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Bolsonaro pede unificação da narrativa no combate à covid-19

Ofício orienta que ministérios submetam todas comunicações relacionadas à covid-19 à Secretaria de Comunicação da Presidência

30 mar 2020
12h59
atualizado às 13h27
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BRASÍLIA - Confrontado publicamente por declarações desencontradas dentro do próprio governo sobre o combate ao novo coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro tenta assumir o controle sobre a estratégia de divulgação das medidas que estão sendo adotadas para conter a crise. Um ofício enviado pela Casa Civil na última segunda-feira, 23, orienta que os ministérios submetam todas as comunicações relacionadas à covid-19 à Secretaria de Comunicação da Presidência "para que haja unificação da narrativa".

O presidente Jair Bolsonaro, conversa com a imprensa na saída do Palácio da Alvorada em Brasília (DF)
O presidente Jair Bolsonaro, conversa com a imprensa na saída do Palácio da Alvorada em Brasília (DF)
Foto: Frederico Brasil / Futura Press

O Estadão/Broadcast teve acesso ao ofício, assinado pelo ministro-chefe da Casa Civil, Walter Souza Braga Netto. No documento, ele informa que foi incumbido pelo presidente de informar que todas as entrevistas concedidas à imprensa sobre o coronavírus serão realizadas no Palácio do Planalto, com coordenação prévia entre os órgãos, e que todas as notas divulgadas pelos ministérios só poderão ser publicadas após combinação com a Secom.

Desde a semana passada, o presidente tem sido confrontado por governadores, chefes de poder, parte do empresariado e por economistas devido à sua posição em relação à pandemia. Enquanto o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, defendia medidas de isolamento social para conter o avanço da infecção, Bolsonaro passou a acenar a outra parcela de empresários, que veem no afrouxamento da quarentena o remédio para a paradeira que acometeu a economia brasileira.

A determinação para a centralização da comunicação veio no mesmo dia da trapalhada envolvendo a Medida Provisória que flexibilizou regras trabalhistas durante a crise da covid-19. O texto enviado pela equipe econômica e que havia sido publicado na noite de domingo, 22, permitia, na interpretação de pessoas fora do governo, a suspensão de contratos sem qualquer remuneração ao trabalhador. A hashtag #BolsonaroGenocida explodiu nas redes.

Embora tenha tentado primeiro defender a medida, o presidente voltou ao Twitter pouco antes das 14h do dia 23 para anunciar que revogaria o dispositivo. Uma hora antes, Braga Netto havia assinado eletronicamente o ofício e disparado aos ministérios a orientação de "unificação de narrativa".

O envio do documento ocorreu um dia antes do pronunciamento de Bolsonaro em cadeia nacional, quando o presidente defendeu o fim do "confinamento em massa" da população, mesmo com o avanço da pandemia. Como mostrou o Estado, a elaboração do texto do pronunciamento ocorreu no gabinete presidencial em segredo, com a presença de poucas pessoas — uma delas era o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), considerado o mais radical do clã.

Efeitos

O governo Bolsonaro tem 22 ministérios, sem considerar agências reguladoras federais. Cada órgão tem seu próprio departamento de comunicação. É comum as pastas conduzirem anúncios e entrevistas para esclarecer as medidas de forma autônoma. Muitas já contavam inclusive com estrutura própria de transmissão preparada — uma estratégia adotada para evitar aglomeração de jornalistas e autoridades num mesmo local.

Sob a nova orientação, os ministérios cancelaram as coletivas que detalhavam as medidas e agora dependem do sinal verde do Palácio do Planalto para agir. A estratégia de centralização não foi bem recebida na Esplanada dos Ministérios. Um comunicado adicional enviado após o ofício reforçou que "é importante que nenhuma medida nova seja divulgada sem a conformidade da Secom".

Bolsonaro, por sua vez, tem aproveitado para capitalizar as iniciativas e tentar ganhar protagonismo na gestão da crise num momento de forte oposição dos governadores, que têm adotado posição distinta em relação ao confinamento, defendendo regras mais rígidas de circulação de pessoas para frear a contaminação. Nos últimos dias, Bolsonaro tem feito questão de participar dos anúncios da área econômica, mesmo que de forma breve, apenas na abertura.

Procurada, a Casa Civil não informou o que entende por "unificação da narrativa", nem quais ministérios estavam em desacordo com a narrativa desejada pela Presidência a ponto de suscitar a nova orientação.

A pasta coordena o Comitê de Crise e também o Centro de Coordenação de Operações, criado para "operacionalizar as ações e atividades desenvolvidas pelas estruturas do governo federal".

"O objetivo de centralizar algumas atividades desta área no Palácio do Planalto está relacionado à presença de jornalistas no comitê de imprensa, à maior quantidade e qualidade de meios para a realização de coletivas e à possibilidade de otimizar os horários de realização, tudo com o intuito de divulgar, em maior escala, as iniciativas do governo no enfrentamento ao coronavírus", disse a Casa Civil.

Segundo a pasta, as orientações citadas no ofício pretendem "permitir a organização, o conhecimento e o alinhamento das atividades planejadas e executadas por cada órgão". A Casa Civil diz ainda que "a realização diária da coletiva de imprensa pelo ministério da Saúde e as postagens das redes sociais de cada um deles são exemplos de autonomia total dos ministérios".

Procuradas, Secom e Secretaria de Governo (à qual a Secom é ligada) não responderam.

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Estadão
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