Vídeo engana ao sugerir relação entre tempestades e rastros deixados por aviões no céu
RASTROS DE CONDENSAÇÃO SÃO MAIS FREQUENTES EM REGIÕES FRIAS E ÚMIDAS, MAS NÃO CAUSAM TEMPESTADES; AUTOR DO VÍDEO DIZ QUE QUER ESTIMULAR DEBATES
O que estão compartilhando: vídeo que sugere uma relação direta entre rastros deixados no céu pela passagem de aviões e tempestades que atingiram estados do Sul do Brasil nos últimos dias.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. As listras que ficam no céu após a passagem de aviões se chamam rastros de condensação e se formam quando o vapor d'água presente nos gases de escape dos motores entra em contato com o ar frio encontrado em altitudes de cruzeiro - geralmente, entre 9.100 e 12.400 metros. Esses rastros são comuns e tendem a ser mais frequentes em áreas com temperaturas mais baixas e alta umidade, como tem sido ultimamente na região Sul. Eles não são capazes de provocar tempestades.
O vídeo também engana ao sugerir que os rastros seriam fruto de um trabalho de geoengenharia no qual compostos de enxofre seriam pulverizados na atmosfera para refletir a luz solar e resfriar a Terra. Essa proposta é real e foi feita na década de 1970 por um cientista soviético, mas ela ainda é alvo de estudos, além de ser considerada controversa. Não foi implementada.
Saiba mais: A região Sul do Brasil foi atingida por uma frente fria, tempestades com granizo, chuva volumosa e um tornado que afetou o noroeste do Rio Grande do Sul na noite do dia 28 de julho. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), os eventos foram provocados por uma forte corrente de ventos de noroeste, chamada de Jato de Baixos Níveis, associada a uma mudança de direção dos ventos nas camadas superiores da atmosfera.
Além disso, a região sofreu influência de ar quente e úmido e da formação de uma frente fria. Somando às atuais condições do El Niño, isso pode trazer mais umidade, baixar as temperaturas e acarretar maior instabilidade no clima. Mas as tempestades que atingiram a região Sul estão longe de terem sido provocadas por rastros deixados no céu por aviões.
Procurado, o autor do vídeo afirmou que o conteúdo foi "produzido com base em diversos relatos, imagens e vídeos compartilhados por internautas durante os eventos climáticos ocorridos na região Sul" e negou que tenha afirmado que os rastros deixados por aviões causem tempestades.
Tanto no vídeo quanto na legenda, o autor compartilha o que dizem meteorologistas sobre as tempestades recentes no Sul, mas o conteúdo põe em dúvida essas explicações ao mostrar imagens de rastros de condensação e afirmar que "poucas horas depois [de moradores registrarem os rastros no céu], tempestades severas passaram a atingir diversas cidades".
"O objetivo do conteúdo foi estimular o debate e a busca por informação, sempre deixando claro o que é respaldado pelo conhecimento científico disponível e o que ainda é objeto de discussão ou interpretação", disse o autor.
O que são os rastros no céu?
Linhas brancas no céu que se assemelham a nuvens compridas são chamadas de rastros de condensação ou contrails, e se formam quando o vapor d'água presente nos gases de escape dos motores das aeronaves entra em contato com o ar frio em grandes altitudes. "A água se condensa sobre pequenas partículas presentes no ar ou emitidas pelo motor e congela, formando uma nuvem linear de minúsculos cristais de gelo", explica o engenheiro de manutenção aeronáutica Lauro Nishiura Junior.
Segundo ele, a duração desses rastros depende principalmente da temperatura e da umidade na altitude em que o avião está voando. "Se o ar estiver mais seco, o rastro desaparece em segundos ou minutos. Quando a aeronave atravessa uma camada muito úmida, supersaturada em relação ao gelo, o rastro pode permanecer durante horas, aumentar de tamanho e se espalhar, transformando-se em uma cobertura semelhante a nuvens cirrus", completa, se referindo àquelas nuvens mais finas e delicadas que aparecem no céu de forma natural.
De acordo com a Nasa, para que os trilhos se desenvolvam, a temperatura do ar no momento da passagem do avião precisa ser de pelo menos -39°C. A grande maioria das listras se dissipa em poucas horas, mas há registros de rastros que viajaram quilômetros e só se dissiparam após 14 horas, diz a agência dos Estados Unidos.
Por que eles não causam tempestades?
