Como estava a disputa na reta final do 1º turno de eleições passadas
A corrida presidencial de 2026 repete a estabilidade de 2022, com Lula (40%) e Flávio Bolsonaro (36%) consolidados na liderança sem espaço para terceiras vias. O quadro atual contrasta com eleições passadas, marcadas por maior volatilidade na reta final: as reviravoltas de 2002 e 2014 pela segunda vaga, os escândalos que forçaram o segundo turno em 2006, o avanço decisivo de Marina Silva em 2010 e a polarização ascendente entre Bolsonaro e Haddad em 2018 após a saída de Lula da disputa.
Campanha à Presidência de 2026 repete 2022, com estabilidade dos dois primeiros colocados nas pesquisas. Cenário apertado contrasta com disputas anteriores marcadas por volatilidade.A pesquisa Datafolha mais recente, divulgada em 24 de setembro, apontou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem 40% dos votos totais na disputa ao Planalto, apenas quatro pontos à frente de Flávio Bolsonaro (PL), que conta com 36%. Nos votos válidos, que excluem brancos e nulos, Lula tem 43%, contra 39% de Flávio.
Para Lula, é um cenário praticamente igual aos apontados em pesquisas do Datafolha desde o primeiro semestre. Em março, o petista tinha 38% dos votos totais, por exemplo. Já Flávio, que apareceu pela primeira vez no levantamento daquele mês, oscilou em diversos momentos, de 31% para 36%, mas sem nunca ultrapassar o presidente.
De lá para cá, a estabilidade foi a principal marca da disputa de 2026, com o cenário sofrendo poucas mudanças. Apesar de uma série de escândalos e crises políticas que marcaram a campanha, não houve movimentos significativos no eleitorado ou a ascensão de um terceiro candidato duradouro capaz de embaralhar a corrida.
A dinâmica guarda semelhanças com o pleito de 2022, também marcado por estabilidade nos meses que antecederam o primeiro turno. À época, Lula e Jair Bolsonaro, pai de Flávio, dominaram o topo das pesquisas ao longo do ano, sufocando outros candidatos. Apenas as porcentagens de Jair Bolsonaro sofreram oscilações dignas de nota.
Em contraste, algumas eleições, com as de 2002, 2010, 2014 e 2018, foram marcadas por disputas mais dinâmicas pela primeira ou segunda colocação, seja nos meses que antecederam o primeiro turno ou até na reta final.
No entanto, mesmo em relação a 2022, algumas diferenças se destacam no pleito atual. Há quatro anos, Lula aparecia com mais de dez pontos de vantagem sobre Jair na reta final, e entre os apoiadores do presidente havia expectativa de que a eleição fosse decidida ainda no primeiro turno. Mas o resultado nas urnas acabou se revelando uma surpresa: pesquisas pareceram subestimar a intenção de votos de Jair Bolsonaro, que acabou mostrando mais força na reta final da primeira rodada.
Veja como estava o quadro eleitoral a poucos dias do primeiro turno das eleições entre 2002 e 2022:
2022: Lula com vantagem confortável, mas 1° turno se revelou mais apertado
Datafolha (29/09/2022)
Luiz Inácio Lula da Silva: 47%
Jair Bolsonaro: 34%
Ciro Gomes: 6%
Simone Tebet: 5%
A menos de uma semana do primeiro turno da eleição presidencial de 2018, Lula aparecia com uma confortável vantagem de 13 pontos sobre seu principal adversário, o então presidente Jair Bolsonaro (PL).
À época, com essa vantagem no limiar de uma vitória, Lula tentava liquidar a eleição já na primeira rodada. No cálculo dos votos válidos, que excluem os nulos, em branco e os eleitores indecisos, o petista tinha 50% das intenções, de acordo com o Datafolha. Em busca da reeleição, Bolsonaro tinha 36%.
Nos dias anteriores ao primeiro turno, a campanha petista tinha intensificado sua busca por votos, particularmente de Ciro Gomes, que resistiu a apelos para desistir.
