Vorcaro esteve com Mendonça antes de divulgação de conversas com Moraes
O ministro André Mendonça confirmou que Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Banco Master, prestou depoimento sob sigilo ao seu gabinete relatando graves intimidações e abusos policiais. A oitiva ocorreu com o Ministério Público, mas sem a PF, dias antes de Mendonça retirar o sigilo de supostas mensagens entre Vorcaro e Alexandre de Moraes. Diante da crise provocada pelas suspeitas de envolvimento de ministros da Corte com o empresário, o presidente do STF, Edson Fachin, prometeu anunciar medidas em breve.
Gabinete do relator do caso Master no STF diz que Ministério Público acompanhou depoimento, mas não a PF, e que Alexandre de Moraes não foi citado. Ex-banqueiro relatou "graves intimidações".O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça confirmou nesta quarta-feira (02/09) que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso pelo escândalo do Banco Master, prestou, na semana passada, um depoimento com presença do Ministério Público, mas sem a Polícia Federal (PF).
O depoimento foi realizado em caráter de urgência a um juiz auxiliar que acompanha o caso, após um pedido dos advogados de Vorcaro.
Segundo uma nota divulgada pela assessoria de Mendonça, não foram abordados temas relacionados ao ministro do STF Alexandre de Moraes.
No dia anterior, Mendonça havia retirado o sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF) que continha registros de supostas conversas entre Moraes e Vorcaro, sugerindo que o magistrado teria mantido contato com o ex-banqueiro e inclusive discutido com ele as investigações contra o Banco Master.
Após o depoimento ter sido revelado por reportagem do jornal O Globo, Mendonça - relator do caso do Banco Master no STF - divulgou uma nota afirmando que o depoimento de Vorcaro "foi realizado por requerimento expresso da defesa do depoente, que relatou estar sofrendo graves intimidações e solicitou ser ouvido com urgência". "Trata-se de ato processual regular, conduzido por juiz auxiliar."
Na nota, o ministro afirma que a presença do Ministério Público é obrigatória em casos como esse, mas não a da Polícia Federal. "Tratando-se de depoimento motivado por relato de graves intimidações, a não convocação de agentes policiais seguiu essa mesma diretriz de proteção, e não qualquer escolha de conveniência do gabinete", disse o ministro.
Não se sabe o que Vorcaro relatou no depoimento, nem a data exata em que ele esteve no gabinete de Mendonça.
"O conteúdo da audiência é resguardado por sigilo legal. Registre-se, apenas, que a informação de que teriam sido abordados temas relacionados ao ministro Alexandre de Moraes não procede", prossegue a nota.
Mendonça diz ter recebido Vorcaro uma única vez
Em outra nota, o gabinete de Mendonça afirmou que ele se reuniu com Vorcaro em março de 2025, em uma única ocasião, para tratar de um processo envolvendo precatórios que estava em julgamento na Corte. A declaração veio após o portal ICL Notícias revelar que o advogado Ciro Rocha Soares, próximo de Vorcaro, enviou uma mensagem ao banqueiro na qual discutia um suposto encontro com Mendonça.
Segundo o gabinete de Mendonça, o assunto tratado no encontro foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que estava em julgamento do STF. O caso discutia créditos de precatórios de interesse do Master e encontrava-se, na data da reunião, sob pedido de vista.
Mendonça fez questão de ressaltar que foi contrário à posição defendida por Vorcaro no encontro. "Registre-se, aliás, que a atuação jurisdicional do ministro foi contrária à posição defendida pelo empresário, em linha com sua posição historicamente defendida em casos semelhantes, conforme se pode verificar nos autos", afirma a nota.
Vorcaro diz ter vivido "situação igual a de Maduro"
A jornalista Mônica Bergamo, do jornal Folha de S. Paulo, relatou nesta quarta-feira em sua coluna o que o ex-banqueiro teria dito na reunião com o gabinete de Mendonça.
Segundo o texto, Vorcaro disse que, em sua opinião, a PF recusou três vezes sua proposta delação premiada porque temiam que ele pudesse citar o nome de Andrei Rodrigues. diretor-geral da corporação.
O ex-banqueiro afirmou que teve os olhos vendados em uma das transferências prisionais e que passou calor em um camburão. Ele contou que os agentes que o escoltavam diziam que, se ele falasse do diretor-geral da PF, "ficaria preso para sempre".
Vorcaro, segundo a colunista, relatou ter passado pela mesma situação do ex-líder venezuelano Nicolás Maduro quando foi preso por forças americanas em Caracas e transferido para os Estados Unidos. Uma imagem de Maduro divulgada por autoridades americanas logo após ser detido o mostra algemado, com óculos escuros vendando seus olhos e protetores de ouvido.
Bergamo citou integrantes da PF e da Procuradoria-Geral da República (PGR) que disseram que o ex-banqueiro não trouxe fatos concretos que configurassem maus-tratos e que, na verdade, estaria tentando arrumar pretextos para que seja aberta uma nova negociação em torno de uma colaboração premiada.
Segundo a coluna, interlocutores de Andrei Rodrigues afirmam que ele jamais teve relação com Vorcaro e que ambos se encontraram casualmente apenas uma vez em Londres, em um seminário jurídico patrocinado pelo Banco Master.
Fachin anunciará medidas nos próximos dias
O presidente do STF, ministro Edson Fachin, afirmou nesta quarta-feira que anunciará nos próximos dias algumas medidas, que ainda estão sendo avaliadas, relacionadas à crise provocada pelo suposto envolvimento de ministros da Corte com Vorcaro.
Durante um evento sobre resistência democrática no STF, Fachin afirmou, sem mencionar diretamente o caso, que a situação exige a preservação da confiança da sociedade na Corte e o devido encaminhamento institucional dos fatos.
"Em momentos de especial gravidade, é dever de todos preservar a integridade do Supremo Tribunal Federal, a autoridade de suas decisões, o respeito às suas normas e, acima de tudo, a confiança da sociedade na instituição", afirmou.
"Os indícios reclamam o devido encaminhamento institucional. Circunstâncias relacionadas, de um lado, à atuação processual e, de outro, a sérios elementos de fatos que exigem desta Presidência serenidade, responsabilidade e firmeza", sublinhou o presidente da Corte.
"A elevada autoridade do cargo não confere privilégios, mas impõe deveres, limites e responsabilidades, que devem ser observados com absoluto respeito à Constituição, às leis e ao Supremo Tribunal Federal", concluiu.
rc (Agência Brasil,ots)
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