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Golpe usa vídeos manipulados de Leonardo, Daniel e Xororó para vender falsos medicamentos para diabetes

Publicações desqualificam tratamentos prescritos por médicos e mentem ao prometer controlar a doença em poucos dias.

29 out 2026 - 17h29
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Resumo
Golpistas estão usando vídeos manipulados por inteligência artificial com imagens e vozes dos cantores Leonardo, Daniel e Xororó para promover tratamentos falsos contra a diabetes, como o Stabilon e o Olharix. As peças fraudulentas no TikTok prometem cura rápida e incentivam o abandono de remédios prescritos, direcionando vítimas para compras via WhatsApp. Especialistas alertam que a interrupção do tratamento médico regular gera graves riscos à saúde, como danos renais, perda de visão e morte.

Investigado por: Correio Braziliense, Zero Hora, Projeto Comprova

Golpe usa vídeos manipulados de Leonardo, Daniel e Xororó para vender falsos medicamentos para diabetes
Golpe usa vídeos manipulados de Leonardo, Daniel e Xororó para vender falsos medicamentos para diabetes
Foto: Projeto Comprova / Projeto Comprova

Venda de produtos com promessas de tratamentos para diabetes sem eficácia comprovada

Vídeos manipulados por inteligência artificial (IA), conhecidos como deepfakes, usam imagens e vozes dos cantores Leonardo, Daniel e Xororó para divulgar falsos tratamentos para diabetes e promover os produtos Stabilon e Olharix, este último anunciado como colírio. As publicações desqualificam medicamentos prescritos por médicos para tratamento de diabetes e prometem controlar a doença em poucos dias. Os anúncios direcionam os usuários ao WhatsApp para oferecer os produtos sem comprovação de eficácia para os tratamentos anunciados. 

Como os golpistas abordam as pessoas: Golpistas publicam vídeos manipulados por IA no TikTok, usando a imagem de um médico chamado "doutor André" e as imagens e vozes de artistas conhecidos — dos cantores sertanejos Daniel, Leonardo e Xororó, da dupla com Chitãozinho — para simular confiabilidade profissional e relatos pessoais sobre supostos medicamentos para diabetes, o Stabilon e o Olharix. 

As publicações prometem resultados rápidos, exploram questões como a saúde sexual e a autoestima masculinas e incentivam o abandono de medicamentos prescritos, como o Glifage (Cloridrato de Metformina) e a insulina. Os anúncios direcionam os usuários para links que levam a páginas de venda ou conversas pelo WhatsApp, onde o suposto tratamento é oferecido mediante pagamento.

O Comprova tentou entrar em contato através do aplicativo, mas o número de telefone já havia sido excluído da plataforma. Também enviou perguntas ao responsável pela conta do TikTok, mas não obteve resposta. 

Submetemos os áudios dos vídeos à plataforma TruthScan, ferramenta de detecção de conteúdos gerados por IA. A análise apontou 62% de probabilidade de a voz atribuída a Leonardo ser sintética. Já os áudios atribuídos a Daniel e Xororó apresentaram 73% de probabilidade.

Foto: Projeto Comprova / Projeto Comprova
Foto: Projeto Comprova / Projeto Comprova

I Legenda: Análises da plataforma TruthScan, ferramenta de detecção de conteúdos gerados por IA I

Além disso, sinais do uso de IA podem ser vistos a olho nu. No vídeo de Leonardo, por exemplo, a fluência, tanto do cantor quando do suposto apresentador, gera estranheza, e o vídeo repete as mesmas cenas algumas vezes. Também chamam a atenção as deformidades que aparecem no que seria a mão esquerda do cantor.

Foto: Projeto Comprova / Projeto Comprova

I Legenda: Alguns momentos do vídeo em que é possível ver deformações típicas de IA na mão esquerda de Leonardo I

A assessoria de Leonardo foi procurada e afirmou que o cantor não fez referência nem divulgou os supostos medicamentos, "portanto, o vídeo é falso", escreveu. As equipes de Daniel e Xororó também foram contatadas, mas não se pronunciaram até o fechamento desta checagem.

Conteúdo verdadeiro distorcido: Os vídeos manipulados por IA utilizam imagens derivadas de vídeos reais.  Um dos vídeos utilizados para criar a publicação é um trecho do programa "Viver Sertanejo", da TV Globo, em que o apresentador Daniel recebeu a dupla Chitãozinho e Xororó em 22 de dezembro de 2024.  O outro provém de uma entrevista concedida por Leonardo ao jornalista André Piunti, gravada nos bastidores de um show e publicada no YouTube em maio de 2024. Nos registros originais, nenhum dos artistas divulga os produtos anunciados nos vídeos manipulados.

