'Quem quer porteira fechada deve comprar fazenda com tudo que está dentro', diz Marinho
Ministro do Trabalho afirma que expressão não pode ser usada no governo porque se refere a negociações comerciais, mas Centrão se queixa por não conseguir preencher todos os cargos
BRASÍLIA - Às vésperas das eleições que vão escolher os presidentes da Câmara e do Senado, a insistência do Centrão em reivindicar "porteira fechada" nos ministérios tem provocado contrariedade no Palácio do Planalto e no PT. Depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva dizer que os aliados devem se entender porque o governo é de "composição", o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, criticou o uso do termo empregado em negociações comerciais.
"Quem quer porteira fechada deve comprar uma fazenda com porteira fechada, com tudo o que está dentro. Compra o cabrito, a cabra, o cavalo, a galinha, o pato, o peru. Meu pai vendeu uma vez assim e se arrependeu. Mas aqui é governo", disse Marinho, ao ser questionado pelo Estadão sobre o "apetite" dos partidos por cargos. "Eu não consigo entender a expressão 'porteira fechada' em governo. Isso é equivocado, é esquisito."
No jargão político, "porteira fechada" significa dar a um mesmo partido autonomia para nomear todos os cargos da estrutura que comanda. No Turismo, por exemplo, integrantes do União Brasil - legenda da ministra Daniela Carneiro - se queixam de que o PT "abocanhou" os principais postos por meio da Embratur.
Daniela foi acusada de ter ligações com milicianos do Rio logo após assumir o ministério. O grupo de Daniela, que é casada com o prefeito de Belford Roxo, Wagner dos Santos Carneiro, vê "fogo amigo" por parte dos aliados de Marcelo Freixo (PT), presidente da Embratur. A empresa está vinculada ao Turismo no organograma do poder.
"Nós temos de fazer funcionar o governo. Se alguém quer porteira fechada, qual é a intenção? A sociedade é uma composição com várias linhas de pensamento. E assim também é o governo. Não tem de ter porteira fechada aqui", destacou Marinho, que ainda preside o diretório do PT de São Paulo.
Apesar das observações, o ministro não fez crítica direta ao Centrão. "Não faço a menor ideia de para onde está indo esse povo nem o que deseja", disse ele.
A discussão sobre a partilha de cargos voltou a ganhar força porque no próximo dia 1.º haverá eleições no Congresso. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), deve ser reconduzido ao comando da Casa, com apoio do Palácio do Planalto. No Senado, o favorito é o atual presidente, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), que tem como desafiante Rogério Marinho (PL-RN). Pacheco é avalizado pelo PT e Marinho, por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Uma das principais reclamações de integrantes do Centrão ao Planalto diz respeito ao Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional, que ficou com o ex-governador do Amapá Waldez Góes, por indicação do senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Embora tenha entrado na cota do União Brasil, Góes é filiado ao PDT e disse que vai se afastar do partido que integra desde 1989.
O líder do União Brasil na Câmara, Elmar Nascimento (BA), quer manter o controle sobre a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), empresa subordinada ao Ministério dirigido por Góes. Há uma disputa por cadeiras na Codevasf, que já foi considerada como "estatal do Centrão" por receber gorda fatia de recursos do orçamento secreto, como mostrou o Estadão. Nos últimos tempos, a Codevasf foi alvo de várias denúncias de superfaturamento de obras e fraude em licitações para pavimentação de ruas.