Torneio de Roland-Garros começa sob polêmica sobre divisão de receitas e dois brasileiros em quadra
Começa neste domingo (24) a fase principal do torneio de Roland-Garros, o único Grand Slam disputado no saibro, com a presença de dois representantes brasileiros em quadra: João Fonseca, no masculino, e Beatriz Haddad Maia, no feminino. A edição deste ano é marcada não apenas pelas disputas em quadra, mas também por uma polêmica fora dela: os valores pagos aos jogadores e a divisão das receitas do torneio.
Maria Paula Carvalho, de Roland-Garros
Roland-Garros é palco de uma discussão cada vez mais presente no circuito profissional de tênis: a divisão das receitas do esporte. Nos últimos meses, alguns dos principais nomes do circuito mundial passaram a pressionar os organizadores para aumentar a participação dos atletas nos lucros gerados pelas competições.
O debate ganhou força com a circulação de um manifesto assinado por jogadores de elite, entre eles o número um do mundo, Jannik Sinner, a líder do ranking feminino Aryna Sabalenka, além do sérvio Novak Djokovic e da americana Coco Gauff. A principal reivindicação é uma fatia maior das receitas totais.
Para 2026, Roland-Garros anunciou uma premiação recorde de € 61,7 milhões, cerca de 10% superior à do ano anterior. Os campeões de simples vão receber € 2,8 milhões cada, mais de R$ 16 milhões, enquanto os vice-campeões ficam com € 1,4 milhão. Já os atletas eliminados na primeira rodada garantem cerca de € 87 mil, o equivalente a R$ 505 mil.
Apesar dos números expressivos, jogadores consideram que a participação nas receitas ainda é limitada. Estimativas indicam que entre 14% e 15% da arrecadação total do torneio é destinada à premiação — proporção que, segundo os atletas, deveria se aproximar de 22%, em linha com outros eventos esportivos.
A diretora do torneio, Amélie Mauresmo, reagiu às críticas e reconheceu a importância do debate, mas destacou as especificidades do modelo francês. Em entrevista a jornalistas, da qual a RFI participou, ela reconheceu a tensão em torno do tema e lamentou a forma como o movimento foi conduzido, reiterando que o diálogo está aberto.
"Estamos um pouco 'tristes', entre aspas, com essa escolha, porque acaba penalizando todos os envolvidos no torneio — os jogadores, os fãs e a imprensa", declarou. "A discussão foi lançada, será assunto de reuniões. Nós queremos conversar, trocar ideias, avançar. Cada um precisa dar um passo, mas estou confiante", disse.
Mauresmo também destacou as particularidades do modelo de Roland-Garros, administrado pela Federação Francesa de Tênis (FFT), diferentemente de outros torneios do circuito. Segundo ela, a organização tem investido em melhorias estruturais e no aumento da premiação.
"Nós temos um modelo. O torneio pertence à Federação Francesa de Tênis, o que é muito diferente do que existe nos torneios da ATP, da WTA e mesmo de outros Grand Slams. Colocamos à disposição tudo o que podemos, no interesse dos jogadores. As infraestruturas melhoraram e os prêmios em dinheiro dobraram em dez anos", afirmou.
"Não devo nada a ninguém", diz João Fonseca
Em entrevista aos jornalistas, o brasileiro João Fonseca comentou sobre a polêmica dos prêmios. "Eu fui notificado disso, nenhum jogador chegou a falar comigo, mas eu sei sobre o protesto que eles estão fazendo", relatou. "Mas não tenho poder para opinar porque é só meu segundo Roland-Garros. Estou focando no meu jogo, não tenho do que reclamar", acrescentou.
João Fonseca chega à competição após uma estreia promissora em 2025, quando alcançou a terceira rodada — desempenho que alimenta as expectativas para esta edição. Ele fez uma comparação entre a estreia, ano passado, e agora. "Eu acho que, do ano passado para cá, é muito diferente. Sou um João completamente diferente. Com uma mentalidade diferente, as pressões são diferentes", avalia.
"Eu era um João que não devia nada a ninguém, sigo não devendo nada a ninguém, mas ninguém sabia o quanto eu poderia jogar. Eu era uma zebra no torneio", lembra. "E agora, mais concretizado no top 30, eu tenho que defender os meus pontos", continua. "Hoje sou um João mais maduro, sabendo lidar com a experiência de cinco sets. No final das contas, estou melhor mentalmente, fisicamente, tecnicamente. Tem tudo para ser um bom torneio", conclui.
