Serviço por telefone trata usuários de maconha
Cláudio Dias
Direto de Araraquara
Um serviço por telefone para ajudar usuários de drogas e dependentes químicos que funciona há seis meses vai ganhar em breve um atendimento específico para o usuário de maconha. A iniciativa é do programa Vivavoz, que funciona há quatro anos e tem índices de sucesso nos tratamentos equivalente aos dos atendimentos presenciais.
Fruto de parceria entre a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, o serviço auxilia pessoas de todo o País que pretendem se afastar do vício sem ter que recorrer a clínicas.
"Se o usuário ligar e nos pedir ajuda, podemos fazer esse atendimento pelo telefone. Isso é mais comum para o álcool e tabaco, mas, agora, estamos implantando aos poucos o serviço para dependentes de maconha", explica a coordenadora, Helena Barros.
Embora os números mostrem que os resultados são semelhantes ao tratamento convencional e presencial, Helena pondera que os dados, porém, não são 100% confiáveis, porque dependem da versão apresentada pelo interlocutor.
Desde 2005, psicólogos, alunos e profissionais da saúde são encarregados do atendimento. Por telefone, o usuário que ouve orientações e, periodicamente, passa relatórios da abstinência.
O balanço dos últimos seis meses indica que, em média, um terço dos que começam o acompanhamento por telefone continuam até o final. Desses, só 30% conseguem abandonar o uso da maconha. Para Helena, o ambiente e as companhias do usuário dificultam o sucesso do tratamento.
Um levantamento do Vivavoz mostra que um a cada dois usuários de maconha acaba também experimentando ou se tornando viciado em crack ou cocaína. Os dados tomam como base as ligações recebidas, entre janeiro de 2006 e setembro de 2007. Do total de ligações, 49% admitiram usar maconha, além de consumir outras drogas mais pesadas.
Helena diz que, por mês, em média, três mil pessoas são atendidas no serviço. Metade delas são usuários de drogas ou familiares pedindo ajuda. Dos usuários, 50% diz ter começado com a maconha antes de partir para outras substâncias mais pesadas. "A maconha está banalizada. As pessoas usam e pensam que não traz problemas. Os jovens usam na faculdade e acham legal. É uma questão cultural e errada." Dos usuários de maconha, cerca de 70% pedem ajuda por nem saberem exatamente o diagnóstico e as conseqüências do uso da droga.
De acordo com o Vivavoz, a maior parte dos usuários desconhece os problemas decorrentes do uso da maconha. Pesquisa da Secretaria de Estado da Saúde mostra que o número de crianças e adolescentes com idade entre 10 e 18 anos que procuraram tratamento intensivo para o vício em cocaína e crack cresceu 107% entre 2006 e 2008. O mesmo estudo indica que a compulsão por entorpecente mais pesados tem crescido em todas as classes sociais.
Mito sobre a maconha
O delegado Marcelo Quevedo, da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) de Araraquara (SP), diz ser comum a primeira detenção com maconha. "Tem o mito que maconha é fraca, não vicia e por ser facilmente encontrada no mercado, o pessoal usa com essa falsa impressão."
É o caso de Fábio (nome fictício), 14 anos, que está há cinco meses em uma clínica de recuperação. Aos dez anos, ele experimentou maconha pela primeira vez. Um dia, aos 12, um colega maior de idade o chamou em casa para ensiná-lo a costurar boné como havia aprendido na cadeia. Lá, ele fumou a primeira pedra de crack.
Em dois anos, o menino passou a furtar e fumar cinco pedras por dia. "Eu estava descontrolado. Entrei na droga por curiosidade e vim parar na clínica porque o juiz meu deu essa opção."
Em uma clínica em Araraquara, Alex, 14 anos, trata há quase dois meses a dependência química da cocaína e também do uso contínuo da maconha.
Aos 9 anos, fumou o primeiro baseado. Dois anos depois, cheirou a primeira carreira de cocaína. De lá para cá, viveu uma vida desregrada em um misto de drogas, atos infracionais e descontrole. Como segue o roteiro tradicional dos usuários, Alex também foi apresentado às drogas por um colega. "Eu sabia o que estava fazendo, mas quis experimentar." Hoje, ele está em uma clínica para dependentes químicos.
Serviço
Vivavoz atende pelo telefone 0800-510-0015, das 8h às 24 h, de segunda-feira a sexta-feira. A ligação é gratuita e não é necessário se identificar