Não há comprovação científica do uso de casca de nogueira, absinto e cravinho para desparasitação
ESPECIALISTAS ALERTAM QUE MISTURA NÃO SUBSTITUI REMÉDIOS DISPONÍVEIS NAS FARMÁCIAS E NO SUS; MÉDICO QUE DÁ A RECEITA CASEIRA NAS REDES DISSE QUE NÃO É CONTRA MEDICAMENTOS E QUE GRAVOU O VÍDEO PORQUE VIU PESSOAS VENDENDO PROTOCOLOS NAS REDES SOCIAIS
O que estão compartilhando: vídeo que afirma que uma mistura de casca de nogueira negra, absinto e cravinho elimina mais de cem tipos de vermes e parasitas do corpo.
O que o Estadão Verifica concluiu que: é enganoso. Especialistas ouvidos pelo Verifica disseram que não há comprovação de eficácia para medicamentos caseiros no combate a parasitas. Já existem antiparasitários (vermífugos) baratos e eficazes disponíveis nas farmácias e no Sistema Único de Saúde (SUS), com tratamentos que variam de três a cinco dias.
Em resposta ao Verifica, o médico que viralizou com a receita caseira disse que não é contra medicamentos. Ele falou que gravou o vídeo porque "tem muita gente vendendo protocolo de desparasitação na internet".
Saiba mais: o vídeo checado recomenda ingerir a mistura por 45 dias para eliminar vermes e parasitas. Segundo o médico, o período de tempo é necessário para "pegar todo o ciclo dos parasitas". Ao listar sintomas como irritabilidade, coceira e gases, o autor sugere a "desparasitação" por meio de um "protocolo natural".
O gastroenterologista Raul Wahle, do Departamento de Medicina da Unifesp, alerta para o risco de acreditar na promessa de um método universal. "Pensar que é algo irrestrito, capaz de cobrir mais de cem parasitas, é uma falácia, uma pseudociência que circula há alguns anos e que, talvez, as redes sociais estejam amplificando."
Substâncias citadas no vídeo não são eficazes
Casca de nogueira negra, absinto e cravinho foram apontados no vídeo como capazes de eliminar parasitas intestinais. De acordo com Marcelo Daher, infectologista e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia, consumi-los por 45 dias pode não representar risco imediato à saúde, mas também não eliminará nenhum parasita. "Não há evidência científica e nem necessidade de pesquisar isso. Temos medicamentos testados, eficazes, com tratamento mais curto e acessíveis à população."
O vídeo checado diz que a receita custaria "mais ou menos 78 reais", supostamente mais barata que outros protocolos antiparasitários vendidos na internet. No entanto, medicamentos como albendazol e nitazoxanida custam menos, sendo que o primeiro é distribuído gratuitamente pelo SUS.
O infectologista também esclarece que não é necessário exame parasitológico para iniciar o tratamento. Pelos sintomas, como diarreia, náusea, vômito e anemia, é possível prescrever antiparasitários.
Ele observa ainda que o exame de fezes pode trazer dificuldades, como coleta e transporte das amostras. "Muitas vezes você pede o exame e o paciente não faz, seja por nojo de colher, constipação ou falta de tempo para levar ao laboratório. Alguns testes exigem três amostras guardadas na geladeira, e muita gente não quer misturar o pote com outros itens. Por isso, em muitos casos, o paciente acaba sendo tratado sem o exame, embora ele exista", afirma.
O que são verminoses e como tratá-las
As verminoses ou parasitoses são doenças causadas por diferentes vermes que se instalam no organismo, geralmente nos intestinos, mas também no fígado, pulmões ou cérebro.
Wahle esclareceu ao Estadão Verifica que nem todos os parasitas são prejudiciais à saúde. "O vídeo é extremamente apelativo ao mostrar um parasita que infecta insetos e que nem existe em humanos. Existem cerca de 15 parasitoses catalogadas em seres humanos. Alguns parasitas, inclusive, são comensais, ou seja, não são patógenos para nós", disse.
A transmissão ocorre principalmente pela ingestão de água ou alimentos contaminados por fezes, contendo ovos ou parasitas. Verduras e legumes devem ser bem higienizados, assim como as mãos antes das refeições e após usar o banheiro.
O tratamento adequado pode incluir medicamentos como praziquantel, ivermectina, nitazoxanida, entre outros. O albendazol é o mais comum, com potencial para atingir uma ampla variedade de vermes, e faz parte da Rename (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais), do SUS.