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Ciberataque a supermercados na França expõe vulnerabilidades de aparelhos smart

13 out 2026 - 17h02
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Resumo
Um ataque hacker sem precedentes elevou a temperatura de congeladores em cerca de 700 supermercados na França, causando a perda de toneladas de alimentos e risco de incêndio. O caso expõe a fragilidade da Internet das Coisas e serve de alerta para a vulnerabilidade de eletrodomésticos inteligentes e veículos conectados. Diante do aumento de invasões do tipo, especialistas recomendam reforçar senhas, atualizar softwares com frequência e conectar à rede apenas os dispositivos estritamente necessários.

Após hackers desativarem congeladores de centenas de supermercados, especialistas alertam que eletrodomésticos e carros conectados à internet também podem ser invadidos.O ataque cibernético sem precedentes a centenas de supermercados na França nesta segunda-feira (12/10) resultou na perda de toneladas de alimentos e levantou preocupações sobre a vulnerabilidade dos sistemas de segurança a técnicas avançadas de hackeamento.

Especialistas alertam que situações semelhantes podem ocorrer com uma série de aparelhos domésticos, como geladeiras e câmeras de segurança, e até com automóveis que utilizam sistemas de conexão à internet.

No caso ocorrido na França, os hackers, que visavam sistemas de refrigeração conectados à internet fabricados pela empresa dinamarquesa Danfoss, elevaram a temperatura de geladeiras e congeladores para até 50º C em centenas lojas e supermercados de todo o país.

As redes de supermercados confirmaram o ocorrido, mas ainda não está claro quem está por trás dos ataques. Segundo o ministro francês das Finanças, Roland Lescure, cerca de 700 estabelecimentos foram afetados.

A agência de cibersegurança da França recomendou que as empresas que utilizam os modelos de congeladores hackeados os desconectem imediatamente da internet ou restrinjam o acesso a eles, e realizem atualizações de software.

Do mundo virtual para o real

Por muito tempo isolados da internet, equipamentos industriais, como sistemas de refrigeração, passaram a ser conectados à internet para permitir supervisão e controle remotos, explicou Antoine Hautin, secretário-geral da consultoria de cibersegurança Almond, à agência de notícias AFP.

Sem proteções adequadas, como controles de direitos de acesso, aplicação regular de correções de segurança ou uso de plataformas intermediárias para controle remoto, "qualquer fábrica ou equipamento" conectado - seja nos setores automotivo, de energia ou de transportes - pode ficar exposto a cenários semelhantes, avaliou Olivier Daloy, especialista em segurança cibernética da Zscaler, também em entrevista à AFP.

Segundo Daloy, o princípio desse ataque é comparável ao do vírus Stuxnet, de 2010, que causou uma série de falhas nas centrífugas iranianas utilizadas para o enriquecimento de urânio.

No caso dos supermercados, o ataque demonstra as possíveis consequências de um acesso remoto insuficientemente protegido a equipamentos essenciais para o funcionamento diário das empresas.

Como os hackers conseguiram realizar o ataque?

Daloy explica que as infraestruturas industriais são vulneráveis porque combinam sistemas de tecnologia da informação (TI) com equipamentos físicos de tecnologia operacional (OT), alguns dos quais são antigos.

Ao invadir redes de computadores, os hackers podem acessar os sistemas que controlam diretamente esses equipamentos e provocar perturbações no mundo real.

"Estamos diante de um ataque à chamada internet das coisas (IoT, na sigla em inglês)", explica ele. Trata-se de máquinas que "não possuem tela nem teclado", mas que, ainda assim, são acessíveis via rede e podem, em certos casos, ser controladas remotamente.

Daloy observa dois cenários particularmente possíveis para o hackeamento: a exploração de uma vulnerabilidade técnica ou o uso de credenciais comprometidas para se conectar ao equipamento.

Na prática, no caso dos supermercados, "o risco imediato é o desperdício de alimentos, e o segundo risco é causar um impacto físico, com perigo de incêndio, quando as geladeiras atingem 50º C", acrescentou.

Casos anteriores de ataques a supermercados

Ataques semelhantes ao ocorrido na França já foram relatados em outras partes da Europa e nos Estados Unidos.

Em abril de 2025, a rede britânica de lojas de departamentos Marks & Spencer sofreu um ataque sofisticado de ransomware - ciberataques que bloqueiam o acesso a sistemas ou arquivos de uma empresa e exigem o pagamento de um resgate.

A empresa teve que gastar cerca de 300 milhões de libras (R$ 1,9 bilhão) após ter sido forçada a suspender pedidos feitos online e pelo aplicativo. O ataque foi orquestrado por um grupo de hackers chamado Scattered Spider, utilizando um ransomware de outro grupo criminoso, o DragonForce.

