com o indicador da Neogrid, a venda média de unidades de chocolate registrou o menor volume em três anos (2020 a 2022), repetindo o patamar de janeiro deste ano. Por questões contratuais, no entanto, a Neogrid não divulga números absolutos de estoque e venda. Para Munhoz, da Neogrid, a conta é simples: "Com menor poder de compra e produtos mais caros, o consumidor não vai praticar indulgência consigo: vai comprar aquilo que é básico". Daí o menor empenho em manter os estoques desses itens cheios.

Em maio, a Horus - empresa de inteligência de mercado da Neogrid - constatou retração na incidência de chocolate nos cupons de compra em relação ao mês anterior. Em abril, mês da Páscoa, o chocolate esteve presente em 14% dos carrinhos de compras, enquanto em maio essa proporção caiu para 9,5%, derrubando também o tíquete médio em 43% e o número médio de unidades de 2,7 para 2,1. Nos 12 meses entre junho de 2021 e maio de 2022, segundo a Horus, o preço médio do chocolate aumentou 22,7%. No ano de 2022, o IPCA acumula alta de 4,78% e, nos últimos 12 meses, de 11,73%.

Sobre a falta de barras de chocolate nas prateleiras e as vendas menores ao consumidor, a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab) disse em nota ao Estadão/Broadcast que "tem como diretriz não comentar sobre o preço dos produtos aplicados por seus associados, bem como sobre volume de vendas, que é uma estratégia individual de cada indústria". E complementa: "As empresas do mercado estão sempre procurando oferecer soluções dos mais diversos preços, gramaturas, formatos e embalagens para garantir que o consumidor tenha a oportunidade de consumir da maneira que quiser e como puder".

A associação pontua ainda que o preço do chocolate em geral é impactado por diferentes fatores. "O cacau, açúcar e o leite, por exemplo, assim como a variação do dólar, contratações, distribuição e impostos, também influenciam. Há de se considerar também a inflação, que ficou em dois dígitos nos últimos 12 meses".

Ruptura em geral

A ruptura geral das categorias em maio ficou em 11,5%, pouco acima dos 10,8% registrados em abril e também em março. Estoque e venda gerais praticamente não se alteraram em relação a abril - mês que registrou o menor estoque desde o começo da pandemia, em 2020.

"O estoque segue baixo, e o varejista continua se vendo obrigado a negociar com a indústria, que ainda tenta repassar o aumento de preço por conta do aumento de insumos", destaca Munhoz, diretor da Neogrid. Com isso, afirma, "essa negociação vai ficando mais dura e acirrada e competitiva".

Estadão
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