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Vídeo extrapola evidências científicas ao alegar que produtos causam 'feminização' de homens

ESPECIALISTAS AFIRMAM QUE DESREGULADORES ENDÓCRINOS AFETAM A FUNÇÃO HORMONAL, MAS NÃO HÁ COMPROVAÇÃO DE QUE SUBSTÂNCIAS DO COTIDIANO CAUSEM A CONDIÇÃO CITADA NA POSTAGEM

6 ago 2026 - 10h25
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O que estão compartilhando: vídeo em que médico alega que haveria uma "feminização" de homens e meninos que "não é apenas uma questão comportamental, mas tem uma influência química". Ele diz que substâncias presentes nos filtros solares, sabonetes, cremes, roupas sintéticas e agrotóxicos se ligam aos receptores de estrogênio no corpo, causando a condição.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é enganoso. O vídeo aborda de maneira exagerada informações sobre substâncias que interferem na função hormonal (desreguladores endócrinos), segundo especialistas da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Os médicos explicaram que, atualmente, não há comprovação científica com alto nível de evidência que estabeleça uma relação causal entre um produto, ou um conjunto deles, a condição específica como "feminização masculina".

Saiba mais: No site do Conselho Federal de Medicina (CFM) consta que o profissional que gravou o vídeo é especialista em radiologia e diagnóstico por imagem -- e não endocrinologia, especialidade que estuda glândulas e hormônios. Procurado, ele não respondeu.

Segundo os médicos consultados pelo Verifica, a publicação aborda de maneira alarmista informações sobre substâncias químicas que interferem na produção de hormônios no organismo.

Os desreguladores endócrinos são produtos químicos capazes de interferir na produção, transporte, ação e em todo o funcionamento do sistema endócrino. As substâncias presentes em plásticos, pesticidas, produtos de limpeza e cosméticos podem atuar na superestimação ou bloqueio de receptores e alterar a produção e disponibilidade hormonal.

A endocrinologista Elaine Maria Frade Costa, da SBEM Regional São Paulo (SBEM-SP), explica que afirmar que os produtos listados estão causando, de forma direta, a "feminização masculina" é um exagero.

"Embora saibamos que a espécie humana está exposta a diversos desreguladores endócrinos, o que a ciência já demonstrou de forma consistente, ainda não há comprovação suficiente para estabelecer uma relação causal direta entre essa exposição e a chamada 'feminização masculina'", diz a médica.

O que seria a 'feminização' citada no vídeo?

De acordo com os especialistas, é importante definir o que se quer dizer com a palavra "feminização". Em uma perspectiva médica, a condição pode se referir a indivíduos do sexo masculino que adquirem sinais físicos femininos, como aumento das mamas, redistribuição da gordura corporal ou diminuição de pelos, por exemplo. "Isto não significa a transformação do homem em mulher, significa a aquisição de uma ou mais características físicas do sexo feminino", explica o médico Crésio de Aragão Dantas Alves, presidente do Departamento Científico de Endocrinologia da SBP.

Segundo o especialista, a condição poderia ser influenciada por desequilíbrios hormonais, causados por doenças genéticas, hepáticas, uso de medicamentos, lesões testiculares, tumores, etc. A desregulação influencia na produção de testosterona (hormônio feminino) ou aumento do estradiol (hormônio feminino). Isso também se aplica a casos de terapia hormonal, quando há o uso de estrógenos ou bloqueadores andrógenos, ou procedimentos cirúrgicos, como reconstrução de genitália, em processos de afirmação de gênero para pessoas transgêneros.

A médica Eliane Maria ressalta que os receptores de estrogênio, citados no vídeo, exercem diversas funções fisiológicas no organismo, e não existem apenas para promover características femininas ou processos de feminização. "Elas desempenham papéis fundamentais em diferentes tecidos e funções do organismo, tanto em mulheres quanto em homens." Os receptores ajudam na manutenção óssea, fertilidade, libido e metabolismo, por exemplo.

De acordo com a endocrinologista, os desreguladores endócrinos podem ter efeitos diferentes na atividade estrogênica, podendo atuar tanto na ativação quanto no bloqueio dos receptores.

Os produtos são capazes de causar isso?