Por meses, o cenário eleitoral permaneceu estável. Entre maio e a segunda metade de setembro, Lula permaneceu com praticamente o mesmo patamar de intenções de voto, entre 45 e 48%.
Nesses meses, Jair Bolsonaro, que tentou reagir com auxílios bilionários, conseguiu crescer entre 27% e 34%, mas sem ameaçar a liderança de Lula de maneira significativa.
O cenário se repetiu em pesquisa divulgada em 1° de outubro, véspera do primeiro turno, mostrando novamente Lula com 48% e Bolsonaro com 34% dos votos totais.
No entanto, nas urnas, o resultado contrastou com as pesquisas, mostrando que a intenção de voto de Jair Bolsonaro havia sido subestimada.
Lula obteve 48,4% dos votos válidos, contra 43,2% de Bolsonaro. A diferença acabou sendo de apenas cinco pontos percentuais e a decisão foi para o segundo turno.
Nos dias seguintes, reportagens tentaram explicar a disparidade entre as pesquisas e o resultado, apontando fatores como estímulo ao voto útil entre a direita, um "voto envergonhado" não captado por pesquisadores e até impacto de um censo desatualizado. O Datafolha, por sua vez, creditou a disparidade a uma decisão de última hora de eleitores de Ciro, Simone Tebet e indecisos e aqueles que poderiam votar branco e nulo, que acabaram se voltando para Bolsonaro.
No segundo turno, Lula acabaria eleito com 50,9% dos votos válidos, contra 49,1% de Jair Bolsonaro, na menor diferença proporcional desde a redemocratização do país.
2018: Haddad e Bolsonaro em crescimento
Datafolha (02/10/2018)
Jair Bolsonaro: 32%
Fernando Haddad: 21%
Ciro Gomes: 11%
Geraldo Alckmin: 9%
Marina Silva: 4%
Em 2 de outubro de 2018, a seis dias do primeiro turno, Jair Bolsonaro (então no PSL) aparecia na liderança do Datafolha, com 32% das intenções de voto.
Na segunda posição, Fernando Haddad (PT) aparecia com 21%. Na sequência, Ciro Gomes (então no PDT) permanecia estável com 11%, seguido por Geraldo Alckmin (então no PSDB), que tinha 9%. Marina Silva (Rede), vinha encolhendo profundamente e havia caído para 4%. O percentual de indecisos era de 5%.
Nos meses anteriores, dois acontecimentos haviam bagunçado a disputa. Lula, que originalmente era apontado como favorito, com 39% das intenções de voto no Datafolha de 21 de agosto, teve sua candidatura barrada e acabou sendo substituído por Haddad em 11 de setembro. Ainda em setembro, foi a vez de Jair Bolsonaro sofrer um atentado, que acabou lhe garantindo mais espaço na cobertura jornalística.
A pesquisa do início de outubro, por sua vez, cristalizava uma tendência final: tanto Haddad quanto Bolsonaro estavam em trajetórias de crescimento em relação a levantamentos anteriores, enquanto Marina Silva via seu apoio erodir, e Alckmin permanecia empacado.
No dia da votação, Haddad acabaria conquistando 29,86% dos votos válidos, contra 46,03% de Bolsonaro. No período entre o primeiro e o segundo turno, o petista nunca conseguiu ultrapassar Jair Bolsonaro nas pesquisas, que acabou vencendo com 55,13% dos votos válidos contra 44,87%.
2014: Dilma na liderança e dança do segundo colocado
Datafolha (02/10/2014)
Dilma Rousseff: 40%
Marina Silva: 24%
Aécio Neves: 21%
No Datafolha de 2 de outubro, a três dias da eleição, o cenário apontava liderança da então presidente Dilma Rousseff (PT), com 40% das intenções de voto. A ex-ministra Marina Silva (à época no PSB) tinha 24%, seguida de Aécio Neves (PSDB), com 21%. Indecisos somavam 5%.
