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Política

Incertezas em torno de Bolsonaro travam projeções a um ano das eleições de 2026

Inelegível e condenado por tentativa de golpe, ex-presidente ainda não definiu um sucessor para a disputa, que acontece daqui a um ano

4 out 2025 - 04h59
(atualizado às 08h28)
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Resumo
A incerteza sobre o sucessor de Bolsonaro, inelegível e condenado, trava articulações da direita para 2026, enquanto Lula emerge como favorito em um cenário fragmentado.
O ex-presidente Jair Bolsonaro precisou de atendimento médico
O ex-presidente Jair Bolsonaro precisou de atendimento médico
Foto: Wilton Junior / Estadão / Estadão

Faltando exatamente um ano para as próximas eleições, a hesitação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em definir um sucessor para 2026 trava as articulações da direita em todo o País. Embora a corrida presidencial seja o grande foco, a incerteza em torno do ex-presidente — que está inelegível e foi condenado por tentativa de golpe de Estado — impede que os partidos avancem na formação de chapas para governos estaduais e para o Congresso Nacional. O primeiro turno acontece em 4 de outubro de 2026 e os partidos terão até 15 de agosto do ano que vem para registrar suas candidaturas.

Dois fatores explicam o caráter estratégico dessas campanhas: a correlação entre o desempenho nas urnas e a distribuição de mais de R$ 6 bilhões em verbas públicas entre as siglas, e a disputa por 54 das 81 vagas do Senado, que coloca o controle da Casa no centro dos debates em meio à crescente polarização.

O cenário estadual também promete mudanças, já que vários governadores não poderão concorrer à reeleição, abrindo um vácuo de poder que exige uma construção de alianças. No entanto, a menos de um ano do pleito, o que predomina é a incerteza na maior parte do País.

O principal exemplo dessa indefinição está no maior colégio eleitoral: São Paulo. A possibilidade de o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) não disputar a reeleição para se lançar como herdeiro político de Bolsonaro no Planalto já desencadeou uma movimentação nos bastidores. Nomes como o do prefeito Ricardo Nunes (MDB) estão sendo cotados, mas a falta de um aval definitivo paralisa as peças do xadrez no Palácio dos Bandeirantes.

Tarcísio de Freitas diz que é ‘fundamental’ ter Bolsonaro na eleição de 2026 em ato na Paulista:

PL ainda quer Bolsonaro

O ex-presidente Jair Bolsonaro permanece inelegível até 2030 em virtude de condenação pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação durante as eleições de 2022. Além disso, a recente condenação pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) no caso da Trama Golpista pode mantê-lo fora das disputas eleitorais por mais de três décadas. Na decisão, Bolsonaro foi sentenciado a 27 anos e três meses de prisão em regime fechado.

Pela Lei da Ficha Limpa, condenações por órgão colegiado, como o STF, tornam o réu inelegível por oito anos após o cumprimento da pena. Considerando a sentença recebida, isso pode estender sua inelegibilidade até cerca de 2060, caso cumpra a pena integralmente e não ocorram mudanças na legislação.

Bolsonaro é condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado:

Apesar do cenário jurídico, fontes do PL afirmaram ao Terra que o partido mantém a aposta na candidatura de Bolsonaro em 2026, descartando outros nomes. Segundo as mesmas fontes, caso o ex-presidente não possa concorrer, será ele quem indicará o substituto.

Especialistas veem possibilidade como "nula"

Especialistas em Direito ouvidos pelo Terra, no entanto, avaliam como praticamente nula a possibilidade de Bolsonaro reverter sua situação e concorrer em 2026.

"Do ponto de vista jurídico, posso afirmar que se trata, primeiramente, de algo mais político que jurídico. É preciso ter base e apoio forte para aprovar um projeto nesse sentido, e aparentemente isso ainda não existe no momento atual", afirmou Marcelo Crespo, coordenador do curso de Direito da ESPM.

