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Caminhoneiros fazem quadruplicar interesse em "intervenção”

Levantamento dos termos buscados no Google mostra que momentos de instabilidade impulsionam buscas por temas militaristas

13 jun 2018
10h00
atualizado em 26/6/2018 às 12h24
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O número de buscas pela expressão “intervenção militar” mais que quadruplicou em maio deste ano, mês da greve dos caminhoneiros, em comparação com o mesmo período de 2017. Em fevereiro de 2018, quando foi anunciada uma intervenção militar de fato na segurança pública do Rio de Janeiro, as buscas pelo termo foram cerca de três vezes menos numerosas que durante o movimento grevista.

Mais direto, o termo “golpe militar” também teve aumento do interesse dos internautas no período, assim como foram mais buscados “ditadura militar” e “regime militar”.

Caminhão do exército passa por pessoas que apoiavam os caminhoneiros em Luiânia (GO), em 25 de maio de 2018
Caminhão do exército passa por pessoas que apoiavam os caminhoneiros em Luiânia (GO), em 25 de maio de 2018
Foto: Ueslei Marcelino / Reuters

Em outro momento recente de ebulição social no País, quando a ex-presidente Dilma Rousseff estava prestes a sofrer o impeachment, em 2016, também houve aumento do interesse da internet pelos militares. A “intervenção” teve cerca de 812 mil, 687 mil e 543 mil buscas em março, abril e maio daquele ano, respectivamente.

Desta vez, porém, o pico foi muito mais alto. Em maio de 2018 foram 3,17 milhões de buscas pelo termo – no mesmo mês do ano anterior, o número ficou em 669 mil. Quando a intervenção no Rio de Janeiro foi anunciada, em fevereiro, as buscas pelo termo somaram 1,07 milhão.

Os dados são estimativas extraídas do Google Adwords – por meio de uma ferramenta chamada SemRush –  sobre a atividade dos usuários do maior buscador do mundo.

O movimento dos caminhoneiros foi iniciado em 21 de maio com uma pauta de ataques à política da Petrobras de reajustes diários de preços nos combustíveis. Com lideranças difusas, expandiu as reivindicações enquanto avançavam as negociações com o governo.

Após o presidente Michel Temer ceder em praticamente todos os pontos, parte dos manifestantes deixou a mobilização. Muitos grevistas, porém, não reconheciam legitimidade naqueles que negociaram com o governo e mantiveram bloqueios em estradas e outros protestos.

Grupos intervencionistas se infiltraram nos grupos de Whatsapp dos caminhoneiros para tentar influenciar o movimento, assim como outras correntes políticas tentaram. De acordo com Pablo Ortellado, professor da USP vinculado ao Monitor do Debate Político no Meio Digital, a busca virtual por um sequestro de pauta não era inédita na história do Brasil. Remonta a junho de 2013.

“Quando os protestos [em 2013] eram só contra a tarifa do transporte, os anti-corrupção tentaram colar. Eles somaram mais do que levaram. No final era transporte, saúde, educação e corrupção. Somaram, pegaram carona, mas não conseguiram mudar a pauta”, disse Ortellado ao Terra.

Manifestantes pedem intervenção militar durante ato na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, no dia 28 de maio
Manifestantes pedem intervenção militar durante ato na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, no dia 28 de maio
Foto: Mateus Bonomi/Agif / Estadão Conteúdo

Pedidos de “intervenção militar” ficaram comuns nos piquetes dos caminhoneiros. Não-caminhoneiros que querem a tomada do poder pelas Forças Armadas aproveitaram e colocaram seus blocos na rua. Em São Paulo, por exemplo, houve até trio elétrico adornado com pedidos de golpe militar tocando o Hino Nacional pela cidade.

A simples pesquisa pelo termo no Google não implica, necessariamente, em apoio à intervenção. “Pode significar só curiosidade, mas de qualquer jeito é uma vitória [dos intervencionistas], conseguiram pautar o debate” afirma Ortellado. Ele, porém, citou pesquisa feita a pedido do Planalto cujos resultados mostravam considerável adesão popular à ideia.

O cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas Cláudio Couto diz que o destaque que o tema ganhou pode, por um lado, ser considerado uma pequena conquista para grupos intervencionistas, mas pondera: “Ao mesmo tempo que se falou muito sobre o assunto, se fez muita crítica disso”.

Segundo ele, um dos motivos de a greve ter colocado o termo em evidência mais do que a intervenção na segurança pública do Rio, em fevereiro, foram os efeitos palpáveis da paralisação. Além disso, a adesão de grupos de caminhoneiros à reivindicação foi inesperada. “O próprio inusitado da história acaba produzindo um interesse maior das pessoas”.

O professor da FGV também fez menção às manifestações de junho de 2013. Perguntado pelo Terra como o termo “intervenção militar” tomou o lugar da expressão “golpe”, explicou: “Isso é um discurso que certamente estava presente no ideário de certos grupos que defendem o autoritarismo, mas esses grupos eram muito pequenos e estavam em hibernação até junho de 2013. A partir daí essa terminologia deles literalmente ganhou as ruas e ganhou visibilidade.”

Tanto Couto quanto Ortellado disseram à reportagem que candidatos de viés autoritário, como Jair Bolsonaro (PSL), são os beneficiados com a ascensão dessa pauta. Ortellado, porém, acha que a ideia deverá arrefecer antes da eleição. “Ela não tem nenhum apoio político relevante”, diz o professor. “Mas vai ter impacto eleitoral porque esse imaginário será capturado”, completa.

Tendência

Nos últimos anos, quando um fato político de grandes proporções causa turbulências, as buscas por “intervenção militar” ganham popularidade. É comum puxar, também, o interesse por temas correlatos.

A ferramenta Google Trends não dá números absolutos, mas mostra o quanto a procura por um determinado termo variou ao longo do tempo no maior site de buscas do mundo. O Terra fez algumas consultas.

Em junho de 2013 as ruas do país foram tomadas por manifestantes. Assim como na greve dos caminhoneiros, o movimento começou com uma pauta e terminou com outra, mais ampla. Naquela ocasião, aumentos nas tarifas do transporte coletivo foram o motivo inicial.

Quando as passeatas cresceram, as reivindicações foram alargadas, destacando-se o descontentamento com a classe política. A curiosidade sobre os anos de chumbo inflou, assim como o interesse em saber mais sobre uma “intervenção” militar.

Os gráficos a seguir mostram o ano de 2013. É possível observar aumentos em junho, quando houve as manifestações. Evidentemente há outros fatos que podem impulsionar as pesquisas. No segundo semestre de 2013 começou-se a falar em intervenção ocidental na Síria, em guerra civil já na época, e isso provavelmente incluenciou as buscas pelo termo em setembro.

O começo deste texto tem números absolutos sobre as buscas desses termos durante a greve dos caminhoneiros. Os gráficos a seguir mostram, em termos relativos, a evolução das procuras em 2018. Nem a intervenção no Estado do Rio de Janeiro, em fevereiro, impulsionou o termo tanto quanto a greve.

Outra recente ocasião em que o interesse pelos termos aumentou, ao mesmo tempo em que o prestígio do atual regime político caía, foi quando explodiu o escândalo da delação da JBS – Joesley Batista, dono da empresa, gravou um diálogo com Michel Temer, e a Polícia Federal filmou um assessor próximo do presidente recebendo uma mala com R$ 500 mil.

Os gráficos mostram todo o ano de 2017. O caso foi divulgado em 17 de maio, onde há um pico de buscas por “intervenção militar” que, até então, havia sido o maior do ano.

O pico de 2017 foi na semana em que o jornal Folha de S.Paulo divulgou uma fala do general Hamilton Mourão defendendo ação das Forças Armadas se o Judiciário não solucionasse “o problema político” – na época, Temer enfrentava a segunda denúncia da Procuradoria Geral da República decorrente da delação da JBS.

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Fonte: Equipe portal

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