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'Depois da cadeia, Lula dificilmente voltará à política', diz vice da chapa do petista em 89 e 94

Aos 89 anos, ele revela mágoas por não ter composto nenhum dos governos do antigo aliado e questiona a justiça da prisão do ex-presidente.

10 abr 2018
16h30
atualizado às 16h47
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Aos 89 anos, José Paulo Bisol é o brasileiro vivo que mais dividiu palanques com Luiz Inácio Lula da Silva na condição de candidato a vice-presidente da República. Foram duas campanhas, em 1989 e em 1994. Nesta última, uma série de suspeitas de irregularidades, que ele enfatiza não terem sido provadas, provocou sua substituição na chapa pelo então deputado federal Aloizio Mercadante (PT).

Para Bisol, Lula foi 'único político na América Latina capaz de transformar uma simples operação de prisão num evento histórico'
Para Bisol, Lula foi 'único político na América Latina capaz de transformar uma simples operação de prisão num evento histórico'
Foto: Roberto Parizotti / BBC News Brasil

Quando a BBC Brasil encontrou Bisol na manhã de sábado, em sua casa no município de Osório, litoral norte do Rio Grande do Sul, o ex-senador assistia emocionado pela TV à missa em memória de Marisa Letícia, mulher de Lula, que morreu em fevereiro do ano passado.

Afastado da política, Bisol não esconde a mágoa por ter sido esquecido na composição dos governos do petista. Desembargador aposentado do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, mostra-se pessimista sobre as possibilidades de ressurreição política do ex-companheiro de chapa após a prisão.

A condenação de Lula, que lhe pareceu "forçada" - com a ressalva de que não conhece o processo -, deixou-o numa "tristeza muito profunda". Qualifica o ex-presidente, com quem se encontrou pela última vez há 16 anos, de "grande candidato à Presidência da República e único político na América Latina capaz de transformar uma simples operação de prisão num evento histórico". Ainda assim, é cético sobre o que restará do capital político do petista depois da prisão, especialmente se ela for longa.

Bisol era candidato a vice na eleição de 1989 na chapa de Lula
Bisol era candidato a vice na eleição de 1989 na chapa de Lula
Foto: Acervo CSBH/FPA / BBC News Brasil

"Depois de (Lula) ficar muitos anos na cadeia, vai ser difícil um retorno. E ainda há outros processos. Agora estão querendo fazer um do (presidente Michel) Temer, relacionado à moradia da filha. Dificilmente Lula resistirá no sentido de uma volta política", afirma.

Bisol sofre de insuficiência renal e tem de se submeter a sessões de hemodiálise três vezes por semana. Enxerga com dificuldade, caminha com auxílio de uma bengala e teve de instalar um elevador na casa ampla de dois andares, num condomínio distante cerca de 20 km da praia. O gestual largo, a dicção clara e o raciocínio ágil são, porém, os mesmos que o celebrizaram como magistrado, comentarista de TV, deputado estadual e senador. Aponta para a tela que mostra a multidão em São Bernardo e diz:

"Imagine um Temer tentando fazer essa coisa. Nenhum desses candidatinhos, dessas mediocridades que estão aí é capaz de transformar um simples fato em um evento."

Lembranças de 89

A voz vibra quando Bisol relembra a primeira campanha, em 1989. Na época, o ex-senador fora o único nome expressivo do PMDB gaúcho a migrar para o recém-fundado PSDB, comandado por Fernando Henrique Cardoso e Mário Covas. Indicado para a chapa de Lula, filiou-se ao PSB de Miguel Arraes, que fazia parte da Frente Brasil Popular com PT e PCdoB.

"Me orgulho muito de ter feito a campanha de 1989. Foi espetacular. Eu, que praticamente nunca tinha saído do Rio Grande do Sul, fui entrando Amazonas adentro. Pensava: 'O que vou fazer nesta cidadezinha? Quem é que vai me ouvir?'. E ia saindo bandeirinha do meio do mato. Meus comícios tinham sempre um bom público. A gente discursava, mas o povo cantava. Uma campanha política cantada é uma coisa monumental."

Em 2011, Bisol havia dito: "Lula é um neoliberal capitalista. Ele não tem nada de novo". A definição se mantém?

"O que eu quis dizer é que Lula é um sindicalista. O sindicato é uma instituição capitalista. É uma forma de luta estabelecida no capitalismo. Sindicalismo está do lado direito das coisas, do ponto de vista estrutural e político. As pessoas (nos sindicatos) podem ser de esquerda, como Lula é. Só que ele nunca chegou a condutas tipicamente socialistas. Acho que não estou agredindo nada, só tentando buscar uma verdade. Ele não é um socialista, ou, se é um socialista, não teve como sê-lo concretamente durante seus governos."

