É falso que o governo tenha comprado 45 milhões de sacos para cadáveres em preparação para El Niño
VÍDEO MOSTRA DOCUMENTO FALSO, QUE NÃO EXISTE NO PORTAL DA TRANSPARÊNCIA DO GOVERNO BRASILEIRO
O que estão compartilhando: vídeo afirma que o governo federal teria comprado 45 milhões de sacos para cadáveres em preparação para uma "nova pandemia" ou para desastres climáticos que podem ser causados pelo El Niño.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. Não existe no Portal da Transparência e no Portal de Compras do Governo Federal a licitação mencionada no vídeo. Ao Verifica, o governo afirmou que "não existe nenhum processo de compra dos produtos mencionados". O autor do conteúdo foi procurado, mas não respondeu.
Saiba mais: O vídeo ultrapassa 800 mil visualizações e 5 mil comentários no Instagram. Nas redes, o criador do conteúdo se apresenta como "um louco lúcido se preparando para o fim". Outras publicações do perfil espalham teorias da conspiração de planos secretos de desaparecimentos em massa ao redor do mundo.
Na publicação checada pelo Verifica, o autor alega ter acessado, decodificado e traduzido um documento confidencial de uma licitação do governo federal — segundo ele, de número 2379/26.
O Estadão fez a busca pela suposta licitação no Portal da Transparência, no Portal de Compras do Governo Federal, no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) e no Diário Oficial da União, mas não encontrou nenhum processo com o número mencionado ou com a descrição e quantidade dos produtos que o vídeo cita.
O criador do conteúdo diz ter obtido o arquivo na deep web, após "quebrar todos os firewall [sic] de segurança". E acrescenta que "demorou três a quatro dias para acontecer essa codificação".
Com o celular, o homem grava a tela de um computador mostrando partes do suposto documento. O arquivo indicaria a contratação de empresas para o fornecimento de 45 milhões de sacos para acondicionamento de cadáveres, destinados à formação de um estoque estratégico nacional para situações de emergência.
O modelo do documento - com fundo escuro, fonte "Courier New" e letras nas cores verde e vermelho - não segue o padrão dos avisos de licitações publicados no Portal de Compras do governo.
Novo El Niño e teoria conspiratória climática
Em comunicado oficial, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) declarou, em 11 de junho, o início de um novo El Niño. O fenômeno causa o superaquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico, o que altera e intensifica regimes de chuvas, ventos e pressão atmosférica em várias regiões do planeta.
O autor do vídeo checado pelo Verifica afirma que a compra do governo seria parte da preparação do Brasil para os desastres naturais que poderiam ser causados pelo fenômeno. O conteúdo relaciona o El Niño à teoria conspiratória que acusa o Programa de Pesquisa Auroral Ativa de Alta Frequência (Haarp, na sigla em inglês) de manipular e causar eventos climáticos extremos em todo o mundo.
Ele alega, por exemplo, que o Haarp tem o poder de programar "terremotos híbridos" por meio de "máquinas psicotrônicas" que atuam nas placas tectônicas do planeta, sem mencionar fonte, explicação ou contexto da afirmação.
Como já explicado pelo Verifica, não existe evidência de que o clima possa ser influenciado pelo Haarp. O projeto foi criado nos anos 1990 e pertence à Universidade de Alaska Fairbanks, nos Estados Unidos.
O programa trabalha com o aquecimento da ionosfera, camada atmosférica que fica entre 80 km e 640 km de altitude. O método permite que cientistas analisem o comportamento dos elétrons e da radiação, com foco no aprimoramento de tecnologias de vigilância civil e militar e de redes de rádio globais.
Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), não há evidências o bastante para afirmar que as mudanças climáticas intensificam o El Niño, mas a agência acredita que eles podem amplificar os efeitos associados. Um oceano e uma atmosfera mais quentes aumentam a disponibilidade de energia e de umidade para eventos climáticos extremos, como ondas de calor e chuvas intensas.
Há uma nova pandemia por vir?
Nenhuma entidade de saúde nacional ou global fez alerta a respeito de uma nova pandemia.
Em janeiro, vídeos circulando nas redes sociais alardeavam sobre uma pandemia do vírus Nipah, que teve dois casos confirmados em profissionais de saúde da Índia. O Estadão Verifica investigou e concluiu que o conteúdo era enganoso.
Em junho deste ano, repercutiu a alegação de que o Rio de Janeiro estava em estado de alerta pelo vírus Ebola. Nas semanas anteriores, as autoridades sanitárias brasileiras investigaram dois casos suspeitos da doença no País, mas ambos foram descartados após exames laboratoriais.
Em relação ao hantavírus, que ganhou destaque após a confirmação de infecções entre passageiros de um cruzeiro marítimo em maio de 2026, não há registros no Brasil de casos de infecção pela cepa Andes, que é transmissível entre humanos.
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