Emenda atribuída a Valdemar custeou show de dupla sertaneja em cidade do interior de SP, diz jornal
Polícia Federal investiga a atuação de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, na indicação de recursos do Orçamento
Os R$ 280 mil de uma emenda parlamentar atribuída pela Polícia Federal (PF) ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, custearam exclusivamente um show de 90 minutos da dupla sertaneja Thaeme & Thiago em Guaimbê, município de 5,5 mil habitantes no interior de São Paulo. O dinheiro, repassado à cidade por meio de um convênio com o Ministério do Turismo, foi usado para pagar a apresentação que ocorreu na 21ª edição da Festa do Peão de Boiadeiro. As informações são do jornal O Globo.
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Embora não exerça mandato parlamentar, Valdemar é investigado pela PF por sua suposta atuação na indicação de recursos do Orçamento da União. Oficialmente, a emenda de comissão está registrada em nome do líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ). Conforme a apuração, no entanto, deputados da legenda eram utilizados para oficializar indicações previamente definidas pelo presidente do partido. O ministro Flávio Dino, inclusive, na semana passada, determinou o bloqueio de R$ 119,2 milhões em bens de Valdemar e suspendeu a execução das despesas relacionadas às emendas investigadas.
Em entrevista ao jornal, a prefeita de Guaimbê, Márcia Helena Pereira Cabral Achilles, afirmou que o município, com cerca de 5 mil habitantes, depende de repasses federais para viabilizar atividades culturais. A prefeita também disse ter sido surpreendida ao descobrir que o dinheiro tinha origem em uma emenda parlamentar atribuída a Valdemar, pois acreditava que os recursos faziam parte de um programa regular do Ministério do Turismo.
"Me espantei quando saiu que era dinheiro de emenda do Valdemar. Achava que era um programa do Ministério, até por que eu não sou do PL. Acredito que isso aí, do presidente do partido incluir alguns municípios, foi algo feito não só por ele, mas por outros. É uma prerrogativa deles", disse ela.
Na avaliação da prefeita, o montante pago pelo show não pode ser considerado alto. "Teve o show, teve a festa. Para a contratação do show, o Ministério tem que aprovar. A prefeitura não contrata qualquer artista. Tem artistas por R$ 400 mil, R$ 500 mil, R$ 600 mil, mas não sou eu que vou mensurar o valor do trabalho deles", acrescentou.
Destino dos R$ 280 mil
Documentos obtidos pelo O Globo mostram que a empresa THM & THG Produções Artísticas recebeu R$ 280 mil pela apresentação da dupla Thaeme & Thiago durante a 21ª Festa do Peão de Boiadeiro de Guaimbê. A nota fiscal registra que o show ocorreu em 8 de novembro de 2025, teve duração de uma hora e meia e foi contratado por meio de inexigibilidade de licitação.
Além de detalhar o serviço prestado, o documento informa os dados bancários da empresa como agência, conta-corrente e chave PIX, utilizados pela Prefeitura de Guaimbê para efetuar o pagamento com recursos da emenda federal.
Os documentos analisados pelo jornal também permitem acompanhar o percurso do dinheiro. Inicialmente, o Ministério do Turismo transferiu R$ 280 mil ao município. Depois, a prefeitura contratou a dupla sertaneja por inexigibilidade de licitação. Com a realização do show, a empresa emitiu a nota fiscal, relacionando o pagamento ao convênio firmado com a pasta e indicando a conta para o recebimento dos recursos. Na prática, toda a quantia proveniente da emenda parlamentar foi destinada ao custeio da apresentação artística de 90 minutos.
O convênio entre o Ministério do Turismo e a Prefeitura de Guaimbê foi firmado em 30 de outubro de 2025 para financiar a 21ª Festa do Peão de Boiadeiro. Pelo acordo, a União repassaria R$ 280 mil, enquanto a administração municipal entraria com uma contrapartida de R$ 500. No plano de trabalho apresentado ao ministério, a prefeitura argumentou que o evento contribuiria para impulsionar o turismo, fortalecer o comércio local e preservar as tradições culturais da cidade. Os recursos foram liberados em parcela única, e a vigência do convênio seguiu até 8 de janeiro de 2026.
Apesar de a emenda de comissão constar oficialmente em nome do deputado Sóstenes, a investigação da Polícia Federal aponta que a indicação dos recursos foi feita por Valdemar Costa Neto, presidente nacional do partido, que não exerce mandato eletivo.