O ex-candidato a vice acredita, porém, que Lula não tinha alternativa:

"Nem poderia ser diferente. Foram governos capitalistas, dando ênfase ao lado esquerdo da sociedade, à redução da pobreza e à inclusão dos excluídos. Até os adversários se calam quando a gente diz isso, porque é uma verdade indiscutível. Ele trouxe quase 40% dos excluídos para dentro da sociedade nos seus dois governos. Isso é espetacular do ponto de vista da esquerda."

Sobre a observação do próprio ex-presidente de que bancos e empresas lucraram mais em seus governos do que em períodos anteriores, Bisol comenta:

"É verdade. Ele também cuidou dos interesses dos empresários. E tinha de cuidar, né, porque a estrutura é empresarial. Se você não melhora a condição empresarial, não produz crescimento nenhum."

Lava Jato

Em seu retiro litorâneo, onde vive em companhia da mulher, Vera, e do poodle Alamus, Bisol acompanhou atentamente o processo de Lula - o petista foi condenado porque teria recebido um apartamento tríplex no litoral paulista como forma de propina da empreiteira OAS - e a operação Lava Jato. Em seu escritório, o livro do repórter Vladimir Netto que leva o nome da operação é visível em uma das prateleiras. Bisol diz que "sempre fui a favor da Lava Jato, mas todas as coisas têm seus defeitos". Ele tem um olhar crítico sobre o episódio:

"As informações que tenho, e não são meramente informações de TV e jornal, são de colegas meus, que me visitam, graças a Deus (risos), me revelam que muitos juízes brasileiros acham que houve uma modificação jurisprudencial na decisão sobre Lula e que se deixou de entender o fato segundo o direito brasileiro para entendê-lo segundo direitos estrangeiros, principalmente o britânico. Essa modificação é que permitiu a condenação. Segundo os princípios do direito brasileiro, dificilmente ele poderia ser condenado. Mas não conheço os autos (do processo)."

Após a condenação em segunda instância, a ordem de prisão contra Lula foi expedida menos de 24 horas depois do Supremo Tribunal Federal ter negado ao ex-presidente um habeas corpus.

Na ordem de detenção, o juiz Sergio Moro chamou de "patologias protelatórias" os tais "embargos dos embargos", últimas apelações que restavam à defesa do petista na segunda instância.

Desde 2016, o STF entendeu que condenados em segunda instância podem começar a cumprir a sentença antes de esgotar suas chances de apelação no Judiciário. Para os críticos da interpretação, ela desrespeitaria a presunção de inocência da Constituição Federal. A questão é controversa dentro da própria Corte e há indícios de que, apreciada novamente pelos ministros, haveria uma mudança de entendimento sobre o assunto.

"Esse julgamento do habeas corpus foi terrível, cheio de pressões e de desvios. A constitucionalidade brasileira é objetiva e gritante no sentido de que é preciso o último dos julgamentos possíveis para formar a coisa julgada."

Para Bisol, o conjunto de interpretações e ações do processo preocupam, já que demonstrariam um certo protagonismo do Judiciário em tentar modificar o que diz a própria lei por meio de entendimentos jurisprudenciais.

"Você tem de mudar a lei, e não fazer uma transformação jurisprudencial. O caso é tão claro, as leis são tão objetivas, foram cumpridas por tantos anos que não é o caso de um tribunal mudá-las. Quem modifica é o Congresso. Pode-se enviar uma proposta de emenda constitucional. É muito forte a posição constitucional, é muito princípio, muita concepção política do direito que está colocada ali. E é do meu tempo, fui constituinte. Já mexeram nessa Constituição por tudo que é lado. O período Temer se caracteriza por mexer na Constituição. Tinham de ter mexido aí também."

Em 2001, Bisol era secretário de Segurança do governo Olívio Dutra no Rio Grande do Sul e alvo de uma CPI sobre sua gestão, capitaneada pela oposição, na Assembleia Legislativa. Desvencilhou-se dos debates no parlamento para atravessar a Praça Marechal Deodoro e dar um abraço em Lula, que fazia um comício no local. Foi o último encontro dos dois. Se pudesse conversar com o ex-presidente hoje, o que Bisol lhe diria? A resposta é firme e instantânea:

"Diria a ele que pode contar comigo até o fim."

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