Segundo ele, insistir na tese da elegibilidade funciona mais como discurso político para manter a base de apoiadores mobilizada do que como uma possibilidade concreta. "Porque, no final do dia, qualquer projeto aprovado tenderá a ser avaliado também pelo STF", completou.

A professora de Direito do Mackenzie Alphaville Telma Rocha Lisowski também considera "não realista" a expectativa de reversão da inelegibilidade. "Ele está inelegível por decisão da Justiça Eleitoral, em ação julgada pelo TSE, e também está prestes a acumular uma segunda inelegibilidade devido à condenação criminal", explicou.

Recursos pendentes têm baixíssimo potencial de reversão

Telma explica que, no caso eleitoral, ainda há um Recurso Extraordinário pendente de julgamento no STF, mas com chances muito baixas de sucesso. "O Recurso Extraordinário é um instrumento de escopo muito reduzido, que só tem cabimento em hipóteses excepcionais, quando há ofensa direta à Constituição — o que não parece ser o caso da decisão do TSE", detalhou.

Bolsonaro e seus advogados durante o interrogatório na ação penal que resultou em sua condenação pelo STF
Bolsonaro e seus advogados durante o interrogatório na ação penal que resultou em sua condenação pelo STF
Foto: Ton Molina/STF

Em relação à condenação criminal, a defesa ainda poderá apresentar embargos de declaração após a publicação do acórdão. No entanto, esse recurso tem finalidade limitada: serve para corrigir omissões, contradições ou erros materiais, não para reverter o mérito da condenação.

"Considero que a tese de que a inelegibilidade pode ser revertida por meios processuais tem baixíssima probabilidade de êxito. Ao que tudo indica, trata-se mais de uma estratégia política para manter influência e postergar a escolha de um sucessor do que de uma expectativa jurídica concreta", destacou Telma, reforçando a avaliação de Marcelo Crespo.

O futuro do bolsonarismo e a disputa pela direita: um quebra-cabeças com várias peças

De acordo com o cientista político Rodrigo Prando, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o movimento bolsonarista se tornou maior que seu próprio líder, abrindo espaço para uma disputa interna por sua herança política.

Prando explica que o eleitorado mais fiel e radicalizado tem suas figuras de devoção bem definidas. Para esse grupo, a referência máxima continua sendo o próprio Bolsonaro, seguido por seu filho, Eduardo Bolsonaro, por representar características semelhantes de enfrentamento ao STF e às instituições.

“O Bolsonaro é um líder carismático e populista e, de certa maneira, o filho dele, que nos Estados Unidos tem atuado contra o Brasil, aos olhos do bolsonarista é uma tentativa de quebrar o sistema, de atacar o que eles consideram os inimigos do projeto político deles”, diz Prando.

SAO PAULO NACIONAL 01-09-2022 BOLSONARO FILHOS O presidente Jair Bolsonaro com os filhos, Flavio, Carlos, Eduardo e Renan FOTO BOLSONARO SP-TWITTER
SAO PAULO NACIONAL 01-09-2022 BOLSONARO FILHOS O presidente Jair Bolsonaro com os filhos, Flavio, Carlos, Eduardo e Renan FOTO BOLSONARO SP-TWITTER
Foto: Reprodução/Twitter Jair Bolsonaro / Estadão

A análise do especialista vai além da família Bolsonaro. Ele destaca que, quando se amplia o espectro para uma direita menos radical, o governador Tarcísio de Freitas emerge como figura central. O governador paulista manteria uma estratégia ambígua: com um pé no bolsonarismo para capturar votos da base fiel, e outro na moderação institucional.

Segundo Prando, essa dupla face se manifesta em momentos como o 7 de setembro, por exemplo, quando Tarcísio chamou o ministro Alexandre de Moraes de "tirano". "Ele fez um claro aceno a a este eleitor fiel do Bolsonaro, a esta base bolsonarista. Além de tudo, o empenho dele na busca pela anistia também é um indicativo de que ele precisa manter-se conectado a esse eleitor".

