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PIB cai 0,6%: por que o Brasil pode ser o 'doente' em recuperação do G20

31 ago 2016
10h46
atualizado às 11h23
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O Brasil continua em recessão, mas isso não significa que esteja esquecido no cenário internacional. Para analistas, mesmo com a crise, o país é visto como um "doente em recuperação" pelos membros do G20 (grupo das 20 maiores economias do mundo), que vai se reunir na China na semana que vem.

Queda da produção agrícola, de 2% no segundo tri, colaborou para retração de 0,6% do PIB
Queda da produção agrícola, de 2% no segundo tri, colaborou para retração de 0,6% do PIB
Foto: Getty Images

O encontro de líderes é considerado um teste de fogo para o presidente interino Michel Temer, caso seja confirmado no cargo após a votação do Senado.

Segundo economistas, a queda de 0,6% no PIB (Produto Interno Bruto) do segundo trimestre na comparação com os três primeiro meses do ano, divulgada nesta quarta pelo IBGE, não deve afetar o otimismo com que os mercados estrangeiros veem o país. O índice também teve retração de 3,8% ante o mesmo período de 2015.

A visão mais positiva sobre a economia brasileira, dizem os entrevistados, seria consequência do fim do processo de impeachment e das medidas anunciadas pelo governo para arrumar as contas públicas. A projeção de melhora da inflação também entraria nessa conta.

"Investidores e agentes econômicos veem as luzes no fim do túnel da crise política. Também em termos da crise econômica vemos o começo de sinais positivos na economia. Estamos prevendo que a crise vai arrefecer no fim deste ano", diz Beñat Bilbao-Osorio, diretor-regional de América Latina e Caribe do The Economist Intelligence, centro de pesquisa da publicação inglesa.

O cenário internacional, com incertezas políticas na Europa e nos Estados Unidos, também pode destacar o Brasil, caso a promessa de estabilidade seja cumprida, afirma Christopher Garman, chefe de análses para o Brasil da consultoria Eurasia Group.

"Os problemas políticos estão escalando por todos os lados, com partidos conservadores na Europa e o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia), como sinal disso, além do Trump nos Estados Unidos. Se de fato essa agenda de reformas for encaminhada, o país fica numa posição muito interessante."

Para o professor Antonio Carlos Alves do Santos, da PUC-SP, mesmo ruim, o resultado do PIB pode ser usado por Temer no encontro para reforçar esse otimismo. No primeiro trimestre do ano, o indicador foi pior: caiu 5,4% na comparação com o mesmo período de 2015.

Encontro na China é visto como primeiro teste internacional de Temer
Encontro na China é visto como primeiro teste internacional de Temer
Foto: Beto Barata/PR

"A economia brasileira está se recuperando, mas aquém do que esperávamos. Ele pode chegar dizendo que as dificuldades estão sendo superadas, que estamos reagindo. O fato de a equipe econômica ter estudado nas melhoras instituições americanas ajuda (lá fora)."

Estrela do G20

Nem sempre o Brasil precisou convencer os outros países de que era bom para fazer negócios - esse é o principal objetivo do grupo: trabalhar para a cooperação econômica entre os países.

Se no ano passado, a economia brasileira foi a que menos cresceu entre os membros do G20 (com queda de 3,8%), em 2011 ficou à frente de Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha. Naquele ano, o PIB cresceu 3,9%.

Nos anos Lula, o Brasil foi uma das estrelas do grupo. Mais do que o desempenho econômico, parte do sucesso veio da figura do ex-presidente, diz o professor da PUC-SP.

Lula, explica Santos, era capaz de transitar entre líderes de variados espectros políticos, do conservadorismo à esquerda. Ele teria conseguido se aproximar de grandes potências como os Estados Unidos (foi chamado de "o cara" por Obama) e também de emergentes, a exemplo da África.

"No caso do Lula, é importante pensar na política americana, que teve presidentes vindos de famílias mais pobres, como Clinton e Obama. Esse histórico acabou sendo um referencial sobre o petista."

No entanto, com a chegada de Dilma, que tem um perfil mais técnico, e os sucessivos resultados ruins da economia, o Brasil foi perdendo brilhantismo e lugar no G20.

"Nos últimos dois anos, ele se tornou como a economia 'doente' dos mercados emergentes, por causa da crise econômica e política. Mas não é justo dizer que seu papel tenha sido tomado. O Brasil ainda é um importante jogador no comércio mundial e especialmente para a América Latina", afirma Bilbao-Osorio, da The Economist Inteligence Unit.

"É uma das economias globais que faz o mercado funcionar. Não acho que vá ser substituído pela África do Sul, que também tem problemas econômicos e políticos, ou a vizinha Argentina, que não tem o tamanho nem a importância do Brasil."

Recepção a Temer

Mas se a recuperação gradual da economia é quase um consenso, a atuação de Temer no encontro é uma incógnita. A dúvida dos analistas está na forma como o peemedebista, se confirmado no cargo após o processo de impeachment, será tratado pelos outros líderes.

A reunião das 20 maiores economias é considerada um teste do ponto de vista econômico e político. O interino precisa passar o recado da recuperação do Brasil e também a de que seu governo, mesmo considerado ilegítimo pelos críticos, trará estabilidade. Essas mensagens são cruciais para que os outros países queiram firmar acordos com o Brasil no futuro.

"Temer procura legitimidade num governo que não saiu das urnas. Mas existem muitas questões no impedimento e a dúvida que fica (para os membros) é: o Brasil é de fato uma democracia consolidada? Essa resposta vai aparecer em pequenos detalhes, como a posição que ele vai ter na fotografia oficial", afirma Silva, da PUC-SP.

O professor acrescenta que Temer não é um grande líder político como Fernando Henrique Cardoso e Lula, mas uma figura de bastidores. Isso poderia prejudicar o protagonismo do Brasil nas negociações.

A história do impeachment pode até prejudicar a abordagem mais simpática ao mercado que o governo Temer começa a encabeçar, diz Fernando Sarti, professor do Instituto de Economia da Unicamp. Mesmo que a seja mais atrativa para os investidores, pondera Sarti, fica a pergunta: num cenário conturbado, ele terá capacidade ou legitimidade para colocar as medidas em prática?

"Os países podem dizer 'gostei, mas acho que esse cara não vai entregar o produto'."

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