Embora o cenário se desenhasse para um segundo turno entre Dilma e Marina, a pesquisa já explicitava duas tendências captadas em levantamentos anteriores: erosão das intenções de voto de Marina e continuidade de uma subida paulatina de Aécio, que no dia da votação depois acabaria passando para a segunda rodada com a presidente.
Em 3 de setembro, Marina já havia atingido seu teto de intenções de voto, aparecendo com 34% no Datafolha, empatada tecnicamente com Dilma, que tinha 35%. Aécio contava com 14%. Outros candidatos não ultrapassavam 1%.
Em setembro, uma intensa campanha de desconstrução da imagem por parte do PT - e, em menor escala, do PSDB - acabou contribuindo para desgastar o apoio a Marina, que também penava com pouco tempo de TV - fator que ainda tinha peso em 2014.
Um dia antes do primeiro turno, em 4 de outubro, o Datafolha captou a virada na segunda colocação, com Aécio aparecendo com 26% dos votos válidos, contra 24% de Marina. Dilma tinha 44%. No final, o instituto conseguiu confirmar dentro da margem de erro os percentuais de Dilma e Marina, mas a votação de Aécio foi maior: ele conseguiu 33,55% dos votos.
A arrancada de Aécio e a derrocada da campanha de Marina não haviam sido as únicas reviravoltas que marcaram o primeiro turno. A própria presença de Marina na corrida já havia sido inesperada. Ela havia sido alçada à cabeça de chapa após o candidato original, o ex-governador Eduardo Campos (PSB), morrer em um acidente aéreo em agosto.
No segundo turno, Dilma derrotou Aécio por uma vantagem de apenas 3,26 pontos nos votos válidos.
2010: Eleição tinha chance de ser liquidada no 1° turno, mas 3° colocado mudou dinâmica
Datafolha (29/09/2010)
Dilma Rousseff: 47%
José Serra: 28%
Marina Silva: 14%
O Datafolha de 29 de setembro de 2010, a cinco dias do primeiro turno, apontava que a então ex-ministra Dilma Rousseff (PT), que contava com apoio de Lula, tinha chance de vencer a eleição já no primeiro turno.
Dilma tinha 47% das intenções de voto totais, contra 28% do segundo colocado, o ex-governador José Serra (PSDB). Ambos eram seguidos por Marina Silva (então no PV), com 14%. Eleitores indecisos chegavam a 6%. Considerando apenas os votos válidos, Dilma tinha 52%.
Em dezembro de 2009, era Serra que aparecia como favorito, com 38% dos votos, enquanto Dilma ainda solidificava a construção da sua imagem junto ao eleitorado, já conseguindo 26% das intenções de voto no Datafolha.
A virada foi detectada pelo instituto em maio daquele ano, quando Dilma alcançou Serra, e os dois apareceram empatados com 36%. No final de agosto, a petista já estava 20 pontos à frente do tucano.
No final de setembro, Dilma ainda matinha chances de ganhar no primeiro turno, mas um repentino crescimento de Marina Silva na reta final acabaria lhe tirando votos. De acordo com o Datafolha, Marina subiu de 11% para 14% nas três semanas que antecederam o pleito, enquanto Dilma oscilou negativamente de 49% para 47%.
O resultado do primeiro turno confirmou a ascensão de última hora de Marina. Ela terminou com 19,33% dos votos válidos, no que foi apontado à época como um dos principais fatores que impediram a vitória de Dilma ainda no primeiro turno.
A petista obteve 46,91% dos votos válidos, passando para a segunda rodada com Serra, que teve 32,61%. O tucano, porém, nunca ameaçou seriamente Dilma, terminando por perder para a petista por 12 pontos.
