Como a guerra no Irã impacta investimentos dos países do Golfo
Nações como Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos investiram ou prometeram investir trilhões em todo o mundo, das Américas à África. Mas agora pode ser que esse dinheiro seja gasto mais perto de casa.As somas investidas em diferentes países ao redor do mundo investidas pelos países do Golfo são astronômicas. Fundos soberanos de nações ricas em petróleo no Golfo Pérsico, incluindo Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar e Kuwait, gerenciam cerca de 5 trilhões de dólares (R$ 26 trilhões) em investimentos.
"O impacto global dos países do Golfo não se limita ao petróleo", disse Majed al-Ansari, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Catar, a jornalistas durante um painel online organizado nesta terça-feira (17/03) pelo think tank Middle East Council on Global Affairs. "Esta região é um centro da economia internacional e, se decidir concentrar-se em sua defesa, retirar investimentos e interromper seu engajamento econômico com a comunidade internacional, o efeito será sentido em todos os lares do mundo."
Nos últimos anos, o dinheiro dos países do Golfo foi investido nos mais variados setores. Um dos exemplos mais recentes ocorreu quando fundos soberanos do Golfo apoiaram uma oferta da empresa americana de entretenimento Paramount para adquirir a concorrente Warner Brothers.
No ano passado, após o então presidente dos EUA, Donald Trump, visitar o Oriente Médio, ele voltou com promessas de investimentos de vários trilhões de dólares da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos e do Catar.
Na última década, os países do Golfo também gastaram cerca de 100 bilhões de dólares (R$ 519 bilhões) na África em projetos para melhorar a segurança alimentar, obter minerais críticos e financiar iniciativas de transição energética.
Eles também investiram bilhões no que especialistas descrevem como "diplomacia de resgate" em sua própria região. Isso é definido como "a prática de distribuir grandes pacotes de auxílio financeiro ou material para socorrer Estados enfrentando crises financeiras ou econômicas", escreveram especialistas em um artigo de pesquisa de 2023. Isso incluiu ajuda para estabilizar a economia do Egito, além de financiar reconstrução e assistência na Síria, Líbano e Gaza.
Exportações estagnadas e instabilidade
Mas devido à guerra com o Irã, essas políticas de investimento podem mudar em breve.
A guerra, que começou quando os EUA e Israel atacaram o Irã no final de fevereiro, fez com que a maioria dos países do Golfo reduzisse a produção e o transporte de petróleo e gás - cujas vendas representam a maior parte da renda nacional dessas nações. O Irã acusa os países do Golfo de desempenharem um papel nessa guerra e tem, por isso, atacado infraestrutura petrolífera, aeroportos e bases militares americanas em vários deles. O Irã também bloqueou o importante estreito de Ormuz, rota vital para o transporte de hidrocarbonetos.
Como resultado, a empresa de consultoria Oxford Economics concluiu, em um relatório publicado neste mês, que a renda nacional dos países do Golfo crescerá apenas 2,6% este ano - 1,8% a menos do que as previsões originais.
Alguns países serão mais afetados do que outros, observaram os pesquisadores, porque Omã e Arábia Saudita ainda têm rotas alternativas para exportar petróleo e podem até se beneficiar do aumento dos preços. Bahrain, Kuwait e Catar, por outro lado, não dispõem dessas alternativas.
Os países do Golfo vinham tentando diversificar suas economias para reduzir a dependência do petróleo, mas a guerra com o Irã afetou esses planos. Ela prejudicou o turismo, o setor imobiliário e o digital na região, e fez as bolsas locais despencarem.
Como escreveu em um artigo publicado neste mês Frederic Schneider, pesquisador do Middle East Council: "Vídeos de explosões em Dubai, Doha e Manama perfuraram a imagem cuidadosamente cultivada de segurança no Golfo".
Especialistas em turismo afirmam que o fechamento do espaço aéreo, especialmente durante o Ramadan, pode levar a uma perda de até 56 bilhões de dólares nas receitas de turismo.
O que acontecerá com os investimentos do Golfo?
"Ainda é muito cedo para afirmar com certeza como as economias do Golfo serão afetadas pelo conflito", diz Tim Callen, pesquisador do Arab Gulf States Institute, em Washington. "Certamente haverá impacto negativo no curto prazo, mas os efeitos de longo prazo dependerão da duração do conflito e da situação regional quando ele terminar."
A maioria dos fundos soberanos do Golfo ainda é sólida, afirmou ele numa mensagem enviada à DW. "Então, neste momento, não acho que a guerra terá grande impacto nas estratégias de investimento no exterior. Mas isso pode mudar se o conflito se prolongar e o impacto sobre a economia doméstica aumentar."
Observadores acreditam também que os países do Golfo atacados pelo Irã podem ter novas prioridades de gastos quando os combates terminarem. Em um texto publicado nesta segunda-feira, a empresa de consultoria libanesa Nasser Saidi and Associates afirma que essas prioridades podem incluir um "maior investimento em infraestrutura de resiliência, como reservas estratégicas de alimentos ou gasodutos alternativos e aumento de gastos governamentais em reconstrução, defesa e segurança".
"Haverá um impacto", confirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Catar, Majed al-Ansari. "Por causa das dificuldades econômicas resultantes da guerra e da redução da confiança na estabilidade do Golfo, estaremos ocupados - reconstruindo, reforçando nossa postura defensiva e lidando com a crise regional imediata."
Também é possível que os fundos soberanos sejam acionados para apoiar suas economias internas, sugeriu Rachel Ziemba, pesquisadora do think tank Gulf International Forum, em um artigo publicado neste mês.
Reavaliação das promessas feitas a Trump
Nesta semana, o jornal Financial Times citou uma fonte anônima dizendo que três grandes países do Golfo estavam revisando investimentos planejados nos EUA devido ao impacto financeiro da guerra.
No ano passado, após a visita de Trump, os EAU concordaram em investir 1,4 trilhão de dólares, o Catar prometeu 1,2 trilhão de dólares, e a Arábia Saudita assinou acordos de 600 bilhões de dólares, incluindo um pacote de armas de 142 bilhões de dólares - o maior da história.
Mas Tim Callen, do AGSI, diz não acreditar que tal revisão vá ocorrer. Ele afirma que o aumento dos gastos militares - algo que a Arábia Saudita provavelmente deseja - seria compatível com os compromissos já assumidos com os EUA.
Rachel Ziemba observa ainda que várias dessas promessas eram mais declarações de intenção.
Segundo Callen, no curto prazo os impactos são claros: haverá menor crescimento do que o esperado. No médio prazo, a região será vista como mais arriscada. Mas os efeitos de longo prazo ainda são incertos. "O investimento em todos os setores será afetado. A questão é: quanto e por quanto tempo. Isso dependerá de como a guerra termina. Se o risco de futuros conflitos permanecer, o impacto poderá ser permanente", frisa.