Segundo a imprensa do Reino Unido, os mesmos hackers também tentaram atacar a rede Co-op e a icônica loja de departamentos Harrods.

Relatos semelhantes também surgiram nos EUA. Em junho de 2025, a United Natural Foods, uma empresa de alimentos congelados que abastece grandes redes de supermercados como a Whole Foods, informou ter descoberto um ataque cibernético que a obrigou a tirar seus sistemas do ar. A empresa não revelou a natureza do ataque.

Em novembro do ano passado, a Ahold Delhaize USA informou ter sido vítima de um ataque cibernético que interrompeu as operações em mais de 2 mil lojas.

Hackers podem invadir dispositivos domésticos?

De geladeiras e sistemas de aquecimento a câmeras de segurança e redes de alarme, cada vez mais dispositivos podem ser monitorados e controlados remotamente, o que cria novas oportunidades para cibercriminosos.

Se um dispositivo estiver conectado à internet, seja diretamente ou por meio de um aplicativo, serviço de nuvem ou rede doméstica, ele pode, potencialmente, ser invadido.

Em 2015, pesquisadores demonstraram em uma conferência de hackers em Las Vegas como uma geladeira inteligente da Samsung poderia ser comprometida, com a interceptação de parte do tráfego de internet que passava pelo dispositivo.

Em muitos casos, os invasores estão mais interessados em roubar dados, interromper serviços ou usar dispositivos conectados como uma porta de entrada para uma rede maior.

Os alvos mais comuns são dispositivos conectados à internet e controlados remotamente. Isso inclui câmeras de segurança, campainhas com vídeo, sistemas de alarme, fechaduras inteligentes, termostatos e sistemas de aquecimento central.

Risco aumenta em paralelo à conectividade

Eletrodomésticos inteligentes, como geladeiras, fornos e máquinas de lavar, também podem ser vulneráveis se estiverem conectados à internet. Até mesmo algumas escovas de dente estão agora conectadas à internet.

Roteadores - e não os eletrodomésticos - são responsáveis por mais de três quartos de todos os ataques a dispositivos conectados, segundo dados de especialistas em segurança.

O número desses dispositivos cresceu rapidamente à medida que fabricantes adicionaram conectividade à internet a produtos que antes eram totalmente mecânicos.

Uma vez dentro de um dispositivo, um hacker pode, geralmente, coletar informações ou assumir o controle do dispositivo.

Uma câmera pode mostrar o interior de uma casa, um dispositivo com microfone pode captar sons e um roteador comprometido pode expor tudo o que trafega pela rede. Hackers que assumem o controle de um dispositivo podem ligá-lo ou desligá-lo, alterar configurações ou impedir que os usuários acessem suas contas. Um termostato comprometido pode afetar o aquecimento, enquanto um congelador ou geladeira hackeado pode comprometer o controle de temperatura.

Em casos mais graves, invasores podem usar dispositivos com segurança precária para obter acesso a outros sistemas na mesma rede ou para roubar informações pessoais vinculadas a contas online.

Carros com acesso a internet vulneráveis a ataques

O perigo também se estende aos veículos motorizados. Pesquisadores de segurança cibernética demonstraram repetidamente vulnerabilidades em automóveis conectados à internet.

Em 2015, pesquisadores assumiram remotamente o controle de um Jeep em movimento por meio de seu sistema de entretenimento conectado à internet, forçando o recall de cerca de 1,4 milhão de veículos e a implementação de correções de software.

Quase uma década depois, pesquisadores revelaram uma falha que permitia rastrear, destravar e dar a partida em certos veículos da automobilística Kia usando apenas o número da placa. Os pesquisadores afirmaram ter relatado as vulnerabilidades à empresa, que as corrigiu em poucos meses, e não houve evidências de que tenham sido exploradas em ataques reais.

Veículos e aeronaves modernos também são projetados com sistemas abrangentes de segurança e de backup.

Infraestruturas críticas, como redes de energia e água, geralmente possuem camadas múltiplas de segurança, monitoramento e regulamentação que não estão presentes em dispositivos de consumo. Isso não significa que estejam imunes a ataques cibernéticos, mas normalmente são alvos muito mais difíceis do que um eletrodoméstico conectado a uma rede doméstica wi-fi.

Como proteger os dispositivos?

Especialistas em segurança cibernética geralmente recomendam alterar senhas padrão, ativar a autenticação em duas etapas quando disponível e instalar regularmente atualizações de software.

Os consumidores também devem remover ou substituir dispositivos que não recebem novas atualizações de segurança, manter a maioria dos dispositivos em uma rede local e conectar produtos à internet apenas quando houver um motivo claro para isso.

A regra mais simples costuma ser a mais eficaz: quanto menos dispositivos conectados, menos potenciais pontos de entrada para invasores.

rc/ra (AFP, ots, Reuters)

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