Que táticas eles usam para chamar a atenção: O perfil analisado pelo Comprova usa a fama dos artistas para manipular suas imagens e vozes com IA e dar credibilidade ao anúncio dos medicamentos. As publicações prometem a cura ou o controle da diabetes em poucos dias, desqualificam remédios convencionais e exploram o apelo emocional com relatos falsos sobre problemas de saúde, sexuais e conjugais. 

Além disso, os anúncios no TikTok incentivam o contato rápido pelo WhatsApp para oferecer o suposto tratamento, ativando os gatilhos mentais de ação rápida no público. Nenhum dos dois vídeos apresenta informações importantes sobre o suposto médico, como nome completo, sua formação profissional, número do CRM ou endereço do consultório. Contudo, no vídeo atribuído ao Xororó, enfatiza-se o valor baixo do "tratamento" que seria de parcelas no valor de "oitenta e poucos reais por mês", um chamariz para possíveis vítimas. 

Qual é o objetivo do golpe: Incentivar as pessoas a abandonar medicamentos prescritos por médicos, como o Glifage (Cloridrato de Metformina) que, inclusive, é citado no vídeo, para comprar os produtos anunciados. Além do prejuízo financeiro, a prática pode colocar a saúde das vítimas em risco.

Riscos à saúde: Em entrevista ao Comprova, a endocrinologista Daniela Gebrim alertou para os riscos de interromper medicamentos para diabetes sem orientação médica. "O risco de complicações a longo prazo aumenta quando um paciente suspende o tratamento", explica. 

Entre os principais riscos associados à interrupção do tratamento estão:

  • danos aos rins, conhecidos como nefropatia diabética;
  • perda de visão, causada pela retinopatia diabética;
  • lesões nos nervos dos braços e das pernas;
  • complicações cardiovasculares, que afetam o coração;
  • cetoacidose diabética.

Segundo Gebrim, o risco é ainda maior para pessoas com diabetes tipo 1, que dependem da insulina. A interrupção do medicamento, mesmo por poucos dias, pode provocar cetoacidose diabética, uma complicação grave que pode exigir internação hospitalar.

Como se proteger: 

  • Desconfie de anúncios que prometem curar ou controlar a diabetes em poucos dias, especialmente quando usam imagens de artistas conhecidos para dar credibilidade ao produto. 
  • Verifique se a publicidade foi divulgada nos canais oficiais dos artistas e consulte o site da Anvisa para conferir a regularidade dos produtos no Brasil. 
  • Não confie em tratamentos oferecidos por pessoas cuja identidade e qualificação profissional não podem ser verificadas, nem em anúncios que direcionam para conversas privadas no WhatsApp. 
  • Nunca abandone ou altere o uso de medicamentos prescritos sem orientação médica e, antes de iniciar qualquer tratamento, procure um profissional de saúde.

A quem denunciar: \Os anúncios fraudulentos podem ser denunciados diretamente ao TikTok, pela opção "Relatar" na publicação. Também é possível registrar uma denúncia à Anvisa, pelos canais oficiais, como o Fala.BR. Caso a vítima tenha sofrido prejuízo financeiro, deve entrar em contato imediatamente com o banco, guardar comprovantes e registrar um boletim de ocorrência na Polícia Civil. Se o pagamento for feito via Pix, é possível solicitar ao banco a abertura do Mecanismo Especial de Devolução (MED), embora a recuperação do dinheiro não seja garantida.

Desconfiou que é golpe? O Comprova pode ajudar a verificar. O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, eleições e possíveis golpes digitais, e abre verificações para os conteúdos duvidosos que mais viralizam. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Não é a primeira vez que circulam nas redes sociais vídeos adulterados em que o cantor Leonardo divulga falsos medicamentos para tratar diabetes. Checagem da Reuters em janeiro de 2024 constatou que um vídeo de 24 minutos do cantor para um canal no YouTube sobre nutrição animal foi alterado, inserindo falas sobre ele ter se tratado da diabetes usando um suplemento alimentar. Em certo momento, um número de telefone é citado, induzindo quem assiste ao vídeo a entrar em contato com um falso médico para comprar o produto. Em 2025, o vídeo adulterado digitalmente voltou a circular no Facebook e foi novamente desmentido por checagem da Reuters Fact Check. O Estadão também já investigou sobre deepfakes envolvendo o Dr. Drauzio Varella, em vendas de medicamentos para supostamente curar diabetes. 

Para se aprofundar mais: O Comprova já realizou outras checagens sobre desinformação na área da saúde, como a teoria do "turbocâncer", que não tem base científica, e a alegação falsa de que a vacina contra a gripe aumenta o risco de adoecer. Também verificou-se que é enganosa a afirmação de que o Brasil comprou uma vacina contra a covid-19 banida em outros países.

Este texto foi produzido por jornalistas que participam do programa de Residência no Comprova e conta com o apoio do TikTok.

Verificado por: Correio de Carajás, Estadão, A Gazeta, Projeto Comprova

Fonte: Projeto Comprova
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