Propaganda ou homenagem? questiona jornal francês sobre tributo a Lula no desfile do Carnaval do Rio
O Carnaval do Rio de Janeiro é destaque na imprensa francesa desta segunda‑feira (16). La Croix aborda a polêmica homenagem a Lula na Sapucaí, enquanto Le Figaro destaca a importância econômica da tradicional festa, que a cada ano atrai um número crescente de turistas para a "cidade maravilhosa".
O La Croix ressalta que o primeiro dia de desfiles das escolas de samba do Grupo Especial começou com uma "homenagem controversa" ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A Acadêmicos de Niterói abriu a noite com um tributo à vida do presidente brasileiro, incluindo ironias ao bolsonarismo. O desfile gerou polêmica a apenas oito meses das eleições presidenciais, observa a correspondente do jornal católico no Brasil, Aglaé Watrin.
"Propaganda ou homenagem?", questiona o jornal, informando que a oposição acusou a Acadêmicos de Niterói de usar recursos públicos como propaganda antecipada e apresentou uma queixa ao Tribunal Superior Eleitoral. O TSE negou o pedido para impedir o desfile, por considerá‑lo censura prévia. No entanto, especialistas ouvidos pelo jornal afirmam que referências explícitas ao voto poderiam gerar multas ou até inelegibilidade.
O texto destaca que a escola recebeu R$ 1 milhão da Embratur, o mesmo valor destinado às outras 11 agremiações apoiadas pela agência de turismo do governo federal. A Acadêmicos de Niterói defende que o desfile é apenas uma homenagem cultural, retratando a trajetória de Lula, da infância pobre em Pernambuco à atuação sindical, até sua terceira eleição à Presidência. Ao contrário do que se esperava, a primeira‑dama não desfilou e acompanhou a apresentação de um camarote. A participação anunciada de Janja em um dos carros alegóricos havia provocado muitas críticas. Apenas o presidente Lula desceu à pista para cumprimentar os integrantes da escola.
Embora presidentes anteriores já tenham sido celebrados no sambódromo, esta é a primeira vez que um chefe de Estado em exercício e candidato à reeleição se torna tema de um desfile transmitido ao vivo para milhões de pessoas, lembra o La Croix.
Força econômica
Le Figaro também trata do Carnaval do Rio, mas sob a perspectiva econômica. O diário conservador afirma que "a maior festa do mundo" continua sendo uma poderosa força financeira para a cidade e para o estado. Em 2026, as receitas devem alcançar R$ 10 bilhões, um aumento de 10% em relação a 2024. O afluxo crescente de turistas impulsiona fortemente diversos setores, especialmente trabalhadores autônomos como guias, ambulantes e comerciantes, para quem o período representa uma parcela significativa da renda anual.
Em 2025, o Rio recebeu 12,5 milhões de visitantes, incluindo 2,1 milhões de estrangeiros, uma alta de quase 45% em um ano. Para o carnaval de 2026, a prefeitura espera a presença de 8 milhões de pessoas. Esse movimento eleva a demanda por serviços em favelas como a Rocinha, onde guias como Vitor Oliveira, entrevistado pelo jornal, viram seu trabalho aumentar expressivamente. Ele relata que, durante o carnaval, chega a ganhar até R$ 800 por dia.
Segundo estudos do governo do estado do Rio citados pelo Le Figaro, o evento gera entre 50 mil e 70 mil empregos temporários, abrangendo cultura, serviços, logística e comércio.
Grandes patrocinadores procuram cada vez mais associar suas marcas ao Carnaval, cujo ciclo econômico se estende por todo o ano, mobilizando milhares de profissionais envolvidos na criação de enredos, fantasias e carros alegóricos. O impacto também chega ao turismo de luxo. No Copacabana Palace, por exemplo, o tradicional baile cobrou até R$ 4 mil por ingresso, enquanto as diárias durante o período variam de R$ 6.000 a R$ 60.000, com o hotel totalmente lotado, relata o Figaro.