O jogador também falou sobre o que aprendeu ao enfrentar os melhores do mundo, como Carlos Alcaraz, Jannik Sinner e Alexander Zverev, em torneios este ano.
"O aprendizado é como esses caras lidam com a pressão super bem. Eles conseguem manter a calma nos momentos importantes, quando as coisas estão difíceis", continua. "Eu sou um jogador que bota bastante pressão no adversário, fazendo ele ficar em apuros, porque gosto de jogar agressivo", diz. "E eles se mantêm calmos, sabendo a hora de jogar com mais intensidade, de colocar as bolas para me fazer pensar", completa.
Bia Haddad tem nova equipe
Já Bia Haddad Maia, semifinalista em Roland-Garros em 2023, busca reencontrar o melhor nível após um início de temporada irregular. Em 2026, ela acumula quatro vitórias e 15 derrotas. E acaba de mudar de técnico. Agora treina com o espanhol Carlos Martinez Comet. "Todos os jogadores buscam mudanças e melhorias, todas as mudanças são naturais, os relacionamentos têm um ciclo", disse em entrevistas a jornalistas, antes da estreia. "O que sempre me deu confiança é a tranquilidade de que eu estou fazendo o meu 100%", continuou.
Ela conta que passou por muitas mudanças nos últimos 18 meses. "É claro que o principal é a mudança de dentro para fora quando eu estou nesse ambiente, com essas pessoas, e é o que eu estou buscando agora. Estou querendo me escutar para saber quem eu quero ser desse ponto da minha carreira para frente", analisa Bia Haddad.
"Eu estou procurando a forma que eu quero jogar. Quando a gente muda a equipe, muda um pouco a parte técnica e estratégica. Eu quero ser a Bia com alguns ajustes, mas não perder a minha personalidade. Eu acho que perdi um pouco da agressividade e sobre isso a gente está trabalhando", explicou a jogadora.
"Eu jogo tênis porque eu gosto, porque eu amo. O resultado em si importa pouco nesse momento. E o que importa é eu estar concentrada para conseguir melhorar essas coisas, porque o meu nível de tênis já está começando a ficar alto de novo nos treinos. É uma questão de tempo", conclui.
Outros tenistas brasileiros, eliminados no torneio classificatório, acompanham a competição na torcida. "A gente sempre quer ver os brasileiros indo bem", afirmou Thiago Seyboth Wild em entrevista à RFI.
Gustavo Heide também aposta em uma boa campanha dos compatriotas: "O João já mostrou do que é capaz. A Bia não vive o melhor momento, mas tem qualidade para voltar forte a qualquer hora."
600 mil espectadores esperados
Roland-Garros é um dos torneios mais tradicionais do tênis mundial e um dos mais queridos pelos torcedores brasileiros. É disputado desde 1891, antes da era profissional da modalidade. Este ano, o evento deve atrair mais de 600 mil espectadores ao longo das duas semanas de competição.
Nas arquibancadas, o clima é de entusiasmo. Muitos aproveitam a viagem não apenas para acompanhar partidas, mas também para viver a experiência completa do torneio, que mistura esporte, lazer e turismo.
Foi o caso da brasileira Ana Beatriz Peixoto, que escolheu Roland-Garros para celebrar o aniversário ao lado de amigos. "Sempre foi um sonho. Eu jogo tênis desde pequena e, agora que moro na França, era a oportunidade perfeita", contou. Para ela, o interesse crescente pelo tênis no Brasil também se reflete no público presente. "Com a Bia e agora o João, o Brasil está melhorando bastante. Tem uma geração nova forte chegando".
Paulo Certec, professor de inglês, falou à RFI sobre a emoção de voltar ao templo do tênis parisiense. "Não é a minha primeira vez. Eu gosto bastante de tênis, já tive a oportunidade de estar aqui e estou feliz de ter voltado", disse. "João é a nossa grande estrela, espero que ele consiga no saibro chegar bem longe no torneio e nos dar mais uma alegria como o Guga deu em 2000 e 2001", acrescentou.
Gustavo Kuerten também foi vencedor do torneio em 1997. Entre os torcedores, o passado glorioso do tênis brasileiro segue presente. O nome do tricampeão em Paris ainda é frequentemente lembrado. "Quando dizemos que somos brasileiros, sempre vem a referência do Guga", observa o arquiteto Felipe Simão. "E acho que temos um 'tempero' diferente na torcida".
Se esse "tempero" vai se traduzir em resultados dentro de quadra, é o que os próximos dias em Roland-Garros irão revelar.
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