Coreia do Sul testa rota marítima alternativa pelo Ártico para evitar Oriente Médio
A Coreia do Sul começou a testar uma rota marítima comercial pelo Ártico até a Europa como alternativa mais curta ao Canal de Suez, buscando contornar conflitos no Oriente Médio. Viabilizada pelo derretimento do gelo polar, a via reduz o trajeto em 7 mil km e já é explorada por China e Rússia. Apesar do ganho logístico durante o verão, a iniciativa gera preocupações entre ambientalistas e grandes armadoras devido aos impactos ecológicos e climáticos sobre a sensível região ártica.
Seul estuda viabilidade de rota marítima do Ártico até a Europa, mais curta que a convencional, em meio ao derretimento do gelo marítimo pelo aquecimento global e às tensões no Oriente Médio.A Coreia do Sul está pondo em prática, pela primeira vez, o plano de usar comercialmente a rota marítima do Norte, também conhecida como passagem do Nordeste, uma via que liga os oceanos Atlântico e Pacífico pelo Ártico, passando ao longo da costa norte da Europa e da região russa Sibéria.
O navio porta-contêineres PanStar Acro iniciou a viagem experimental no sábado (22/08), partindo do porto sul-coreano de Busan com destino aos portos de Felixstowe, no Reino Unido, Roterdã, na Holanda, e Gdansk, na Polônia.
A bordo estão, entre outras cargas, produtos químicos e carros usados. Segundo o Ministério dos Oceanos e da Pesca da Coreia do Sul, toda a viagem, incluindo o retorno a Busan, deve durar cerca de 45 dias.
A busca por uma nova rota marítima viável em meio ao gelo é uma resposta ao conflito em curso no Oriente Médio, desencadeado pelos ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã em fevereiro, que abalou o transporte marítimo global. Com o aquecimento global e o derretimento do gelo marinho, a passagem tem sido cogitada como uma via alternativa por governos e empresas.
Na travessia sul-coreana, serão coletados dados sobre tempo de navegação, consumo de combustível e custos operacionais para entender se as águas estreitas que separam o Alasca da Rússia podem se tornar uma passagem permanente para a navegação entre a Ásia e a Europa durante os verões. A longo prazo, Seul pretende estabelecer a ligação como uma nova rota comercial e transformar Busan em um centro logístico internacional.
Bem mais curta que a rota pelo Canal de Suez
Atualmente, a rota marítima convencional entre a Coreia do Sul e a Europa passa pelo oceano Índico, pelo mar Vermelho e pelo Canal de Suez. Segundo o Instituto Coreano de Política Econômica Internacional (Korea Institute for International Economic Policy), esse trajeto é cerca de 7.000 quilômetros mais longo e exige aproximadamente dez dias a mais de viagem do que a rota pelo Ártico.
A rota, porém, ainda só pode ser utilizada de forma sazonal. Sem o auxílio de quebra-gelos, os navios porta-contêineres só conseguem atravessar a passagem durante os meses de verão, quando o gelo marinho recua o suficiente. Com as mudanças climáticas, o período em que a rota permanece navegável está se tornando mais longo.
China e Rússia na vanguarda
A Coreia do Sul não é o único país a apostar cada vez mais na rota ártica. Rússia e China já vêm expandindo seu uso comercial.
Em 15 de agosto, o navio porta-contêineres Dubai Tower, operado por uma empresa de navegação chinesa, partiu de Ningbo, no leste da China, rumo à Europa pela rota do Ártico. A viagem faz parte de um novo serviço sazonal regular que pretende reduzir pela metade o tempo de transporte entre a China e a Europa.
A Rússia utiliza a passagem do Nordeste, entre outros fins, para transportar gás natural liquefeito do porto de Sabetta, na península de Yamal, na Sibéria, para clientes na Ásia. O primeiro navio porta-contêineres do mundo a percorrer a rota ártica realizou a travessia em 2018.
Alerta para riscos ambientais
Ao mesmo tempo em que cresce o interesse por essa rota marítima, aumentam também as preocupações com os impactos sobre o sensível meio ambiente do Ártico. Ambientalistas alertam que o aumento do tráfego marítimo pode perturbar ecossistemas e acelerar ainda mais o derretimento do gelo marinho.
Por esse motivo, várias grandes companhias de navegação anunciaram que, por enquanto, evitarão utilizar rotas pelo Ártico. Entre elas estão a alemã Hapag-Lloyd, a suíça MSC e a francesa CMA CGM.
"A Rota do Mar do Norte tornou-se progressivamente mais viável porque o Ártico está aquecendo cerca de quatro vezes mais rápido do que a média global, o que levou a uma forte redução da cobertura de gelo marinho", afirmou o Centro Paran Ocean Citizen Science, grupo ambientalista sul-coreano, em comunicado divulgado no ano passado.
"Mas tornar a rota comercialmente viável exigiria um aquecimento ainda maior, o que coloca essa política em conflito com os esforços para combater as mudanças climáticas."
(AFP, dpa)
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