Como o funeral do "açougueiro da Bósnia" está dividindo a Sérvia
A chegada do corpo de Ratko Mladic à Sérvia gerou forte polarização e críticas internacionais diante da possibilidade de um funeral com honras de Estado. Condenado à prisão perpétua por genocídio e crimes de guerra, o ex-comandante ainda é idolatrado por setores nacionalistas e pela mídia governista local. A União Europeia condenou homenagens oficiais, e especialistas apontam que conceder tais honras violaria leis sérvias, enquanto o presidente Aleksandar Vucic repassou a decisão à família.
Condenado por crimes de guerra em Haia, Ratko Mladic pode ter despedida com honras de estado na Sérvia. Mas nem todos estão de acordo no país e honrarias provocam críticas entre a comunidade internacional.O corpo de Ratko Mladic, ex-comandante do exército sérvio-bósnio, que faleceu na semana passada em Haia, onde cumpria pena de prisão perpétua por genocídio e outros crimes de guerra na Bósnia e Herzegovina, chegou à Sérvia.
Coberto pela bandeira sérvia, o caixão de Mladic, apelidado pelos críticos de "açougueiro da Bósnia", foi carregado por membros das Forças Armadas do país do avião até um veículo que transportou os restos mortais do ex-comandante para a Academia Médica Militar, onde foi realizada a autópsia.
Uma multidão se reuniu ao longo do trajeto do aeroporto até o hospital. Em pé nas passarelas, apoiadores saudavam a comitiva que levava o corpo de Mladic e seguravam faixas com os dizeres "Obrigado, General" e "Heróis nunca morrem".
Tabloides pró-governo cobriram o cortejo fúnebre minuto a minuto, referindo-se a Mladic como "general sérvio" e alegando que ele havia sido "morto em Haia".
Funeral com honras de estado
Ratko Mladic foi condenado em 2017 à prisão perpétua pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) para a ex-Iugoslávia, em Haia, pelo genocídio em Srebrenica, no qual mais de 8 mil homens e meninos muçulmanos foram mortos; pelo cerco de Sarajevo, que durou anos, durante a Guerra da Bósnia de 1992 a 1995, e outros crimes de guerra, incluindo a criação de campos de detenção para civis não sérvios e prisioneiros de guerra.
Segundo veículos de imprensa sérvios, Mladic será enterrado em Belgrado na segunda-feira (07/09). O ministro da Justiça do país, Nenad Vujic, havia anunciado anteriormente que o funeral seria realizado com as mais altas honras do Estado.
O presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic, no entanto, afirma que a decisão ficará a cargo da família. As autoridades de segurança estimam que dezenas de milhares de pessoas possam comparecer à cerimônia.
"Estaremos presentes para oferecer todo tipo de apoio logístico e de transporte, assim como para manter a ordem pública e a segurança", afirmou o presidente. "É muito difícil assegurar e garantir a segurança de todos", acrescentou Vucic.
Idolatria de décadas
Para Jasmina Lazovic, diretora executiva do Centro de Direito Humanitário, com sede em Belgrado, que há décadas trabalha com justiça de transição e com memória, nada disso é surpresa.
Ela destaca um processo de longa data, na Sérvia, de exaltação da figura de Ratko Mladic e de seu legado.
"Não há nenhuma cidade pequena na Sérvia que não tenha pelo menos um mural glorificando Ratko Mladic. A narrativa de que ele foi condenado injustamente existe há anos", diz ela à DW. "Agora surgiu a versão de que ele foi assassinado, apesar de ter morrido aos 85 anos após sofrer vários derrames."
Lazovic afirma que essas narrativas se encaixam na imagem que a liderança do Estado transmite da Sérvia como um país que travou exclusivamente guerras defensivas. Isso não deixa espaço suficiente para uma discussão sobre as consequências desses conflitos nem sobre vítimas que elas deixaram - nem na imprensa, nem no sistema educacional e nas instituições.
"E há centenas de milhares de vítimas na Croácia, na Bósnia e Herzegovina e no Kosovo. Acima de tudo, foram crimes cometidos contra civis, crimes que deixaram os países da região, particularmente a Bósnia e Herzegovina, com uma estrutura étnica completamente transformada", aponta ela.
Lazovic afirma que, entre as vítimas, também estão aqueles que sobreviveram a estupros e torturas, e também quem foi deslocado à força. "A lista é longa, e nosso conhecimento é limitado", acrescenta.
General sem patente
O anúncio de que Mladic poderia ser enterrado com as mais altas honras do Estado gerou reações imediatas da comunidade internacional.
"A glorificação de criminosos de guerra é contrária aos valores europeus. Não há lugar para isso nem nos Estados-membros da União Europeia, nem nos países candidatos. Espero que o governo de Belgrado esteja ciente disso", afirmou a comissária europeia para a Adesão de Novos Membros, Marta Kos.
Aleksandar Vucic respondeu acusando o Ocidente e o Tribunal de Haia de culparem apenas os sérvios pelos crimes de guerra e de não garantirem justiça às vítimas sérvias. Mas, por enquanto, o presidente da Sérvio deixou oficialmente a decisão sobre se o general falecido receberá honras do Estado a cargo da família de Mladic.
Para Jasmina Lazovic, Vucic adotará mais uma vez uma abordagem pragmática, cuja decisão final dependerá de uma avaliação do que traz maior benefício político às autoridades - e do que poderia causar danos à imagem da liderança do país.
Ela também ressalta que a questão não é apenas política, mas também jurídica.
"O que está sendo ignorado aqui é que Ratko Mladic era, de fato, um general, mas foi condenado à prisão perpétua. De acordo com a Lei das Forças Armadas da Sérvia, qualquer pessoa condenada a mais de um ano de prisão por um crime perde sua patente e, portanto, todos os privilégios associados a ela", afirma ela.
"Se Ratko Mladic fosse enterrado com as mais altas honras do Estado, de acordo com a patente que detinha durante os conflitos armados, isso seria uma violação direta da lei deste país", acrescenta a especialista.
O que querem os sérvios?
Quando questionados sobre como veem Ratko Mladic, os cidadãos sérvios entrevistados pela DW em várias cidades da província autônoma multiétnica de Vojvodina expressaram opiniões bastante divergentes. Há desde aqueles que estão convencidos de que Mladic foi condenado injustamente até quem aceite a qualificação de genocídio sem reservas.
"O que ele deveria ter feito, deixar que matassem todos os sérvios? Obrigado [Mladic], por tudo", disse um homem de Ruma à DW. "Para mim, a questão ficou resolvida quando foi proferida a sentença por genocídio", afirmou um estudante de Novi Sad.
Mas a maioria das pessoas simplesmente ignora a questão. "Já tenho problemas suficientes", declarou Svetlana, de Zrenjanin. Goran, de Novi Sad, acredita que se trata simplesmente de uma questão política. "Eles vêm nos enganando há anos. Nada mudou agora", disse ele à DW.
Lazovic acredita que a maioria dos sérvios é apática em relação ao assunto. Para ela, esse é um problema maior do que apenas a mídia pró-governo retratar a Sérvia como se quisesse se despedir de Mladic como general. Ela argumenta que enfrentar o legado de Mladic e o passado é essencial para que a sociedade sérvia possa seguir em frente.
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