O médico Alves afirma que o vídeo analisado aborda de forma "alarmista informações sobre os disruptores endócrinos a partir de estudos realizados em animais de experimentação, extrapolando esses dados para humanos, o que não pode ser feito, pois são organismos diferentes".

A mesma avaliação é compartilhada pela endocrinologista Eliane Maria. "Atualmente, não dispomos de comprovação científica com alto nível de evidência de que um determinado produto, ou mesmo um conjunto de produtos, seja capaz de causar diretamente uma condição clínica específica", diz.

O vídeo analisado alega que produtos cosméticos, como sabonetes e cremes, usados durante a gravidez, seriam responsáveis por causar a "feminização" de meninos. Além disso, cita que substâncias como a oxibenzona, atrazina, petrolatos e ftalatos atuariam na condição.

A oxibenzona está presente nos filtros solares, protetores labiais, sabonetes e outros produtos cosméticos. Por isso, a principal via de exposição humana é a pele. Segundo o especialista Alves, embora o químico seja um disruptor endócrino, não existem evidências científicas de que causem a condição.

"Alguns estudos epidemiológicos (que não provam causalidade) mostram diminuição sutil e sem efeito clínico dos níveis de testosterona em adolescentes", diz. "Os efeitos mais significativos foram demonstrados em peixes, anfíbios e roedores expostos a doses elevadas de oxibenzona causando alteração dos órgãos reprodutivos e diminuição acentuada da testosterona, o que não ocorre em humanos", explica.

O herbicida atrazina também é considerado um desregulador porque estimula a ação da enzima aromatase, responsável por converter a testosterona em estrógeno, e diminui a produção de hormônios que agem nas glândulas sexuais (ovários e testículos). A exposição ao agrotóxico pode ocorrer por meio do consumo da água, devido a contaminação de lençóis freáticos, do consumo de alimentos com resíduo do herbicida ou pela inalação e contato.

"Não existem alterações na anatomia masculina causada por essa substância", diz o especialista da SBP. "O que pode ocorrer em homens expostos a altas concentrações ou por tempo prolongado a atrazina são diminuição na contagem, qualidade e motilidade (movimentação) dos espermatozoides", explica.

Já os ftalatos são substâncias químicas usadas em plásticos, perfumes, desodorantes, esmaltes e outros cosméticos. Eles também são considerados disruptores, porque diminuem a produção de testosterona e reduzem sua ação. Porém, a "exposição a essas substâncias não causa 'feminização' dos homens", diz o médico da SBP.

Não há evidências de que passar perfume no pescoço possa causar alterações na tireoide

Sobre o uso de roupas com materiais sintéticos, por exemplo, poliéster, nylon ou elastano, o especialista aponta que não há estudos que comprovem o impacto no sistema hormonal.

Segundo a endocrinologista Eliane, grande parte das evidências disponíveis sobre desreguladores endócrinos são provenientes de estudos observacionais, que permitem identificar associações, "mas nem sempre estabelecer uma relação de causa e efeito com alto grau de certeza científica". Ela explica que para obter comprovação científica seria preciso realizar pesquisas experimentais controladas. "Contudo, por questões éticas, não é permitido expor internacionalmente um grupo de indivíduos a substâncias que possam representar algum risco à saúde apenas para avaliar seus possíveis efeitos", afirma.

Quais são as recomendações das sociedades médicas?

A SBEM orienta a população a reduzir, sempre que possível, a exposição a substâncias com potencial de desregulação endócrina.

Entre as medidas, estão: evitar o uso de recipientes plásticos para armazenar ou aquecer alimentos, especialmente quando não são apropriados para esse fim; optar por cosméticos e produtos de higiene pessoal livres de substâncias como ftalatos, parabenos, bisfenol A (BPA) e bisfenol F (BPF); dar preferência, sempre que possível, ao consumo de água de boa qualidade e de alimentos orgânicos, reduzindo a exposição a agrotóxicos.

Segundo a endocrinologista Eliane Maria, as recomendações fazem parte de um princípio da precaução. "Embora nem todos os efeitos dessas substâncias estejam completamente estabelecidos, reduzir a exposição a compostos potencialmente nocivos é uma medida prudente e benéfica para a saúde", diz.

O especialista Crésio Alves ressalta que a presença dos disruptores endócrinos é frequente na rotina atual. A Sociedade de Pediatria também publicou orientações sobre como se prevenir dessa exposição.

Estadão
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