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Amazônia tem recorde de desmate e supera mil km² de destruição em abril pela 1ª vez

Dados são do sistema de alertas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia; taxa de perda florestal não é comum nesta época do ano, período de chuvas na floresta

6 mai 2022 11h41
| atualizado às 22h45
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O desmatamento na Amazônia bateu novo recorde. Pela primeira vez, a área derrubada da floresta ficou acima de mil quilômetros quadrados em abril, segundo dados de alertas do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia. Ao todo, foram 1.012 quilômetros quadrados perdidos, valor 74% maior do que o recorde anterior para o mês (580 km quadrados, atingidos em abril do ano passado). A área de 1 mil quilômetros quadrados equivale a mais de 140 mil campos de futebol.

O valor da perda deve ser ainda maior, uma vez que os dados do Inpe são para 29 dias do mês. O resultado final deve sair na próxima semana. O que chamou a atenção de especialistas é que abril é um mês chuvoso na Amazônia, o que historicamente costuma conter o avanço do desmatamento.

A área desmatada em abril de 2022 é 165% maior em comparação com a média para o mês. Desde agosto do ano passado, os alertas de desmate estão batendo sucessivos recordes: em outubro, janeiro, fevereiro e agora em abril. Procurado, o Ministério do Meio Ambiente não se manifestou.

André Guimarães, membro do Grupo Estratégico da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, diz que os resultados trazem consequências negativas não só para o meio ambiente, mas também para a economia nacional. "O recorde de desmatamento em abril deste ano confirma uma triste sequência de aumento da perda de nossas florestas e nos coloca cada vez mais perto de um ponto de não retorno na Amazônia. O Brasil corre alto risco de desestabilização do clima, com consequências graves para o sistema energético nacional e nosso agronegócio. Se quisermos continuar com uma economia competitiva, precisamos acabar com o desmatamento", acrescenta. A Coalizão é um movimento que reúne mais de 280 empresas e instituições representantes do agronegócio, meio ambiente, setor financeiro e pesquisadores. Ponto de não retorno é quando a devastação chega a um estágio irreversível e a floresta perde a capacidade de voltar a um estado saudável.

Raul Valle, diretor de Justiça Socioambiental do WWF-Brasil, destaca ainda o cenário global agravado pela guerra da Rússia contra a Ucrânia. "Com a guerra, a escassez de produtos aumenta o valor das commodities e vigora a falsa ideia de que é necessário desmatar mais para produzir mais, o que é um equívoco", disse.

Para a secretária executiva do Observatório do Código Florestal, Roberta Del Giudice, a explicação para os atuais níveis de desmatamento na Amazônia está na falta de fiscalização. "Se houvesse expectativa de punição pelo descumprimento da lei, certamente não estaríamos vendo a destruição da floresta para abertura de novas áreas para lavoura e pecuária. A expectativa de impunidade é um vetor crucial de destruição da Amazônia que pode ser revertido, pois temos a legislação para todos. É preciso que a lei seja cumprida", diz.

No início da semana, estudo realizado pelo MapBiomas apontou que apenas 2,17% dos alertas de desmatamento no Brasil, de janeiro de 2019 a março deste ano, têm algum registro de autorização ou de ação de fiscalização. Isso representa 13,1% da área total desmatada no período. Esses índices resultam do cruzamento de registros da plataforma com dados públicos do próprio governo federal, recolhidos de todos os Estados brasileiros, e abrangem todo o período de Jair Bolsonaro à frente da Presidência da República. A gestão Bolsonaro, inclusive, tem sido marcada por recordes nos índices de desmatamento, aumento de focos de incêndio florestal e críticas da comunidade internacional em relação à atuação do País na área.

Após uma série de compromissos assumidos pelo governo na Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP-26), em Glasgow, o embaixador britânico no Brasil, Peter Wilson, chegou a afirmar em entrevista ao Estadão em dezembro do ano passado que o País teria de provar que protege efetivamente o meio ambiente para conseguir atrair investimentos estrangeiros, incluindo o do Reino Unido. "O Brasil quer mais investimento em sua economia, mas, no futuro, não vai ser possível atrair os fundos maiores sem uma política ambiental clara nos níveis federal e estaduais", disse Wilson. / COLABOROU ANDRÉ BORGES

Estadão
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