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"Buracos de minhoca" cósmicos podem não existir, mas ideia ajuda a revelar importantes noções sobre o tempo e o Universo

A ficção científica imagina os buracos de minhoca como atalhos através do espaço-tempo. Mas a ideia original sugere que eles podem ser algo muito mais estranho

16 jan 2026 - 11h04
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Enigma que Einstein e Rosen abordaram no início do século 20 nunca foi sobre viagens espaciais, mas sobre como campos quânticos se comportam no espaço-tempo curvo, com o tempo podendo se mover em dois sentidos remotevfx.com/Shutterstock
Enigma que Einstein e Rosen abordaram no início do século 20 nunca foi sobre viagens espaciais, mas sobre como campos quânticos se comportam no espaço-tempo curvo, com o tempo podendo se mover em dois sentidos remotevfx.com/Shutterstock
Foto: The Conversation

Os chamados "buracos de minhoca" cósmicos (wormholes, no original em inglês) são frequentemente imaginados como túneis através do espaço ou do tempo — atalhos no Universo. Mas essa imagem se baseia em um mal-entendido sobre o trabalho dos físicos Albert Einstein e Nathan Rosen.

Em 1935, enquanto estudavam o comportamento de partículas em regiões de gravidade extrema, Einstein e Rosen introduziram o que chamaram de uma "ponte": uma ligação matemática entre duas cópias perfeitamente simétricas do espaço-tempo. A intenção não era criar uma passagem para viagens, mas uma forma de manter a consistência entre a gravidade e a física quântica. Só mais tarde as Pontes Einstein-Rosen passaram a ser associadas a buracos de minhoca, apesar de terem pouco a ver com a ideia original.

Mas em uma nova pesquisa, meus colegas e eu mostramos que a Ponte Einstein-Rosen original aponta para algo muito mais estranho — e mais fundamental — do que um buraco de minhoca.

O enigma que Einstein e Rosen estavam abordando nunca foi sobre viagens espaciais, mas sobre como os campos quânticos se comportam no espaço-tempo curvo. Interpretada dessa forma, a Ponte Einstein-Rosen atua como um espelho no espaço-tempo: uma conexão entre duas setas microscópicas do tempo.

A Mecânica Quântica rege a natureza nas menores escalas, como partículas, enquanto a Teoria da Relatividade Geral de Einstein se aplica à gravidade e ao espaço-tempo. Conciliar as duas continua sendo um dos desafios mais profundos da Física. E, de uma maneira empolgante, nossa reinterpretação pode oferecer um caminho para fazer isso.

Legado mal compreendido

A interpretação do "buraco de minhoca" surgiu décadas após o trabalho de Einstein e Rosen, quando os físicos especularam sobre a travessia de um lado do espaço-tempo para o outro, principalmente em pesquisas do final da década de 1980.

Mas essas mesmas análises também deixaram claro o quão especulativa era a ideia: dentro da Relatividade Geral, tal viagem é proibida. A ponte se fecha mais rápido do que a luz poderia atravessá-la, tornando-a intransitável. As Pontes de Einstein-Rosen são, portanto, instáveis e não observáveis — estruturas matemáticas, não portais.

Mas a metáfora do buraco de minhoca floresceu na cultura popular e na física teórica especulativa. A ideia de que os buracos negros poderiam conectar regiões distantes do Cosmos — ou até mesmo atuar como máquinas do tempo — inspirou inúmeros artigos, livros e filmes.

Não há, porém, evidências observacionais de buracos de minhoca macroscópicos, nem qualquer razão teórica convincente para esperar que existam dentro da teoria de Einstein. Embora extensões especulativas da física — como formas exóticas de matéria ou modificações da Relatividade Geral — tenha sido propostas para apoiar tais estruturas, elas permanecem não testadas e altamente conjecturais.

Duas setas do tempo

Nosso trabalho recente revisita o enigma da Ponte Einstein-Rosen usando uma interpretação quântica moderna do tempo, com base em ideias desenvolvidas por Sravan Kumar e João Marto.

A maioria das leis fundamentais da física não distingue entre passado e futuro, ou entre esquerda e direita. Se o tempo ou o espaço forem invertidos em suas equações, as leis permanecem válidas. Levar essas simetrias a sério indica uma interpretação diferente da Ponte Einstein-Rosen.

Em vez de um túnel através do espaço, ela pode ser entendida como dois componentes complementares de um estado quântico. Em um, o tempo flui para frente; no outro, ele flui para trás a partir de sua posição refletida no espelho.

Essa simetria não é uma preferência filosófica. Uma vez excluídos os infinitos, a evolução quântica deve permanecer completa e reversível no nível microscópico — mesmo na presença da gravidade.

