Câncer de mama: Imagem corporal, escolhas e saúde mental após a mastectomia
A reconstrução mamária costuma ser apresentada às mulheres como um complemento quase automático à mastectomia. É o que ouço e constato quando faço atendimentos em consultório privado. No entanto, a literatura científica mostra que menos de um terço das mulheres brasileiras submetidas à mastectomia se submetem à reconstrução mamária imediata. O percentual é ainda menor entre usuárias do SUS,
O diagnóstico de câncer de mama não impacta apenas a saúde física das mulheres. Ele atravessa dimensões profundas: as mamas não são somente órgãos ou mais uma parte de um corpo, pois representam feminilidade, sexualidade e maternidade. Por este motivo, as mudanças corporais que acompanham as mulheres desde muito cedo nem sempre acontecem de forma tranquila, principalmente se não foi escolha da mulher.
Ao longo da vida, o corpo feminino experimenta transformações sucessivas. O desenvolvimento das mamas na puberdade pode ser vivido como algo desejado e valorizado, mas para muitas mulheres também é motivo de vergonha e desconforto. A gestação e, a seguir, a possibilidade real da amamentação trazem mudanças ainda mais intensas e frequentemente romantizadas pela sociedade, que vê no processo a beleza e a importância do ato, que envolve também cansaço, falta de apoio e profundas adaptações corporais.
Mais fáceis ou mais difíceis, todas estas fases são de certa forma previsíveis. No entanto, um diagnóstico de câncer de mama rompe essa previsibilidade. Apesar de frequente entre as mulheres, a maioria acredita que está protegida da ocorrência, e que só acontece com a amiga, a tia, a vizinha… O diagnóstico, sempre indesejado, muitas vezes chega de forma avassaladora, inclusive para aquelas que se cuidam e realizam exames regularmente. Mesmo mulheres que acreditavam que, se algo acontecesse, seria precoce, podem se deparar com tumores extensos e agressivos.
No Brasil, ainda temos um número realmente muito grande de mulheres recebendo o diagnóstico quando a doença já está em fases avançadas, resultado de diagnósticos tardios. Mesmo que a medicina esteja em constante evolução, a prevalência de mastectomias continua elevada e, com isso, continuamos mantendo em alta a magnitude da mudança corporal imposta pelo tratamento.
Assim como não escolhemos ter câncer, e também não se escolhemos o acesso ao sistema de saúde. A maioria das mulheres no nosso país depende do Sistema Único de Saúde, e infelizmente não temos dados bonitos para serem mostrados quando falamos da oportunidade de acesso que mulheres têm ou deveriam ter à reconstrução de suas mamas após a mastectomia.
O que limita a reconstrução das mamas além do acesso?
Dados do SUS publicados pelo mastologista brasileiro Ruffo Freitas-Júnior, estudioso do tema, mostram que, entre 2008 e 2014, a taxa de reconstrução mamária subiu, somando 29,2% entre procedimentos imediatos e tardios. Antes, a cirurgia reconstrutiva da mama representava 15% dos casos. Porém mesmo com esta melhora ainda estamos muito aquém do que deveríamos oferecer às nossas mulheres.
A reconstrução mamária costuma ser apresentada às mulheres como um complemento quase automático à mastectomia. É o que ouço e constato quando faço atendimentos em consultório privado. No entanto, a literatura científica mostra que menos de um terço das mulheres brasileiras submetidas à mastectomia se submetem à reconstrução mamária imediata. O percentual é ainda menor entre usuárias do SUS, exatamente em razão de desigualdades regionais, estruturais e da disponibilidade de cirurgiões capacitados (Fernandes João et al., Frontiers in Oncology, 2023).
Trata-se de uma reconstrução oncológica, cujo objetivo é oferecer à mulher um volume mamário e, potencialmente, uma melhora da autoestima. Desse modo, deveria ser parte integral e inequívoca ao tratamento, somente deixada de lado se alguma contraindicação clínica estivesse presente ou se fosse escolha da paciente.
Ao longo dos anos, o que era realizado somente pelos cirurgiões plásticos começou a ser também feito pelo próprio mastologista, no que chamamos hoje de Oncoplastia Mamária. Esta estratégia teve por objetivo tentar reduzir a dificuldade de acesso das mulheres à reconstrução. Por exemplo, em cidades do interior onde cirurgiões plásticos não existiam.
Pouco a pouco, médicos mastologistas estão recebendo treinamento para este tipo de cirurgia, com a finalidade de este conhecido GAP fosse reduzido. Hoje, na grade de pontos a serem realizados por um mastologista, já existe a necessidade de treinamento em oncoplastia para o cuidado das pacientes. Ou seja, hoje o mastologista pode trabalhar em conjunto com a equipe de cirurgia plástica (eu atuo desta forma) ou ser a pessoa responsável pela mastectomia e reparação da mama retirada. Isso vem promovendo mais acesso e mais possibilidade de que mulheres sejam reconstruídas neste nosso país continental.
Vive o corpo com autonomia e respeito
Entretanto, alguns pontos precisam ser mencionados. Mesmo quando a reconstrução é possível, ela não é recebida ou vivida como a solução perfeita para todas as mulheres.
Estudos mostram que dor persistente, limitação funcional e dificuldade de incorporação da mama reconstruída à imagem corporal podem comprometer a adaptação ao resultado cirúrgico. Como as mulheres vivem de formas diferentes a experiência da mastectomia ou da reconstrução, é exatamente por isso que nem todas as mulheres desejam reconstruir a mama. Outras não têm acesso a essa possibilidade; mas há aquelas que, mesmo tendo acesso, optam por não fazê-lo. Essas escolhas precisam ser respeitadas. O papel do médico não é julgar ou impor um caminho único, mas acolher, respeitar e apoiar decisões individuais.
As mudanças corporais impostas pelo câncer de mama escancaram desigualdades e limites do sistema de saúde, mas também revelam histórias de autonomia, ressignificação e força. Valorizar a imagem corporal dessas mulheres não significa enquadrá-las em um padrão, mas garantir que possam viver seus corpos — reconstruídos ou não — com dignidade, liberdade e respeito.
Fabiana Baroni Alves Makdissi não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.