Prefeitura de Goiânia quer tirar catadores de lixo das ruas
- Márcio Leijoto
- Direto de Goiânia
A menos de um mês para as festas de fim de ano, a prefeitura de Goiânia (GO) iniciou um processo de retirada dos catadores de papéis e lixo reciclável das ruas da capital. O presidente da Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg), Wagner Siqueira, disse que iniciativa visa a inclusão social dos cerca de 2,5 mil catadores existentes na cidade. A medida, entretanto, pegou de surpresa o Fórum de Coleta Seletiva de Material Reciclável e Inclusão Social, coordenado pela Delegacia Regional do Trabalho em Goiás (DRT-GO).
A retirada dos catadores das ruas começou nas vias mais movimentadas, como as avenidas Anhanguera, Araguaia e 85, no Centro, e a T-63, no Setor Bela Vista, todas em áreas onde o comércio é forte. Eles são abordados por funcionários da Agência Municipal de Trânsito (AMT), que informam sobre a falta de licenciamento para andar com o carrinho pelas ruas e recolhem o veículo. A longo prazo, a prefeitura pretende acabar com a atividade informal.
Foi o que aconteceu com o catador de papel Antônio Francisco da Silva, 29 anos, na terça-feira da semana passada. Agentes da AMT se aproximaram dele quando trafegava pelo Setor Vila Nova, às 9h. "Pegaram meu carrinho, disseram que eu não podia andar com ele mais e falaram que, se eu quisesse continuar com isso, era para ir em Campinas (Setor Campinas, onde seria feita a inscrição de catadores em cooperativas). Mas eu não quis, é ruim, ganha menos", disse Silva, que na sexta-feira já estava com outro carrinho andando pelas mesmas ruas.
Morando com uma mulher que tem três filhos, ele diz que usa o dinheiro que consegue arrecadar por mês - em torno de R$ 500 - para ajudar nas despesas domésticas. "Dá para não passar fome pelo menos."
Já o catador Antônio dos Santos, 59 anos, que veio de Belém (PA) há sete anos e desde então trabalha pegando material reciclável dos lixos deixados nas ruas goianienses, diz que "ouviu falar" de outros colegas sobre a ação da prefeitura e espera sua vez de ser abordado. "Se a proposta for melhor, eu saio disso. Eu ganho o dinheiro que dá para comer, mas é muito complicado. Não consigo nada melhor, moro na rua, estou chegando nos 60 anos e não tenho pra onde ir. Mas se for tirar meu carrinho e só, aí eu volto no dia seguinte para rua com outro", disse.
A auditora fiscal do DRT-GO, Katleem Maria de Lima, fala em "retirada brusca" dos catadores e diz que a ação da prefeitura pegou de surpresa todas as entidades do Fórum de Coleta Seletiva. "Nós encaminhamos um ofício em julho para a prefeitura pedindo uma audiência com propostas para o melhor encaminhamento dos catadores, mas não obtivemos nenhum retorno. Fazemos reuniões frequentemente e nunca a prefeitura nos comunicou que pretendia fazer isso."
Para Katleem, a ação pode ser ineficaz já que, ao que indica, não há uma capacitação dos catadores antes de retirá-los das ruas. "Além disso, não é assim de um dia para o outro que se faz uma cooperativa. Onde vão colocar todos os catadores? É uma situação muito complexa, não é só tirar da rua e colocar num lugar."
Cooperativas
Goiânia tem seis cooperativas de reciclagem com capacidade para 20 a 50 catadores. O presidente da Comurg diz que há nelas 15 vagas atualmente. "Estamos concluindo uma sétima cooperativa. E conforme forem surgindo novos catadores, vamos criando cooperativas. O que não podemos é deixar estas pessoas na situação perigosa e humilhante em que se encontram, pedindo esmolas, vivendo nas ruas. É um trabalho de inclusão social", afirmou.
O coordenador da Coleta Seletiva da Comurg, Jorge Moreira da Silva, diz que o objetivo da ação é dar mais qualidade de vida aos catadores. Com o início da coleta de lixo reciclável feita pela própria orefeitura, Silva diz que os catadores podem ficar nas cooperativas trabalhando. "E não é só encaminhar para as cooperativas. Estas pessoas vão receber atendimento profissional, serão encaminhadas para abrigos caso morem nas ruas, será dada toda a assistência."
O presidente da Comurg diz que existe uma necessidade urgente para dar condições de vida para os catadores e que "ninguém fez nada até agora". "A prefeitura não pode deixar isso acontecendo. De imediato, estamos dando para cada catador abordado, um abrigo e alimentação. Se não tiver família, uma vaga em uma cooperativa mais próxima a sua casa. Eles vão trabalhar em galpões e não mais nas ruas, em condições desumanas."
"Trabalho sujo"
Na AMT, a informação que se tem é que o órgão ficou com o "trabalho sujo". Ou seja, confiscar os carrinhos e impedir que os catadores continuem nas ruas. Eles apenas indicam onde as pessoas abordadas devem ir, mas não fazem nenhum acompanhamento. Na Comurg, a versão é que a AMT também participa da operação porque os catadores atrapalham o trânsito com seus carrinhos, ocasionando acidentes.
Há duas semanas, a Secretaria Municipal de Ação Social (Semas) iniciou um projeto para a retirada de pedintes da rua, principalmente os que costumam chegar nesta época do ano de outras cidades. A intenção é evitar que aconteça o mesmo que em 2008, quando pessoas carentes foram flagradas se dirigindo de Uberlândia (MG) à rodoviária de Goiânia com ajuda da prefeitura da cidade mineira.