Marrocos atribui crise migratória em Ceuta à desinformação e ao tráfico
Em primeiro pronunciamento, Rabat diz que 11 pessoas morreram nas travessias, número muito inferior ao divulgado pela Espanha. Ministro afirma que decisão judicial disparou notícias falsas nas redes.O governo do Marrocos se pronunciou pela primeira vez neste domingo (2/8) sobre a crise migratória que levou dezenas de milhares de pessoas a cruzar a fronteira rumo aos enclaves espanhóis de Ceuta e Melilla.
Rabat vinha sendo criticada pelo silêncio sobre o incidente e acusada de facilitar a tragédia ao não impedir a travessia em direção a Ceuta nem de identificar que milhares de pessoas se deslocavam internamente no país rumo ao norte.
Em comunicado, o ministro do Interior marroquino, Abdelouafi Laftit, atribuiu a onda de travessias em massa à disseminação de informações falsas nas redes sociais, à atuação de redes de tráfico humano e à interpretação equivocada de uma decisão judicial espanhola relacionada à devolução de migrantes interceptados no mar.
Ele informou que pelo menos 40 mil pessoas tentaram atravessar para Ceuta e que 11 morreram durante as tentativas. Os números são bem menores que os informados por autoridades espanholas, que falam em 72 vítimas fatais e ao menos 50 mil imigrantes.
Em entrevista ao jornal espanhol El País, o presidente do governo de Ceuta, Juan Jesús Vivas, afirmou que o necrotério local recebeu 88 corpos. Segundo ele, parte das vítimas pode ter relação com tentativas outras tentativas de chegada ao enclave registradas nas últimas duas semanas. Vivas também disse que as autoridades marroquinas recuperam corpos no mar, embora não existam números oficiais disponíveis.
Decisão judicial espanhola vira foco do debate
A explicação do governo marroquino coincide com a apresentada pelo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez. Segundo ele, redes de tráfico humano exploraram uma interpretação distorcida de uma recente decisão do Tribunal Supremo da Espanha para incentivar a travessia.
Sánchez afirmou que a mensagem teria se espalhado rapidamente pelas redes sociais, alimentando a percepção de que seria mais fácil permanecer em território espanhol após chegar por mar.
A decisão judicial do começo de julho proibiu a devolução imediata de migrantes interceptados no mar, prática conhecida como "devoluciones en caliente". A medida não impede deportações nem se aplica a quem cruza irregularmente a fronteira terrestre de Ceuta ou Melilla, mas foi interpretada por muitos como uma flexibilização das regras de entrada.
Apesar disso, analistas questionam se a decisão judicial, sozinha, seria suficiente para explicar a entrada de mais de 50 mil pessoas em poucos dias. Críticos acusam o Marrocos de ter reduzido deliberadamente a vigilância da fronteira e de usar os fluxos migratórios como instrumento de pressão diplomática sobre Madri. Os países vivem um histórico de tensões em torno do Saara Ocidental. Diversas testemunhas relatam que as forças de segurança marroquinas pouco fizeram para impedir o avanço dos imigrantes rumo a Ceuta.
Busca por vítimas continua em Ceuta
Cinco novos corpos foram encontrados somente neste domingo na costa de Ceuta. Segundo o governo espanhol, a maior parte das pessoas que fizeram a travessia já retornou ao Marrocos.
As mortes ocorreram principalmente por afogamento durante as travessias marítimas. Outros migrantes morreram esmagados ao tentar escalar o quebra-mar e as cercas de fronteira que separam o enclave espanhol do território marroquino.
Também representante do governo espanhol em Ceuta, Miguel Ángel Pérez afirmou que mais de mil pessoas receberam atendimento médico. Segundo ele, a situação melhorou significativamente nos últimos dias, embora ainda sejam necessárias medidas para restabelecer a normalidade na cidade.
Muitos dos que tentaram atravessar alegaram dificuldades econômicas e disseram ter sido incentivados por rumores disseminados nas redes sociais.
"É muito doloroso ver jovens morrerem no mar. Não é aceitável que, em 2026, mulheres com crianças de apenas dois meses de idade atravessem o mar para acabar morrendo", disse Karima Abenaz, cidadã francesa residente em Ceuta e com familiares no Marrocos.
Crise em Ceuta mobiliza União Europeia
Em resposta à crise, a Espanha reforçou o patrulhamento policial e militar em Ceuta e instalou, no sábado, uma barreira flutuante de 500 metros ao largo da costa da cidade para tentar impedir novas entradas irregulares.
A chegada em massa de migrantes provocou preocupação em diversos países europeus. Vinte e dois Estados-membros da União Europeia enviaram uma carta pedindo uma resposta coordenada para reforçar a proteção das fronteiras externas do bloco após os acontecimentos em Ceuta.
A Itália anunciou a suspensão, por um mês, das regras de livre circulação do espaço Schengen para viagens provenientes da Espanha.
O governo espanhol, que nos últimos anos adotou uma política migratória mais aberta e lançou um programa para regularizar mais de meio milhão de imigrantes sem documentos, rejeitou as acusações de que essa medida tenha incentivado a corrida para Ceuta.
Segundo Madri, os migrantes que entram irregularmente no enclave não podem seguir para a Espanha continental nem para outros países do espaço Schengen.
gq (Reuters, OTS)
---------
Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.