Emendas também bancaram apresentações em outras cidades
As apurações mostram que o uso de emendas para financiar shows não ocorreu apenas em Guaimbê. Um segundo repasse, de R$ 220 mil e também apontado pela Polícia Federal como ligado a Valdemar Costa Neto, foi destinado integralmente às atrações musicais das comemorações pelos 79 anos de Macedônia, no interior de São Paulo.
Do total, R$ 190 mil foram pagos pelo show de uma hora e meia da cantora Mariana Fagundes, enquanto outros R$ 30 mil custearam a apresentação, com a mesma duração, da dupla Neto & Jr. Assim como no caso de Guaimbê, o empenho do convênio faz referência a uma emenda da Comissão de Turismo da Câmara e registra o deputado Sóstenes Cavalcante como "apoiador/solicitante", formato que, segundo a investigação, era utilizado para formalizar indicações atribuídas ao presidente nacional do PL.
A reportagem do O Globo identificou ainda um terceiro convênio com características semelhantes. Em Cafelândia (PR), o Ministério do Turismo destinou R$ 290 mil para financiar shows em comemoração ao 43º aniversário do município. O empenho também está vinculado a uma emenda da Comissão de Turismo da Câmara e traz Sóstenes Cavalcante como "apoiador/solicitante", repetindo o modelo observado nos demais casos.
Dessa vez, a principal atração também foi a dupla Thaeme & Thiago, contratada por um cachê de R$ 291 mil -- valor superior ao pago pela apresentação em Guaimbê. A nota fiscal registra que o show foi realizado em 21 de novembro de 2025, com duração aproximada de uma hora e meia. O documento, porém, só foi emitido e atestado pela prefeitura em 26 de março de 2026, cerca de quatro meses após a apresentação.
Levantamento do jornal com base em contratos públicos mostra que os cachês da dupla Thaeme & Thiago aumentaram gradualmente nos últimos anos. Em 2019, a Prefeitura de Rio Bananal (ES) pagou R$ 116 mil por um show. Três anos depois, Parapuã (SP) desembolsou R$ 140 mil por uma apresentação de cerca de uma hora e meia. Em 2023, Araranguá (SC) contratou a dupla por R$ 130 mil para as comemorações dos 143 anos da cidade. Já em 2025, a Prefeitura de São Sebastião do Rio Verde (MG) firmou contrato de R$ 200 mil. Nos eventos custeados com recursos federais, os valores chegaram a R$ 280 mil em Guaimbê (SP) e R$ 291 mil em Cafelândia (PR), ambos para shows com aproximadamente 90 minutos de duração.
Sóstenes afirmou que, embora seu nome apareça como responsável pela destinação da emenda, a indicação ocorre de forma compartilhada, por se tratar de deliberação de uma comissão permanente da Câmara dos Deputados. "Todas as emendas em outros Estados fora do Rio de Janeiro, que são indicadas em meu nome, são emendas de comissão, que são indicados pela liderança ao presidente da comissão, que submete a voto dos membros da comissão para o devido pagamento, conforme manda a lei", disse ao jornal.
De acordo com o O Globo, a investigação da Polícia Federal sustenta que Valdemar utilizava parlamentares do PL para formalizar pedidos de recursos do Orçamento da União que, segundo a corporação, eram definidos por ele. Ao analisar o caso na semana passada, o ministro Flávio Dino considerou os indícios apresentados pela PF e determinou o bloqueio de R$ 119,2 milhões em bens do dirigente da legenda.
Integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), ouvidos reservadamente pelo jornal, demonstram preocupação com o que consideram um desvirtuamento do sistema de emendas parlamentares. Para esses ministros, pessoas sem mandato eletivo ou cargo público não podem exercer, na prática, o poder de decidir sobre a destinação de verbas do Orçamento. Eles também avaliam que a recorrência de indícios de irregularidades envolvendo emendas, mesmo após decisões da Corte e mudanças nas regras de transparência, evidencia a necessidade de ampliar os mecanismos de controle sobre a aplicação dos recursos públicos. Na visão desse grupo, casos como o de Guaimbê reforçam esse entendimento.
Valdemar Costa Neto e o Ministério do Turismo foram procurados pelo O Globo, mas não responderam aos questionamentos. A assessoria da dupla Thaeme & Thiago também não se manifestou. O Terra também tenta contato com os citados.
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