No entanto, essa estratégia encontra resistência no núcleo familiar bolsonarista. Prando observa que "no fundo, a família Bolsonaro não quer nunca repartir o poder", reflexo de um projeto de reeleição derrotado em 2022 que não se transformou em disposição para compartilhar a liderança.

Michelle Bolsonaro afirma querer ser primeira-dama novamente; Jair está inelegível no momento
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Foto: Daniel Teixeira/Estadao / Estadão

"Bolsonaro não tem monopólio dos votos bolsonaristas”

A condenação e a inelegibilidade do ex-presidente, segundo Prando, enfraquecem seu capital político, mas não o anulam. No entanto, uma série de reveses contribuíram para esse enfraquecimento.

“Bolsonaro é o primeiro presidente desde o estabelecimento da reeleição que não é reeleito. Logo depois vem a inelegibilidade e depois o julgamento da trama golpista e a condenação. Ele não saiu como mártir. Perceba que depois da condenação não houve manifestações massivas. De uma maneira muito clara, o bolsonarismo tornou-se maior que o Bolsonaro”, observa o especialista.

O professor também contesta a ideia de um eleitorado bolsonarista coeso. “Não acredito que o eleitor do Bolsonaro seja um bloco monolítico. Quem mexeu com o coração do bolsonarista de São Paulo foi o Pablo Marçal. Ele mostrou de uma maneira muito clara que o Bolsonaro não tem o monopólio dos votos bolsonaristas”.

Bolsonaro entrega medalha de "imbrochável" a Marçal após reunião em junho; ex-presidente mudou a postura e passou a atacar o ex-coach
Bolsonaro entrega medalha de "imbrochável" a Marçal após reunião em junho; ex-presidente mudou a postura e passou a atacar o ex-coach
Foto: @pablomarcal1 via Instagram / Estadão

Fragmentação e cenário eleitoral

A abundância de potenciais candidatos — como os governadores Ratinho Jr. (PR), Ronaldo Caiado (GO), Romeu Zema (MG) e Eduardo Leite (RS) — pode ser também um fator negativo para a direita, segundo os especialistas. Prando pondera que todos esses nomes teriam que fazer um esforço maior que Tarcísio para se nacionalizar, e essa oferta excessiva pode fragmentar o campo da direita, beneficiando indiretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A ausência de Bolsonaro da disputa eleitoral, na avaliação do professor, "atrapalha demais a construção de uma frente ampla de direita". O Centrão, sempre pragmático, já começou a se afastar do ex-presidente por ele não representar mais um nome viável para 2026.

Romeu Zema, Ratinho Júnior, Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado em evento na Paulista
Romeu Zema, Ratinho Júnior, Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado em evento na Paulista
Foto: Reprodução/X via @RomeuZema

Rotas para Tarcísio

Sobre as chances do governador de São Paulo em uma eventual disputa presidencial, Prando enxerga duas frentes para Tarcísio. De um lado, a "paciência histórica" — concorrer à reeleição em São Paulo, um caminho mais seguro. De outro, a "ousadia" de enfrentar Lula, "o político cuja marca é a mais conhecida e consolidada na história da Nova República".

 "O Tarcísio ponderou tudo isso e, até o momento, o caminho dele será, segundo ele, a reeleição. Isso pode mudar, mas nesse momento eu não vejo essa disposição de disputar com Lula".

O cientista político Paulo Ramirez, da ESPM, também avaliou que a falta de um nome forte e unificador no campo da direita, somada às contradições estratégicas de Tarcísio, coloca Lula na posição de "franco favorito" para a eleição de 2026, ainda que uma vitória no primeiro turno seja considerada improvável.

Tarcísio diz que ‘anistia e perdão são os melhores remédios para pacificar’ o Brasil:

Ramirez vê um problema central na projeção nacional de Tarcísio: a falta de uma mensagem política clara. Ele argumenta que o governador paulista oscila entre dois polos, o que acaba por desagradar a ambos.

