Financial Times diz que Bolsonaros estavam 'politicamente acabados' mas retornaram fortes com Flávio
Reportagem sobre a pré-candidatura de Flávio destaca os desafios do filho de Bolsonaro e relembra seu envolvimento no caso das 'rachadinhas', revelado pelo Estadão
O jornal britânico Financial Times descreveu a família Bolsonaro como "politicamente acabada", mas que está de volta impulsionado pela pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência.
Em reportagem publicada nesta terça-feira,7, o veículo relembra que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) encerrou o último ano condenado a 27 anos por tentativa de golpe de Estado e perdeu benefício da prisão domiciliar após tentar romper a tornozeleira eletrônica. O texto também cita que seu filho Eduardo foi "expulso" do Congresso e vive nos em exílio autoimposto nos Estados Unidos.
"A seis meses das eleições presidenciais brasileiras, Flávio Bolsonaro, o filho mais velho, de temperamento mais ameno, emergiu como um candidato altamente competitivo", escreve a reportagem, destacando que, diferente de Jair Bolsonaro, o herdeiro está focando em uma aparência menos agressiva e confrontadora.
Segundo o Financial Times, "a plataforma é semelhante à de seu pai: uma mistura de posições de extrema-direita em questões sociais e de combate ao crime, com visões de centro-direita sobre a economia, além de uma crença fervorosa de que Bolsonaro pai foi condenado injustamente."
O jornal destacou que no campo da segurança pública, Flávio pretende implementar uma solução semelhante ao encarceramento em massa do presidente Nayib Bukele, de El Salvador. No Brasil, ele pretende enfrentar o crime "com jovens de 16 anos sendo julgados como adultos e a idade mínima para crimes como homicídio e estupro reduzida para 14 anos", diz o texto.
Em entrevista ao jornal britânico, Flávio afirmou que o Brasil "precisa urgentemente de mudanças, de um governo mais jovem, moderno e com mais energia", em uma crítica a idade avançada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), atualmente com 80 anos. "O problema não é a idade de Lula, mas sim o fato de suas ideias estarem ultrapassadas", disse ao Financial Times.
Para o jornal, o plano econômico de Flávio "tem poucos detalhes". A reportagem destaca que ele defende a redução de impostos e a implementação de privatizações, inclusive dos Correios. Na avaliação do pré-candidato, cortes de gastos ajudariam a reduzir as taxas de juros, "embora muitos no meio empresarial não estejam convencidos de sua disposição para tomar decisões orçamentárias difíceis", afirma o Financial Times.
Rachadinhas e histórico familiar
O jornal britânico relembrou o envolvimento de Flávio no caso das rachadinhas, revelado pelo Estadão em 2018. De acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), o esquema consistia na apropriação de parte dos salários dos funcionários do gabinete de Flávio quando ele era deputado estadual. O filho mais velho de Bolsonaro sempre negou as acusações e o caso foi arquivado pela Justiça.
De acordo com o jornal, a expectativa é que a equipe de Lula use os escândalos de corrupção de Flávio e o histórico familiar para desgastar a sua candidatura. "Os apoiadores de Lula dizem que Bolsonaro não representa uma forma moderada de bolsonarismo, mas sim um membro de um movimento de extrema direita que era a favor de um golpe de Estado", diz a reportagem.
O texto também levanta questionamentos se Flávio Bolsonaro aguentaria uma campanha presidencial, ao relembrar a sua disputa para prefeito no Rio de Janeiro, em 2016. "Foi um desastre: em um debate, ele quase desmaiou e teve que desistir. Acabou ficando em quarto lugar", escreve o jornal.
O Financial Times avalia ainda que Flávio terá de lidar com a influência política do pai. Segundo o jornal, embora o pré-candidato busque preservar a base eleitoral do ex-presidente Jair Bolsonaro, parte do eleitorado pode exigir demonstrações de independência.
A reportagem observa ainda que, em Brasília, ele recebe aliados no mesmo escritório usado pelo pai, mas evita sentar na cadeira principal. "Eu nunca chegarei perto dele", diz Flávio. "Seria como comparar o filho de Pelé com o próprio Pelé."