A presença dessas nuvens formadas "artificialmente" pode interferir no clima, mas de forma superficial e não a ponto de formar tempestades. De acordo com Lauro Nishiura Junior, os rastros de condensação persistentes aumentam a quantidade de nuvens altas e, durante o dia, elas podem refletir parte da luz solar. Ao mesmo tempo, durante a noite, isso pode dificultar a perda de calor da Terra para o espaço.
Isso gera o que se chama de efeito líquido de aquecimento, ou seja, quando há mais fatores na atmosfera retendo calor do que causando resfriamento. Segundo a Nasa, um estudo publicado em 2013 mostrou que os rastros de condensação produziam um efeito de aquecimento líquido leve na Terra. Isso não é suficiente para causar tempestades.
"Não há evidência científica de que um contrail origine, controle ou direcione esses fenômenos", aponta Lauro Nishiura Junior. "Tornados exigem grandes tempestades, instabilidade atmosférica, umidade e forte variação da velocidade e da direção dos ventos com a altitude. Furacões e outros ciclones tropicais dependem de águas oceânicas quentes, grande disponibilidade de umidade e sistemas atmosféricos organizados em enorme escala", enumera.
O que pode ocorrer é uma coincidência entre esses fenômenos e a formação dos rastros de condensação, justamente porque eles tendem a ser mais frequentes, aponta o Inmet, em áreas pré-dispostas, regiões com temperatura baixa e alta umidade.
"Nesse sentido, o rastro pode ser um indicador das condições atmosféricas, mas não a causa da tempestade", afirma o engenheiro de manutenção aeronáutica.
O que diz a proposta de geoengenharia citada no vídeo?
No trecho final do vídeo que viralizou, o autor afirma: "Eu preciso deixar claro que, de acordo com os meteorologistas, esses eventos são resultados da atuação de frentes frias, áreas de baixa pressão e sistemas atmosféricos favoráveis à formação de tempestades. E que não existe nenhuma comprovação científica de que esses rastros do céu causam tempestades. Mas assista um trecho desta entrevista".
Na sequência, é exibido um trecho do quadro CNN Terra, que foi ao ar em 16 de janeiro de 2025. Nele, a jornalista Thais fala com o analista de clima e meio ambiente Pedro Côrtes sobre técnicas de geoengenharia que poderiam eventualmente ser usadas para combater o aquecimento global. Apesar de ter respondido ao Verifica que exibiu um trecho da reportagem a fim de contextualizar o assunto, o autor inseriu imagens de rastros de condensação que não fazem parte do quadro exibido pela CNN, além de dados sobre enxofre, que também não aparecem na transmissão da emissora.
No conteúdo original, Thais Herédia questiona se as técnicas de geoengenharia seriam viáveis e sensatas para alterar o clima e salvar o planeta do aquecimento. O especialista responde que as pessoas já estão interferindo no clima - se referindo a ações que levam ao aquecimento global - e passa a falar de três dessas técnicas de geoengenharia que seriam usadas para controlar o aquecimento.
Uma delas foi apresentada em 1974 pelo cientista soviético Mikhail Budyko, que sugeriu pulverizar compostos de enxofre na atmosfera usando aeronaves para refletir a luz solar. A ideia foi baseada num episódio ocorrido em 1816 no Monte Tambora, na Indonésia, quando uma erupção vulcânica lançou tantas cinzas na atmosfera que elas bloquearam a luz solar e os EUA e a Europa tiveram um ano sem verão.
O problema dessa proposta, segundo Pedro Côrtes, é que além de ela custar muito caro, não haveria controle sobre onde esses compostos iriam se acumular, ou seja, o efeito não seria homogêneo. Outras propostas que são discutidas no quadro da CNN e não aparecem no vídeo viral são a possibilidade de recongelar o Ártico, bombeando água do mar até a superfície congelada para aumentar a espessura de gelo, e o uso de mantas térmicas para cobrir áreas críticas e tentar evitar que o degelo se intensifique com a luz solar.
Mas todas essas propostas ainda estão em discussão e algumas delas - inclusive a dos compostos de enxofre - são consideradas controversas. Ela se encaixaria no que a União Geofísica Americana (AGU, na sigla em inglês) chama de métodos de geoengenharia solar. Mas o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) considera que esses métodos poderiam ser, no máximo, um complemento na estratégia contra as mudanças climáticas.
Um dos problemas seria o fato de que essas técnicas apenas mascaram o problema das emissões de gases de efeito estufa na atmosfera. Outra questão é que essas técnicas exigiriam manutenção constante e poderiam trazer mais riscos do que benefícios.
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