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Alvos de ataques de garimpeiros há uma semana, índios Yanomami pedem socorro

Vice-presidente da Associação Yanomami Hutukara revela morte de duas crianças e envia nova carta a autoridades, para alertar sobre a situação e pedir apoio emergencial

17 mai 2021 15h18
| atualizado às 18h07
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BRASÍLIA - Há uma semana, indígenas da etnia Yanomami que vivem em Roraima são alvos de tiros disparados por garimpeiros contra as comunidades locais. O aumento da violência na região voltou a ser denunciado nesta segunda-feira, 17, pela Associação Yanomami Hutukara. No sábado, 15, a associação confirmou a morte de duas crianças Yanomami na comunidade de Palimiu, em decorrência do conflito.

O vice-presidente da associação, Dário Vitório kopenawa Yanomami, enviou nova carta a autoridades, para alertar sobre a situação e pedir apoio emergencial.

"No dia 16 de maio, pela noite, às 21h40, recebemos ligação da comunidade de Palimiu comunicando novo ataque de garimpeiros à comunidade. Segundo disseram os Yanomami, eram 15 barcos de garimpeiros se aproximando contra a comunidade", afirmou Dário, no documento.

"Os Yanomami disseram que, além dos tiros, havia muita fumaça e que seus olhos estavam ardendo, indicando o disparo de bombas de gás lacrimogêneo contra os indígenas. Os Yanamami estavam muito aflitos, e gritavam de preocupação ao telefone. Ao fundo, era possível escutar o som dos tiros", declarou.

O alerta foi encaminhado à Funai, à Superintendência da Polícia Federal em Roraima, à 1ª Brigada de Infantaria da Selva do Exército e ao Ministério Público Federal em Roraima.

"Reiteramos o pedido aos órgãos que atuem com urgência dentro de seu dever legal para impedir a continuidade da espiral de violência no local e garantir a segurança para a comunidade Yanomami de Palimiu, antes que conflitos de mais grave natureza ocorram", diz a Associação Yanomami Hutukara.

Os indígenas pedem a instalação de um posto avançado emergencial na comunidade de Palimiu, com o objetivo de manter a segurança no local e no Rio Uraricoera, por onde os garimpeiros têm chegado à margem das comunidades. Eles solicitam que o Exército, por meio da 1ª Brigada de Infantaria da Selva, dê apoio logístico imediato para ações dos demais órgãos públicos, para garantir a segurança no local.

No dia 30 de abril, a associação já tinha informado à Funai, ao MPF e à Polícia Federal em Roraima, que, no dia 27 daquele tinha ocorrido um primeiro conflito, quando um grupo de índios yanomami interceptou cinco garimpeiros que subiam pelo Rio Uraricoera em uma embarcação carregada de combustível para avião e helicóptero.

No episódio, os indígenas apreenderam a carga de 990 litros de combustível e expulsaram os cinco garimpeiros. "Assistindo o ocorrido, outros sete garimpeiros, que desciam o rio em direção a Boa Vista, reagiram disparando três tiros contra os indígenas, acima do posto de saúde local, a que os Yanomami responderam com mais tiros. Felizmente, não houve feridos", escreveu a associação Hutukara.

Segundo o relato da associação, as lideranças indígenas estão indignadas com a continuidade da invasão garimpeira em suas terras e com a violência e ameaça praticada pelos invasores. Temendo que novas retaliações por parte dos garimpeiros resultem em mais conflitos violentos e mortes, os indígenas exigem uma resposta dos órgãos públicos para garantir a segurança das comunidades.

Na sexta-feira, 14, a Funai declarou que acompanha, junto às autoridades policiais, a apuração de "suposto conflito" ocorrido recentemente na Terra Indígena Yanomami, em Roraima.

"A fundação também presta apoio às forças de segurança no local para evitar conflitos e mantém diálogo permanente com a comunidade. Cumpre ressaltar que o órgão vem mantendo equipes de forma ininterrupta dentro da Terra Indígena, por meio de suas Bases de Proteção Etnoambiental (BAPEs)", afirmou.

"A Funai ressalta, ainda, que não compactua com qualquer conduta ilícita, bem como com juízos açodados, emitidos antes que seja concluída a rigorosa apuração dos fatos pelos órgãos competentes. Por fim, a fundação esclarece que não comenta decisões judiciais."

A Justiça Federal de Roraima determinou à União a manutenção de efetivo armado de forma permanente na Comunidade Palimiú para evitar novos conflitos e garantir a segurança de seus integrantes, bem como exigiu que Funai auxilie as forças de segurança no contato com os indígenas e no gerenciamento das relações interculturais. Sobre o assunto, a fundação informou que "está à disposição dos órgãos citados na decisão para integrar as equipes e prestar todo o apoio necessário, inclusive logístico, por meio de suas bases na região".

Aumento da violência na região voltou a ser denunciado pela Associação Yanomami Hutukara
Aumento da violência na região voltou a ser denunciado pela Associação Yanomami Hutukara
Foto: Reprodução/Associação Yanomami Hutukara / Estadão

Mortes de crianças

No sábado, 15, a associação Hutukara Yanomami confirmou a morte de duas crianças Yanomami na comunidade de Palimiu, após os tiroteios de garimpeiros contra a comunidade, iniciados no dia 10. Segundo a associação, no dia 12, às 15 horas, os indígenas encontraram os corpos dos dois meninos na água, já sem vida. "As crianças estavam afogadas. Uma criança tinha 01 ano e outra de 05 anos", afirmou a associação.

As lideranças indígenas confirmaram que, naquele dia, quando teve início o ataque dos garimpeiros à comunidade, todos saíram correndo para se proteger dos tiros. No meio da situação de desespero, muitas crianças se perderam no mato e ficaram desaparecidas, sozinhas, próximas ao rio Uraricoera.

"Nós Yanomami queremos viver em paz na nossa terra, com a floresta. As autoridades brasileiras precisam cumprir sua responsabilidade e agir urgentemente para garantir a segurança dos Yanomami e dos Ye'kwana, e para proteger a Terra Indígena Yanomami e a floresta do garimpo ilegal", declarou a associação.

À reportagem, Dário Vitório kopenawa Yanomami disse a situação continua a ser total instabilidade. "O que nós sabemos é que o clima tenso continua. Ficaram de mandar policiamento para a região, mas isso tem ocorrido apenas para ações bate e volta", comentou.

Estadão
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