A "ponte" expressa o fato de que ambos os componentes temporais são necessários para descrever um sistema físico completo. Em situações comuns, os físicos ignoram o componente temporal invertido, escolhendo uma única flecha do tempo.

Mas perto de buracos negros, ou em universos em expansão e colapso, ambas as direções devem ser incluídas para uma descrição quântica consistente. É aqui que as Pontes Einstein-Rosen surgem naturalmente.

Resolvendo o paradoxo da informação

No nível microscópico, a ponte permite que a informação passe pelo que nos parece um horizonte de eventos — um ponto sem retorno na fronteira dos buracos negros. A informação não desaparece; ela continua evoluindo, mas na direção temporal oposta, espelhada.

Essa estrutura oferece uma resolução natural para o famoso paradoxo da informação do buraco negro. Em 1974, Stephen Hawking mostrou que os buracos negros irradiam calor e podem eventualmente evaporar, aparentemente apagando todas as informações sobre o que caiu neles — contradizendo o princípio quântico de que a evolução do sistema deve preservar as informações.

O paradoxo surge apenas se insistirmos em descrever horizontes de evento usando uma única seta do tempo extrapolada para o infinito — uma suposição que a própria mecânica quântica não exige.

Se a descrição quântica completa incluir ambas as direções do tempo, nada se perde realmente. A informação deixa a nossa direção do tempo e ressurge ao longo da direção inversa. A completude e a causalidade são preservadas, sem invocar uma nova física exótica.

Essas ideias são difíceis de compreender porque somos seres macroscópicos que experimentam apenas uma direção do tempo. Em escalas cotidianas, a desordem — ou entropia — tende a aumentar. Um estado altamente ordenado evolui naturalmente para um estado desordenado, nunca o contrário. Isso nos dá uma seta do tempo.

Mas a Mecânica Quântica permite um comportamento mais sutil. Curiosamente, já podem existir evidências dessa estrutura oculta. A radiação cósmica de fundo em micro-ondas — o "eco" do Big Bang — mostra uma assimetria pequena, mas persistente: uma preferência por uma orientação espacial em detrimento de sua imagem espelhada.

Essa anomalia intriga os cosmólogos há duas décadas. Os modelos padrão atribuem a ela uma probabilidade extremamente baixa — a menos que componentes quânticos espelhados sejam incluídos.

Ecos de um Universo anterior?

Essa imagem se conecta naturalmente a uma possibilidade mais profunda. O que chamamos de "Big Bang" pode não ter sido o início absoluto, mas um salto — uma transição quântica entre duas fases invertidas no tempo da evolução cósmica.

Explosão espacial.
Explosão espacial.
Foto: The Conversation
O Big Bang foi realmente o início?Triff/Shutterstock

Nesse cenário, os buracos negros poderiam atuar como pontes não apenas entre direções temporais, mas entre diferentes épocas cosmológicas. Nosso Universo pode ser o interior de um buraco negro formado em outro Cosmos "pai". Isso pode ter acontecido quando uma região fechada do espaço-tempo deste Cosmos "pai" entrou em colapso, ricocheteou e começou a se expandir como o Universo que observamos hoje.

Se essa imagem estiver correta, ela também oferece uma maneira de observações revelarem a verdade. Relíquias da fase pré-ricochete — como buracos negros menores — poderiam sobreviver à transição e reaparecer em nosso Universo em expansão. Parte da matéria invisível que atribuímos à matéria escura poderia, na verdade, ser composta por tais relíquias.

Nessa visão, o Big Bang evoluiu a partir das condições de uma contração anterior. Os buracos de minhoca não são necessários: a ponte é temporal, não espacial — e o Big Bang se torna um portal, não um começo.

Essa reinterpretação das Pontes Einstein-Rosen não oferece atalhos entre galáxias, viagens no tempo, buracos de minhoca de ficção científica ou hiperespaço. O que ela oferece é algo muito mais profundo: uma imagem quântica consistente da gravidade, na qual o espaço-tempo incorpora um equilíbrio entre direções opostas do tempo — e onde nosso Universo pode ter tido uma história antes do Big Bang.

Isso não derruba a Relatividade de Einstein ou a física quântica — completa-as. A próxima revolução na Física pode não nos permitir viajar mais rápido que a luz — mas pode revelar que o tempo, nas profundezas do mundo microscópico e em um Universo em expansão, flui nos dois sentidos.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Enrique Gaztanaga recebe financiamento do Plano Nacional Espanhol (PGC2018-102021-B-100) e das bolsas Maria de Maeztu (CEX2020-001058-M). Enrique Gaztanaga também é professor no Instituto de Ciências Espaciais (CSIC/IEEC) em Barcelona e publica um blog científico chamado DarkCosmos.com.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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