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Cientistas concluem que as orcas e os golfinhos cruzaram um ponto evolutivo sem retorno e não voltarão à terra firme

Milhões de anos remodelaram os corpos de orcas e golfinhos para a vida aquática. Um estudo mostra por que reverter esse caminho evolutivo é tão improvável.

16 set 2026 - 13h24
(atualizado às 13h30)
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Resumo
Um estudo publicado na Proceedings of the Royal Society B revelou que cetáceos como orcas e golfinhos ultrapassaram um ponto evolutivo sem retorno, tornando sua volta à terra improvável. Ao analisar mais de 5.600 espécies, pesquisadores constataram que adaptações extremas, como a perda de membros posteriores e a especialização anatômica e sensorial aquática, são praticamente irreversíveis segundo a Lei de Dollo, inviabilizando biologicamente uma readaptação plena à vida terrestre.

Orcas, golfinhos e baleias descendem de mamíferos que viveram em terra há dezenas de milhões de anos, mas um amplo estudo sobre a evolução dos mamíferos indica que esse caminho não funciona da mesma maneira no sentido contrário. Depois que um linhagem se torna fortemente dependente da água, certas mudanças anatômicas e fisiológicas se acumulam a ponto de tornar uma volta à vida terrestre extremamente improvável em escala evolutiva. É esse limite que pesquisadores descrevem como um "ponto de não retorno".

Segundo os modelos, formas de vida apenas parcialmente aquáticas ainda podem, ao longo da evolução, voltar a depender mais da terSegundo os modelos, formas de vida apenas parcialmente aquáticas ainda podem, ao longo da evolução, voltar a depender mais da terra.
Segundo os modelos, formas de vida apenas parcialmente aquáticas ainda podem, ao longo da evolução, voltar a depender mais da terSegundo os modelos, formas de vida apenas parcialmente aquáticas ainda podem, ao longo da evolução, voltar a depender mais da terra.
Foto: Imagem gerada por inteligência artificial / Catraca Livre

O estudo analisou mais de 5.600 espécies de mamíferos

O trabalho que sustenta essa ideia foi publicado em 2023 no periódico Proceedings of the Royal Society B por Bruna Farina, Søren Faurby e Daniele Silvestro. Os pesquisadores usaram métodos filogenéticos comparativos para analisar diferentes níveis de adaptação à água em milhares de mamíferos atuais.

Os animais foram separados em categorias que iam desde espécies totalmente terrestres até mamíferos completamente aquáticos. Entre esses extremos estavam grupos semi-aquáticos, capazes de usar água e terra em diferentes proporções.

Onde aparece o chamado ponto sem retorno?

Segundo os modelos, formas de vida apenas parcialmente aquáticas ainda podem, ao longo da evolução, voltar a depender mais da terra. O quadro muda quando surgem adaptações que reduzem fortemente a mobilidade terrestre.

Os pesquisadores identificaram um limiar depois do qual as transições em direção a um estilo de vida mais terrestre praticamente desaparecem no histórico evolutivo analisado. Cetáceos, como golfinhos e orcas, estão muito além desse ponto porque dependem totalmente da água para locomoção, alimentação e reprodução.

Por que voltar à terra seria tão difícil para uma orca?

O problema não está em uma única característica. Ao longo de milhões de anos, cetáceos acumularam várias adaptações interligadas:

  • redução extrema dos membros posteriores;
  • corpo hidrodinâmico especializado para nadar;
  • transformação dos membros anteriores em nadadeiras;
  • alterações profundas na coluna e na musculatura;
  • mudanças sensoriais e respiratórias;
  • adaptações reprodutivas para a vida aquática.

Reverter todo esse conjunto exigiria recuperar estruturas complexas que foram reduzidas ou perdidas. Os autores relacionam esse padrão à chamada Lei de Dollo, segundo a qual mudanças evolutivas complexas perdidas tendem a ser praticamente irreversíveis.

Isso quer dizer que a evolução tem um destino programado?

Não. O estudo não afirma que exista uma força direcionando os cetáceos para permanecer no oceano, nem que uma reversão seja matematicamente impossível. Em evolução, "irreversível" normalmente significa que a probabilidade observada é tão baixa que nenhuma reversão comparável apareceu nos modelos e na história dos grupos analisados.

O próprio artigo ressalta essa nuance. Tecnicamente, algumas transições podem ser consideradas extremamente improváveis em vez de absolutamente impossíveis. O ponto central é que, depois de determinado grau de especialização aquática, voltar a caminhar e viver normalmente em terra exigiria uma reconstrução biológica muito maior do que simplesmente mudar de habitat.

Segundo os modelos, formas de vida apenas parcialmente aquáticas ainda podem, ao longo da evolução, voltar a depender mais da terra.
Segundo os modelos, formas de vida apenas parcialmente aquáticas ainda podem, ao longo da evolução, voltar a depender mais da terra.
Foto: Imagem gerada por inteligência artificial / Catraca Livre

O aumento do tamanho corporal também acompanhou a mudança para a água

O estudo encontrou ainda outro padrão: linhagens que se tornaram mais aquáticas tenderam a aumentar de tamanho e a adotar dietas mais carnívoras. Uma das explicações está na física do ambiente.

A água retira calor do corpo com muito mais facilidade do que o ar. Corpos maiores têm menor área superficial em relação ao volume e conseguem conservar calor de maneira mais eficiente. Isso ajuda a explicar por que muitos mamíferos aquáticos evoluíram para tamanhos maiores ao longo do tempo.

Os ancestrais das baleias realmente caminhavam em terra?

Sim. O registro fóssil dos cetáceos documenta uma das transições evolutivas mais conhecidas entre mamíferos. Seus ancestrais eram artiodáctilos terrestres que começaram a explorar ambientes aquáticos há cerca de 50 milhões de anos. Ao longo do Eoceno, apareceram formas progressivamente mais adaptadas à natação, até surgirem cetáceos incapazes de sustentar uma vida terrestre.

Essa sequência ajuda a entender por que o processo ocorreu por etapas. Primeiro vieram animais que ainda caminhavam bem, depois espécies anfíbias e, finalmente, formas totalmente aquáticas.

Então golfinhos e orcas nunca mais voltarão a viver em terra?

Essa é uma maneira simplificada, mas razoável, de resumir o resultado em escala macroevolutiva. O estudo não está prevendo literalmente todo o futuro da evolução. Ele mostra que, entre os mamíferos analisados, as linhagens que cruzaram determinado nível de especialização aquática não apresentaram retorno para formas mais terrestres.

Orcas e golfinhos, portanto, não estão apenas vivendo no mar por preferência ecológica. Seus corpos foram remodelados durante milhões de anos para funcionar ali. O oceano deixou de ser apenas um habitat e passou a ser uma condição fundamental de sua própria anatomia, transformando a antiga jornada da terra para a água em um caminho evolutivo que, pelo que os dados mostram, praticamente não tem volta.

Catraca Livre
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