2006: Eleição se desenhava para ser liquidada no 1º turno, mas acontecimentos na reta final mudaram quadro
Datafolha (26/09/2006)
Lula: 49%
Geraldo Alckmin: 33%
Heloisa Helena: 8%
No Datafolha de 26 de setembro de 2006, a cinco dias do primeiro turno, Lula, que concorria à reeleição, aparecia com 49% das intenções de votos totais, contra 33% de Geraldo Alckmin (então no PSDB, e hoje vice na chapa do petista). Os dois eram seguidos por Heloisa Helena (então no Psol), com 8%. Cristovam Buarque (então no PDT), tinha 2%. Os indecisos somavam 3%.
Com um cenário que pouco se alterava nas pesquisas, a questão era se Lula seria capaz de ganhar ainda no primeiro turno. Pelo levantamento de 12 de setembro, o petista teria 56% dos votos válidos. A pesquisa de 26 de setembro mostrou um cenário parecido, com Lula mantendo 53% dos votos válidos.
Esse último levantamento havia sido realizado após o chamado "escândalo dos aloprados", de 15 de setembro de 2006, quando um grupo de petistas de baixo escalão foi preso tentando comprar um dossiê que seria usado contra candidatos tucanos.
O escândalo não afetou imediatamente a campanha do petista, mas nos dias que antecederam o pleito, dois fatos políticos mexeram na disputa.
Em 28 de setembro, durante o último debate presidencial do primeiro turno, Alckmin, Buarque e Helena exploraram a ausência de Lula e usaram o programa para dirigir críticas ao governo.
No dia seguinte, 48 horas antes do primeiro turno, um delegado da Polícia Federal vazou fotos de uma pilha de dinheiro que havia sido apreendida com os petistas presos quase duas semanas antes. As imagens circularam amplamente.
Na véspera do primeiro turno, Lula marcou 50% dos votos válidos no Datafolha, contra 38% de Alckmin. Pelo levantamento, o petista ainda mantinha uma chance de ganhar, mas as urnas lhe deram 48,61% dos votos totais. Alckmin passou para a segunda rodada com 41,64%.
No entanto, Alckmin nunca ameaçou Lula no segundo turno. Em um levantamento realizado 16 dias após a primeira rodada, o petista já havia aberto 19 pontos de vantagem. No final, Lula foi reeleito com 60,83% dos votos válidos. Alckmin, por sua vez, teve 39,17%, conseguindo uma proeza inédita em eleições presidenciais: receber menos votos do que na primeira rodada.
2002: Lula liderava com folga e segunda colocação tinha dança de cadeiras
Datafolha (02/10/2002)
Lula : 45%
José Serra: 21%
Anthony Garotinho: 16%
Ciro Gomes: 11%
Ao longo do mês de setembro e início de outubro de 2002, o Datafolha mostrou que Lula permaneceu em trajetória ascendente, sempre acima de 38%, enquanto houve uma troca de posições na segunda colocação. Ciro Gomes (então no PPS) aparecia em segundo lugar no início de setembro, com 20%, empatado tecnicamente com o tucano José Serra, que tinha 19%. Anthony Garotinho (então no PSB) aparecia com 10%.
Em 21 de setembro, as posições no segundo lugar haviam se invertido. Serra continuava com 19%, mas melhorou sua posição com a derrocada de Ciro, que caiu para 13%, e acabou ultrapassado até mesmo por Garotinho, que somava 15%. Lula tinha 44%.
Lula chegou à véspera do primeiro turno com 48% das intenções de votos válidos, pouco abaixo do suficiente para já vencer. A disputa pelo segundo lugar permanecia em aberto, com Serra e Garotinho tecnicamente empatados, com 21% e 19%, respectivamente.
Na contagem final, Lula obteve 46,44% dos votos válidos, contra 23,2% de Serra. Garotinho terminou com 17,87%, seguido de Ciro, com 11,97%.
No segundo turno, Lula recebeu apoio de Garotinho e Ciro, deixando Serra isolado. O tucano nunca ameaçou a liderança do petista, que terminaria vencendo com 61,27% dos votos válidos, contra 38,73%.
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