Como radicalização aproxima extremismo religioso e de direita na Alemanha
Após ataque à Parada LGBTQ+ em Berlim, especialista vê paralelos entre extremismo religioso e de direita. Pesquisa indica que os dois grupos compartilham visões, se alimentam mutuamente e acentuam divisões na sociedade.O ataque contra a Parada do Orgulho LGBTQ+ em Berlim causou choque na Alemanha e reacendeu o debate sobre radicalização no país, que nos últimos anos foi palco de uma série de atentados cometidos com veículos e armas brancas. Enquanto ganham força correntes motivadas por ideologias religiosas, avança também, em outro espectro, o extremismo de direita.
Em 2025, a Alemanha registrou um recorde de crimes com motivação política, incluindo delitos ligados a preconceito de etnia, nacionalidade, religião ou orientação sexual. Metade das ocorrências foi atribuída à motivação política de direita. O agravamento do clima social impulsionou não apenas os discursos de ódio, mas também os crimes violentos, que cresceram no período.
O autor do ataque, Abdul Ballout, de 21 anos, já era conhecido das autoridades de segurança por seus vínculos com o islamismo radical e por ter tentado se juntar ao Estado Islâmico. Ele havia sido condenado duas vezes, participava de um programa de desradicalização e aguardava uma decisão judicial sobre uma possível pena de prisão quando cometeu o atentado.
Jakob Guhl, diretor de Políticas e Pesquisa do Instituto para o Diálogo Estratégico (ISD), em Londres, vê uma relação entre o islamismo radical e grupos de extrema direita em alguns aspectos. Na avaliação dele, as duas correntes se alimentam mutuamente e compartilham a mesma visão de que a convivência pacífica entre muçulmanos e não muçulmanos seria impossível.
Experiências de discriminação enfrentadas por jovens muçulmanos na Alemanha, situações de marginalização e a cobertura negativa sobre o islã são frequentemente apresentadas como prova de uma suposta hostilidade do Estado alemão à religião.
"Na visão dos islamistas radicais, a extrema direita representa os alemães como um todo. Já os grupos ultranacionalistas afirmam que os islamitas radicais representam os muçulmanos em geral", afirmou Guhl.
Em estudo publicado em 2018, intitulado "Loving Hate: Anti-Muslim Extremism, Radical Islam and the Spiral of Polarization" ("Amando o ódio: extremismo antimuçulmano, islamismo radical e a espiral da polarização"), Guhl e outros autores identificaram um objetivo comum entre ambos os campos: aprofundar divisões sociais e criar um ambiente favorável à radicalização.
"Há uma tentativa de dividir a sociedade em dois campos", disse ele à DW.
Paralelos entre diferentes correntes radicais
As duas ideologias convergem em diversos pontos, como o desprezo pelas sociedades liberais ocidentais, a adesão a teorias conspiratórias, a desconfiança em relação às instituições, posições antifeministas e a hostilidade contra pessoas LGBTQ+.
Essa população tem sido alvo de episódios de violência e ameaças contra eventos do orgulho em outras cidades europeias. Casos de maior repercussão fora de Berlim incluem o atentado ao London Pub, em Oslo, na Noruega, durante a Parada de 2022.
"As razões para rejeitar a comunidade LGBTQ+ são diferentes. Do ponto de vista religioso e ideológico, essas pessoas acreditam que ela contraria os mandamentos de Deus", explicou Guhl. "Entre os grupos de extrema direita, a motivação costuma estar ligada a uma visão biologizante e racialista, segundo a qual isso reduziria a taxa de natalidade e enfraqueceria a nação."
Na Alemanha, as autoridades acompanham há anos o surgimento de uma nova geração de militantes, formada por jovens mais propensos à violência e mobilizados contra a população queer.
Discurso de ódio nas redes alimenta a radicalização
Para conter a disseminação dessas ideias, Guhl e outros autores defendem medidas mais rigorosas contra discursos de ódio nas redes sociais, já tomado como crime na Alemanha. Também pedem que a imprensa evite coberturas unilaterais e a busca por culpados, o que, segundo eles, contribui para a polarização.
Guhl cita como exemplo o debate atual sobre a origem do autor do ataque em Berlim, que gerou intenso debate político e pedidos por endurecimento de regras de cidadania. O mesmo aconteceu em incidentes anteriores, que alimentaram a polarização do debate ao redor da tragédia.
"Considero problemática a discussão sobre a nacionalidade do agressor. Existe o risco de se criar uma sociedade dividida em diferentes categorias de pertencimento. Isso é contraproducente para enfrentar os processos de radicalização", afirmou.
Para o pesquisador, também é fundamental destacar os pontos em comum entre muçulmanos e não muçulmanos.
"Compartilhamos muito mais coisas do que aquelas que nos separam."
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