Voto 'Tarula': 12% dos locais de votação que elegeram Tarcísio deram vantagem a Lula
Em 12% dos locais de votação de São Paulo ocorreu o voto "Tarula", fenômeno em que os eleitores apoiaram Lula para a presidência e o adversário Tarcísio de Freitas para o governo estadual, contrariando as alianças partidárias formais. O resultado, atribuído por analistas ao pragmatismo do eleitor em relação ao desempenho de ambos os mandatários, superou a média na Grande São Paulo e mobilizou aliados bolsonaristas para tentar reverter a vantagem presidencial no segundo turno.
Em 1.360 locais de votação de São Paulo, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi o mais votado para presidente e Tarcísio de Freitas (Republicanos), para governador. A dobradinha entre os dois adversários ganhou o apelido de "Tarula" e foi vitoriosa em 12% dos locais de votação do Estado no primeiro turno, segundo levantamento do Estadão.
O resultado contraria as alianças defendidas pelos dois adversários políticos durante a campanha eleitoral. Enquanto Tarcísio apoiou o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL, Lula patrocinou a candidatura do seu ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), que disputou o Palácio dos Bandeirantes contra o governador e foi derrotado.
A maior incidência do voto cruzado ocorreu em Rio Grande da Serra, na região metropolitana de São Paulo. No município, Lula e Tarcísio foram os mais votados para seus respectivos cargos em 76,47% dos 17 locais de votação.
A cidade é administrada pelo prefeito Akira Auriani, que, embora filiado ao PSB, declarou apoio à reeleição do atual governador. Akira é um exemplo de "Tarula": embora não tenha se posicionado publicamente sobre a disputa presidencial, afirmou ao Estadão apoiar o governo Lula, principalmente pela relação que mantém com o vice-presidente Geraldo Alckmin, seu correligionário no PSB.
Na capital paulista, o fenômeno também aconteceu. Apesar do engajamento do prefeito Ricardo Nunes (MDB) na campanha de Flávio, Lula foi o mais votado para presidente e Tarcísio para governador em 481 locais de votação, o que corresponde a 23% dos 2.058 locais de votação da cidade - proporção superior à registrada no conjunto do Estado.
Para o cientista político Jairo Pimentel, professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), o voto cruzado reflete uma escolha pragmática de parte do eleitorado, que tomou sua decisão levando em conta as realizações dos dois governos.
É um voto de um eleitor pragmático, que não vota ideologicamente, mas, sim, por benefícios recebidos durante o governo desses dois incumbentes. Isso significa também que esses eleitores não se deixam seduzir pelo endosso de um político em relação a outro, mas observam apenas o desempenho dos candidatos.
Nunes mobiliza prefeitos para melhorar votação de Flávio em SP
No último domingo, Nunes reuniu prefeitos da Grande São Paulo para apresentar um mapa com dados da votação no Estado e discutir estratégias para o segundo turno. O governador e o presidenciável do PL também participaram do encontro.
Em várias cidades da região, o voto Tarula prevaleceu, caso de Carapicuíba (61,67%) e Itaquaquecetuba (65,33%), com 290 mil e 258 mil eleitores, respectivamente.
A campanha do PL entende que, a partir do engajamento dos próprios prefeitos, há espaço para melhorar o desempenho de Flávio nesses locais.
Eduardo Boigues (PL), prefeito de Itaquaquecetuba, foi um dos gestores presentes na reunião organizada por Nunes e conta que a orientação da campanha foi dividir a atuação dos prefeitos em duas frentes: uma focada em ampliar a vantagem de Flávio nas cidades onde o senador venceu no primeiro turno e outra dedicada a reverter o resultado naquelas em que o senador perdeu, mas Tarcísio foi o mais votado.
Boigues, que foi o mais votado do País entre municípios com segundo turno na eleição de 2024, afirma que pretende usar sua popularidade para virar votos para o senador.
"Na minha cidade, pela minha popularidade, eu tenho condições de tentar buscar essa diferença agora e fazer com que o Flávio fique na frente", afirma o prefeito.
Na avaliação de Jairo Pimentel, a margem de manobra é bastante apertada, já que o eleitorado que votou em um candidato no primeiro turno dificilmente vota em outro no segundo. "As pesquisas indicam entre 1% a 2% de conversão. Dito isso, a teoria mais aceita é que a conversão nesses casos passa sobretudo pelo aumento da rejeição ao adversário, com aumento da campanha negativa e de críticas ao adversário."
Para melhorar o desempenho em São Paulo, os bolsonaristas também esperam contar com o maior engajamento do governador Tarcísio de Freitas, que conquistou a reeleição no primeiro turno com votação recorde e agora promete mergulhar de cabeça na campanha de Flávio. O governador já esteve com o aliado em pelo menos cinco agendas neste segundo turno, sendo três delas em outros Estados.
Metodologia
Este levantamento considera como local de votação "Tarula" colégios eleitorais onde os mais votados foram Tarcísio de Freitas e Lula, candidatos, respectivamente, para governador de São Paulo e presidente.
A diferença entre os votos válidos para o Executivo estadual e o federal acontece por conta do voto em trânsito - modalidade em que brasileiros fora do domicílio eleitoral podem votar para presidente, mas não para governador.
O mesmo local de votação pode ter registrado 100 votos válidos para governador e 105 válidos para presidente, por exemplo: os cinco sobressalentes são votos em trânsito.
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