Coluna | Neste frio de "renguear Cusco", o que acontece na mente humana?
Quando as temperaturas despencam para níveis extremos, o corpo humano entra em um modo de sobrevivência, priorizando funções vitais
No entanto, o que muitas vezes esquecemos é o impacto profundo que o frio intenso pode ter na nossa mente. Longe de ser apenas um incômodo físico, o frio extremo desencadeia uma série de respostas neurológicas e psicológicas que afetam desde o nosso humor até a nossa capacidade de tomar decisões.
Uma das primeiras áreas afetadas pelo frio extremo é a função cognitiva. Estudos têm demonstrado que a exposição a baixas temperaturas pode prejudicar significativamente a atenção, a memória e a velocidade de processamento de informações. Uma revisão publicada em 2017 no Journal of Environmental Psychology por Thompson e colaboradores, por exemplo, analisou diversos estudos e concluiu que o frio pode levar a um declínio na performance de tarefas cognitivas complexas. Imagine tentar resolver um problema matemático complicado ou memorizar uma lista de itens enquanto seu corpo treme incontrolavelmente - a mente, assim como o corpo, está lutando para se manter funcional.
Essa diminuição na capacidade cognitiva não é apenas uma questão de desconforto. Em ambientes onde a exposição ao frio é inevitável, como em profissões que exigem trabalho ao ar livre em regiões geladas, isso pode ter implicações sérias para a segurança e a produtividade. A capacidade de tomar decisões rápidas e precisas pode ser comprometida, aumentando o risco de acidentes.
Além das funções cognitivas, o frio extremo também exerce uma forte influência sobre o humor. É comum sentir-se mais irritado, apático ou até mesmo deprimido em dias gelados. Embora o Transtorno Afetivo Sazonal (TAS) seja mais comumente associado à falta de luz solar no inverno, a exposição ao frio em si também pode ser um fator contribuinte.
Uma pesquisa publicada em 2019 na revista Nature Human Behaviour por Zhang e colegas, revelou que baixas temperaturas podem influenciar o sistema nervoso autônomo, levando a mudanças na produção de neurotransmissores como a serotonina e a dopamina, que desempenham um papel crucial na regulação do humor. A diminuição desses neurotransmissores pode intensificar sentimentos de tristeza e letargia.
Em casos mais extremos, a exposição prolongada ao frio sem proteção adequada pode levar a condições mais graves, como a hipotermia. Além dos danos físicos óbvios, a hipotermia grave afeta profundamente o cérebro, podendo causar confusão mental, desorientação e, em casos extremos, perda de consciência e coma.
O frio extremo impõe um estresse significativo ao corpo, que por sua vez, afeta a mente. Para manter a temperatura corporal central, o organismo ativa mecanismos como a vasoconstrição (estreitamento dos vasos sanguíneos) e o tremor. Esses processos são metabolicamente exigentes e desviam energia que poderia ser usada para funções mentais.
O estresse fisiológico do frio também ativa a resposta de "luta ou fuga", liberando hormônios como o cortisol e a adrenalina. Embora útil em situações de perigo agudo, a exposição crônica a esses hormônios devido ao frio constante pode ter efeitos negativos na saúde mental a longo prazo. Um estudo de 2021 na International Journal of Environmental Research and Public Health por Miller e colaboradores, destacou a ligação entre o estresse térmico frio e o aumento dos níveis de ansiedade e irritabilidade em indivíduos expostos ocupacionalmente.
Compreender essas influências é o primeiro passo para mitigar seus efeitos. Proteger-se adequadamente do frio com roupas quentes e isolamento é fundamental, mas a proteção vai além do físico. Manter-se hidratado, nutrir o corpo com alimentos energéticos e garantir um sono adequado são pilares para a resiliência mental no frio.
Além disso, atividades que promovam o bem-estar mental, como exercícios leves (se for seguro), hobbies e interações sociais, podem ajudar a combater a apatia e a tristeza que o frio pode induzir. Em resumo, enquanto o frio extremo desafia nosso corpo, ele também testa a nossa mente, exigindo estratégias de cuidado e adaptação para preservar nossa saúde mental em meio às baixas temperaturas.
Texto: Luam Ferrari