'Processo histórico': imprensa francesa repercute julgamento de Bolsonaro
A atenção internacional está voltada para o Brasil nesta terça-feira (2) com o início do julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) do ex-presidente Jair Bolsonaro. Jornais e sites franceses chamam o processo de "julgamento do século", destacando que é a primeira vez que uma tentativa de golpe no Brasil chega aos tribunais.
A atenção internacional está voltada para o Brasil nesta terça-feira (2) com o início do julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) do ex-presidente Jair Bolsonaro. Jornais e sites franceses chamam o processo de "julgamento do século", destacando que é a primeira vez que uma tentativa de golpe no Brasil chega aos tribunais.
Segundo Libération, os 12 ministros do STF vão deliberar até o dia 12 de setembro sob o olhar atento da comunidade internacional, incluindo os Estados Unidos, que já ameaçaram impor sanções.
Alegando uma "caça às bruxas" contra seu aliado populista, o presidente americano Donald Trump impôs uma sobretaxa punitiva de 50% sobre parte das exportações brasileiras, como o café, desde 6 de agosto, lembra a Franceinfo.
Os sites de publicações como o Ouest France, jornal mais vendido na França, e o Le Figaro informam que Bolsonaro, que pode pegar até 43 anos de prisão, não vai comparecer ao julgamento.
O Les Échos classifica o processo como histórico, mas com pouco suspense, já que a condenação seria praticamente certa. Mesmo assim, o diário econômico aponta que o futuro de Bolsonaro ainda mobiliza paixões políticas em um país profundamente polarizado.
Já o site do canal de TV CNews destaca o clima tenso em que o julgamento acontece - bem às vésperas do 7 de setembro, Dia da Independência do Brasil e uma data emblemática para os apoiadores do ex-presidente.
Em entrevista à RFI, Christian Lynch, autor do livro "O Populismo Reacionário: Ascensão e Legado do Bolsonarismo", acredita que apesar do afastamento de uma parte da direita brasileira de Jair Bolsonaro, ainda existe forte apoio político dos cidadãos ao ex-presidente. "No Brasil, o que ocorre é que a extrema direita surge como reação à consolidação da democracia e ao aparecimento de novos atores, setores antes subalternizados, pessoas que não tinham visibilidade até os anos 1990 ou 1994. Observamos o surgimento de contingentes da população negra, a emancipação das mulheres", contextualizou.
Para Lynch o que vemos é uma espécie de revolta por parte daqueles que sempre exerceram o poder, desde o período colonial. Setores que se consideravam os legítimos detentores do poder. "E é por isso que falam tanto em nome da liberdade: trata-se da liberdade de rejeitar a democracia para manter o controle. É a liberdade do senhor, do dominador, que não quer abrir mão da sua posição", afirmou.
"Momento simbólico"
A rede France24, por sua vez, fala em um momento simbólico para a democracia brasileira. Um teste importante sobre a capacidade das instituições de julgar um ex-presidente, e destaca que o julgamento também ilustra o papel central do Judiciário na preservação dos equilíbrios democráticos no Brasil.
Já a rádio France Inter ouviu a historiadora Maude Chirio, especialista em Brasil. Ela acredita que o processo mostra um certo amadurecimento democrático do país, mas lembra que a sociedade brasileira continua muito dividida. Para ela, parte da direita mais moderada já vê Bolsonaro como um obstáculo e quer virar essa página pensando nas eleições de 2026.