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Por que o PT vai ficar com Lula

Sigla deverá mobilizar todas as suas (cada vez mais débeis) forças para salvar o ex-presidente, deixando que Dilma se vire por conta própria

6 mar 2016
12h25
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Cada um por si: em último caso, Dilma e Lula tentarão a sorte sozinhos
Cada um por si: em último caso, Dilma e Lula tentarão a sorte sozinhos
Foto: Divulgação/Roberto Stuckert Filho / O Financista

Não é segredo para ninguém que a presidente Dilma Rousseff e o PT não morrem de amores um pelo outro. Mas, agora, com o agravamento da crise política, por causa da delação do senador Delcídio do Amaral (PT-MS), o partido deve escancarar o que já se sabe: entre o ex-presidente e líder, Luiz Inácio Lula da Silva, e Dilma, considerada uma neopetista, a legenda deverá mobilizar todas as suas (cada vez mais débeis) forças para salvar Lula. Oficialmente, o partido não romperá com a ocupante do Palácio do Planalto, mas, na prática, deixará que ela se vire por conta própria.

A decisão não será nenhum drama para os caciques petistas. Primeiro, porque o governo e o PT são instituições distintas. Por mais força que um partido tenha em uma administração, precisa repartir o poder com outras legendas. Isso, por si só, afasta presidentes dos partidos aos quais são filiados. Quando se trata de alguém que não tem nenhuma habilidade para negociar, isso é ainda mais verdadeiro. Este é o caso de Dilma, que, nos cinco anos em que está no poder, conseguiu desagradar praticamente todo mundo.

Em segundo lugar, o PT vive uma profunda crise de identidade. Após 36 anos da fundação e 13 anos no Palácio do Planalto, a agremiação enfrenta todos os desgastes possíveis: não pode, mais, criticar políticas econômicas ortodoxas, porque as adotou durante os anos Lula; também não consegue se apresentar como o único partido ético do país, após o mensalão e a Lava Jato. Cada vez mais emparedado pela erosão de todos esses anos, a legenda busca sobreviver.

Para isso, precisa mostrar que ainda é relevante para alguém. A saída, cada vez mais pregada pelas suas lideranças, é voltar às origens, se reaproximando dos movimentos sindicais e sociais que participaram de sua fundação. E quem mais representativo de sua origem, que Lula – o metalúrgico que viveu uma infância de pobreza, liderou greves no ABC, durante a ditadura, e alcançou a presidência, promovendo a inclusão de milhões de pessoas no mercado de consumo?

Sem escolha de Sofia

“Se precisar se salvar, vai prevalecer o instinto de sobrevivência e o PT ficará com Lula”, diz o cientista político Lucas de Aragão, sócio da Arko Advice. Pode-se argumentar que a insistência do discurso do “nós contra eles”, que atingiu seu ápice na campanha de reeleição de Dilma, só convence os militantes mais aguerridos, os famosos convertidos. Mas, para Aragão, será o suficiente para garantir um mínimo de mobilização, capaz de servir de anteparo para Lula e sua cúpula. “O partido não busca mais protagonismo; quer apenas sobreviver”, resume.

Se ficar entregue à própria sorte, Dilma ainda tem uma última carta na manga: ela ainda é presidente e ainda tem alguma tinta na caneta. “Ela vai usar a máquina pública como moeda de negociação”, diz o cientista político. Em bom português: vai negociar ministérios, cargos, verbas, emendas.. o que puder para atrair um mínimo de apoio político.

Sim, é aí que complica tudo para a presidente: negociar não é o verbo que ela conjuga com mais fluência. De qualquer modo, Aragão observa que “sempre haverá alguém querendo negociar apoio”, por puro cálculo político: por mais difícil que seja a situação de Dilma, o jogo ainda não acabou. “Não está claro quem vai ganhar essa disputa”, diz. A única coisa clara é que, se o jogo se transformar em um mata-mata, Dilma, Lula e o PT são capazes de jogar em times diferentes.

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