"Há muitas falas dele se aproximando de Bolsonaro e de uma visão anti-sistema, contrariando as decisões do STF, e então esse é um ponto que, claro, agrada os bolsonaristas. Mas também nessa estratégia há sucessivos recursos em que ele parte por uma visão mais institucionalista, isso desagrada alas bolsonaristas também", explica o acadêmico.

Segundo Ramirez, essa dubiedade impede que Tarcísio consolide uma base sólida. "Nessas idas e vindas, ele acaba não adquirindo nem a confiança dos moderados, nem a confiança dos bolsonaristas, o que tende a prejudicá-lo". Essa falta de coerência, para o especialista, "frequentemente favorece o presidente Lula, que tem mantido um comportamento mais incisivo".

Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo, visitou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre prisão domiciliar em Brasília (DF)
Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo, visitou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre prisão domiciliar em Brasília (DF)
Foto: WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO

Apesar de considerar Tarcísio o nome "mais competitivo da direita", Ramirez ressalta um obstáculo: a desconfiança do núcleo familiar bolsonarista. "Ele não vê um comprometimento total irrestrito dos bolsonaristas em relação à sua imagem, principalmente o núcleo familiar".

A percepção de que Bolsonaro estaria sendo "usado" em uma negociação por anistia política, com a contrapartida de sua não participação eleitoral, gera um sentimento de traição entre seus seguidores mais fiéis. "Muitos bolsonaristas e a própria família Bolsonaro, principalmente os filhos, têm se sentido traídos", afirma Ramirez.

"Por isso que o Tarcísio se aproximou de Bolsonaro com a intenção de ser o salvador do bolsonarismo, mas o que não significa ter Bolsonaro como candidato. O resultado é que a maioria do eleitorado bolsonarista se sente traída, já que é um apoio limitado, que não significaria uma candidatura de Bolsonaro, apenas o seu aniquilamento".

Processo que pode levar à cassação de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) tramita na Câmara dos Deputados
Processo que pode levar à cassação de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) tramita na Câmara dos Deputados
Foto: Wilton Junior/Estadão / Estadão

Frente ampla na direita é inviável no primeiro turno, analisa professor

A formação de uma ampla coalizão de direita antes do primeiro turno é vista como uma tarefa difícil por Ramirez. "Eu diria que é difícil essa formação de uma frente ampla, diante do fato de que não há um nome favorito. Isso acaba indicando que deveremos ter várias candidaturas de direita, o que também auxilia a candidatura do Lula".

A consequência prática dessa fragmentação, na visão do cientista político, é um redirecionamento de foco. "O que deve fazer com que a direita brasileira muito mais se mova na tentativa de aumentar a quantidade de congressistas, mais do que eleger um presidente, a fim de fazer uma afronta à governabilidade de uma eventual vitória de Lula".

Eleitorado bolsonarista é desafio para qualquer sucessor

Ramirez destaca que o eleitorado mais fiel a Bolsonaro, é marcado por uma "visão anti-sistema". O problema para qualquer pretenso sucessor, como Tarcísio, Zema, ou Ratinho Júnior, é que "nenhum deles tem esse perfil".

"Isso deve mostrar uma forte oscilação", prevê o professor. "Muitos talvez se sintam decepcionados ou não vejam compatibilidade do perfil do Bolsonaro com um substituto. Existe uma dificuldade muito grande dentro do público bolsonarista em conseguir adesão fiel e cega a um nome indicado por Bolsonaro".

A análise de Paulo Ramirez pinta um cenário complexo para a direita. A indecisão de Tarcísio, que sinaliza preferir a reeleição em São Paulo, a fragmentação de candidaturas e a dificuldade em herdar o capital político de 59 milhões de votos de Bolsonaro criam, na visão do especialista, "um vácuo tremendo, que facilita a vida do Lula para a eleição do próximo ano".

"Não que ele [Lula] chegue a vencer no primeiro turno, mas é o franco favorito diante dessa escassez de concorrentes", finaliza.

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Fonte: Portal Terra
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