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"Sou negro e cresci na periferia", diz procurador a Lula

Ex-presidente foi interrogado no âmbito da Operação Zelotes nesta quarta-feira, dia 19

20 fev 2020
10h34
atualizado às 11h02
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O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva protagonizou um embate nesta quarta-feira, dia 19, em interrogatório com um dos procuradores que atuam na Operação Zelotes. Lula disse que desafia o Ministério Público a provar que ele havia recebido propina de empresários, ressaltando que ele tem "origem" humilde. O procurador da República Igor Miranda afirmou que não era autor intelectual da denúncia, mas que tinha obrigação de questioná-lo sobre os crimes de que é acusado.

"Eu estou cansado de tanta mentira contra mim, de tanta leviandade, de tantas insinuações. Eu tenho desafiado nesses últimos cinco anos, eu duvido que tenha um juiz, um procurador, um delegado, um deputado, um empresário que diga o seguinte: 'eu vi um empresário dar 5 centavos ao Lula'. Eu tenho desafiado vocês do Ministério Público. Apresente uma prova pelo amor de Deus. Parem de insinuar coisas a meu respeito. Possivelmente muita gente que trata com leviandade muita atuação como presidente da República talvez agisse com leviandade se estivesse no meu lugar", declarou Lula. "Eu sou de uma terra onde a gente nasce pobre, mas aprende a ter caráter e dignidade. Eu não abro mão disso."

O ex-presidente Lula.
O ex-presidente Lula.
Foto: Imagem: Reprodução / Estadão Conteúdo

Em seguida, o procurador respondeu: "Para deixar claro, presidente, não sou autor intelectual dessa denúncia. Como o senhor percebe, eu sou negro, cresci numa periferia, até nesse sentido é um prazer conhecê-lo, mas é meu dever institucional buscar a verdade".

Lula respondeu ficar "orgulhoso" de ver um negro no Ministério Público e disse que tinha esperança de ver mais. "Somos poucos", afirmou o procurador.

O ex-presidente disse ainda que merecia "desculpas" por parte do MPF e da Polícia Federal. Lula foi condenado e preso na Operação Lava Jato por crimes como corrupção e lavagem de dinheiro - ele foi solto em 2019 por ordem do Supremo Tribunal Federal até que os últimos recursos de defesa se esgotem.

"Estou dizendo em alto e bom som 24 horas por dia: Eu desafio a instituição Ministério Público a provar algum deslize na minha vida. A gente não pode falar o mesmo de alguns procuradores", provocou o petista.

O depoimento de Lula ocorreu como réu na ação penal da Operação Zelotes sobre a Medida Provisória 471 de 2009, que deu incentivos fiscais ao setor automobilístico e levou à instalação de fábricas de automóveis em Pernambuco, na Bahia e em Goiás. O processo foi separado para tratar apenas de atos ocorridos dentro do Poder Executivo, relacionados à elaboração da norma.

O ex-presidente é acusado de ter cometido corrupção ao solicitar ou assentar promessa de valores ao PT por parte de representantes de montadora. Lula disse que a denúncia é uma das "grandes mentiras" contadas pelo Ministério Público Federal. "Se alguém levou dinheiro foi o povo de Pernambuco, de Goiás, da Bahia e do Nordeste", disse Lula.

A audiência foi marcada por uma série de questionamentos de advogados de defesa dos réus à atuação do procurador. Lula chegou a dizer que "não havia nada pior do que uma pergunta mal feita".

O procurador Igor Miranda e o juiz Vallisney Oliveira, titular da 10ª Vara Federal, tentavam extrair do ex-presidente informações sobre o processo de elaboração da MP e cotejar o depoimento de Lula com o do ex-ministro e ex-chefe de gabinete Gilberto Carvalho, também réu na ação. Carvalho era o responsável por intermediar contatos com lobistas e representantes do setor automobilístico, como Mauro Marcondes, outro dos réus que Lula conheceu na época de sindicalista no ABC paulista. Ele negou ter atendido pedidos de Marcondes.

Lula disse ter feito uma série de reuniões com personalidades do setor, mas que discutia os termos da MP apenas com os ministros das áreas envolvidas. "Eu nunca recebi o Mauro Marcondes sozinho enquanto presidente da República para discutir a MP 471", afirmou Lula.

Ao fim, o ex-presidente explicou sua maneira de se comunicar: "Não pense que eu fiquei nervoso não, fico admirado de ver um negro no Ministério Público. E quero ver muitos", afirmou antes de deixar pelos fundos a sede da Justiça Federal.

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Estadão
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