Tatuagem de Macarrão foi feita no dia do suposto sequestro
Eram pouco mais de 15h do dia 4 de junho quando Luiz Henrique Ferreira Romão, o Macarrão, chegou a um dos mais badalados estúdios de tatuagem da cidade, no Recreio dos Bandeirantes. Nas mãos, o papel com uma frase que ele queria eternizar nas costas: 'Bruno e Maka - a amizade, nem mesmo a força do tempo irá destruir; amor verdadeiro'. Depois de mais de três horas de um trabalho minucioso, o braço-direito do goleiro do Flamengo saiu por volta das 18h30 em direção à mansão do amigo famoso, a cerca de um quilômetro de distância. Nesta mesma data, à noite, a estudante Eliza Samúdio e seu filho de quatro meses - cujo pai seria o goleiro Bruno - teriam sido sequestrados no Rio e levados para Minas Gerais.
Afonso Camerotte, conhecido como Viking, de 45 anos, dono do Viking Tattoo Studio, era o tatuador da dupla. Foi ele quem gravou a polêmica marca na pele do funcionário e melhor amigo do ex-capitão rubro-negro. E se diz assustado com tudo o que tem visto no noticiário nas últimas semanas.
Profissional chocado
"Ele (Macarrão) chegou com a frase pronta. Tivemos que corrigir um ou outro erro de português, mas, sinceramente, na hora eu encarei como uma atitude de puxa-saco. De alguém que quer agradar uma pessoa que o tem beneficiado economicamente. Agora, depois que tudo isso veio à tona, fiquei meio chocado. Claro que pensei nisso depois que toda essa história surgiu, mas não tenho como afirmar que ele estava premeditando alguma coisa assim. Só o próprio Macarrão sabe, realmente, o motivo da tatuagem", afirmou o tatuador.
As investigações da Delegacia de Homicídios de Minas Gerais e da Divisão de Homicídios do Rio de Janeiro (que apurou o suposto sequestro da jovem) indicam que, no período em que esteve no estúdio se tatuando, Macarrão teria falado pelo menos duas vezes com Eliza pelo telefone. Como O Dia revelou no domingo, durante aquele dia do sequestro, os dois se falaram 73 vezes.
Mesmo com quase 20 anos de experiência, Viking admitiu ter estranhado o pedido de Macarrão. Mas, na hora, levou tudo na brincadeira. "Algum motivo o fez querer tatuar aquilo. Claro que é esquisito. Não é todo dia que um homem tatua o nome de outro homem com aqueles dizeres. Se uma pessoa tatua alguma coisa no corpo, com certeza tem um motivo forte para isso. Mas não cabe a mim fazer distinção do que as pessoas querem tatuar no corpo", disse.
Macarrão deixou a conta para o goleiro pagar
Macarrão não pagou pela tatuagem, que custaria R$ 600. 'Pendurou' na conta de Bruno, que estava terminando de tatuar as costas, onde exibe um imenso dragão e uma carpa. "O Bruno ficou de vir aqui no domingo, mas como ele levou dois gols no fim do jogo (no sábado, dia 5 de junho, o Flamengo perdeu para o Goiás de virada, por 2 a 1), achei até que ele tivesse ficado chateado e resolvido não vir", afirmou Viking, sem saber que no dia 6, segundo as investigações da polícia mineira, o goleiro já estava em Contagem, no Motel Palace, onde Eliza era mantida em cativeiro.
O tatuador disse ainda não acreditar que Bruno soubesse que Macarrão faria a polêmica tatuagem, que acabou gerando uma chuva de maldosos comentários na Internet sobre a relação deles. "Nunca imaginei que ele pudesse estar envolvido nisso".
O caso
Eliza desapareceu no dia 4 de junho, quando teria saído do Rio de Janeiro para Minas Gerais a convite de Bruno. No ano passado, a estudante paranaense já havia procurado a polícia para dizer que estava grávida do goleiro e que ele a agrediu para que ela tomasse remédios abortivos. Após o nascimento da criança, Eliza acionou a Justiça para pedir o reconhecimento da paternidade de Bruno.
No dia 24 de junho, a polícia recebeu denúncias anônimas dizendo que Eliza havia sido espancada por Bruno e dois amigos dele até a morte no sítio de propriedade do jogador, localizado em Esmeraldas, na Grande Belo Horizonte. Durante a investigação, testemunhas confirmaram à polícia que viram Eliza, o filho e Bruno na propriedade. Na noite do dia 25 de junho, a polícia foi ao local e recebeu a informação de que o bebê apontado como filho do atleta, de 4 meses, estava lá. A atual mulher do goleiro, Dayanne Rodrigues do Carmo Souza, negou a presença da criança na propriedade. No entanto, durante depoimento, um dos amigos de Bruno afirmou que havia entregado o menino na casa de uma adolescente no bairro Liberdade, em Ribeirão das Neves, onde foi encontrado. Por ter mentido à polícia, Dayanne Souza foi presa. Contudo, após conseguir um alvará, foi colocada em liberdade. O bebê foi entregue ao avô materno.
Enquanto a polícia fazia buscas ao corpo de Eliza seguindo denúncias anônimas, em entrevista a uma rádio no dia 6 de julho, um motorista de ônibus disse que seu sobrinho participou do crime e contou em detalhes como Eliza foi assassinada. O menor citado pelo motorista foi apreendido na casa de Bruno no Rio. Ele é primo do goleiro e, em depoimento, admitiu participação no crime. Segundo o delegado-geral do Departamento de Investigação de Homicídios e Proteção à Pessoa (DIHPP) de Minas Gerais, Edson Moreira, o menor apreendido relatou que o ex-policial civil Marcos Aparecido dos Santos, conhecido como Bola ou Neném, estrangulou Eliza até a morte e esquartejou seu corpo. Ainda segundo o relato, o ex-policial jogou os restos mortais para seus cães.
No dia seguinte, a mulher de Bruno foi presa. Após serem considerados foragidos, o goleiro e seu amigo Luiz Henrique Romão, o Macarrão, acusado de participar do crime, se entregaram à polícia. Os três negam participação no desaparecimento. A versão do goleiro e da mulher é de que Eliza abandonou o filho. No dia 8, a avó materna obteve a guarda judicial da criança.