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RJ: famílias buscam esperança em delegacia de desaparecidos

22 set 2014
12h24
atualizado às 12h54
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Mães de pessoas desaparecidas comparecem à inauguração de delegacia especalizada
Mães de pessoas desaparecidas comparecem à inauguração de delegacia especalizada
Foto: Marcus Vinicius Pinto / Terra

Não há um dia nos últimos dez anos que Jovita passe sem chorar. Sua filha Priscilla, irmã do lutador Vitor Belfort, desapareceu e nunca mais foi encontrada. O caso de Jovita é igual à de Tânia, Josiane, Tercília e de muitas, muitas mães que sofrem a cada dia sem saber o que aconteceu com seus filhos. A partir desta segunda-feira, essa dor pelo menos tem um ponto em comum: a Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA), inaugarada na Cidade da Polícia, na zona norte do Rio de Janeiro. “É um dia de vitória com sabor amargo”, relata Jovita.

E amargos são os números de desaparecidos no Rio de Janeiro. De acordo com a ONG Rio de Paz e dados do Instituto de Segurança Pública, a cada ano somem no Estado do Rio cerca de 300 pessoas por mês. “Ninguém sabe quantos morreram. Fora os casos que nunca chegam a ser registrados”, conta o presidente da ONG, Antonio Carlos Costa. Wal Ferraz, porta voz do coletivo “Mães do Brasil”, criado em 2008.  Ele afirma que há 15 anos se tenta que o projeto de uma delegacia se torne realidade, “temos que fazer do luto uma luta”, diz.

A delegacia vai funcionar 24 horas por dia e será comandada pela delegada Ellen Souto, que, com 35 policiais, tem planos ambiciosos para seu trabalho. “Nosso projeto é criar um banco de DNA de familiares para que dados de ossadas encontradas sejam cruzados e se possa solucionar casos de forma mais rápida”, afirma. O secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, disse que há orçamento para que sejam feitos exames de DNA nas ossadas encontradas. “Há orçamento e há a possibilidade de fazermos parcerias com instituições e universidades para acelerar o processo”, garante o secretário.

Entre 2001 e 2006 foram encontradas ossadas de cerca de 200 crianças no Estado, mas divergências impediram que exames de identificação fossem realizados. “Os governos não deixaram os exames serem feitos por peritos de fora do País e quando quiseram fazer com peritos locais, as mães se recusaram a dar material por não confiarem no processo”, afirma Wal Ferrão.

Isso quando há ossada. No caso da família Amieiro, nem isso. Patrícia sumiu depois de ter passado por um blitz na Barra da Tijuca. Teve o carro cravejado de tiros, mas os policiais envolvidos jamais revelaram onde colocaram o corpo da jovem, desaparecida há seis anos. “O Brasil precisa endurecer a lei para ocultação de cadáveres, para que se deixe para trás o pensamento de que se não tem corpo, não tem crime”, disse, emocionado, Adriano, irmão da engenheira. “Queremos fazer um enterro digno. É hora de provarem que vai ser uma coisa séria”.

Adriano define bem a dor de quem tem um parente desaparecido: “sabe quando você está no shopping ou na praia e seu filho escapa e some por segundos? É essa a sensação que temos 24 horas por dia”. Cada família quer saber o que aconteceu com seu filho, sua filha, seu parente. “Já levantaram várias teorias do que aconteceu com Priscilla. Todas podem ser verdade”, comentou Jovita. As mães lembraram de um caso em que a polícia mineira estourou uma casa de prostituição em Minas, onde meninas de 8 a 12 anos eram mantidas enjauladas e só saiam para se prostituir e comer. “Coisas horrendas existem.”

José Mariano Beltrame participa de inauguração de delegacia de desaparecidos no Rio
José Mariano Beltrame participa de inauguração de delegacia de desaparecidos no Rio
Foto: Marcus Vinicius Pinto / Terra

A delegada contesta que é preciso esperar 24h ou 48h horas para se registrar um desaparecimento. Ela quer agir rápido, contar com a ajuda do Disque-Desaparecidos 197, e atacar principalmente os cemitérios clandestinos na capital. “São vários cemitérios”, afirma Antonio Carlos Costa. Há os casos de desaparecidos cujos corpos são queimados por traficantes nos chamados “microondas”. Casos do jornalista Tim Lopes, no Complexo do Alemão, e da jovem Taís Louise, no morro do Barbante, na Ilha do Governador, em 2006. Por enquanto, riso e choro se misturam na inauguração da delegacia. Uma esperança a mais entre a dor e a saudade.  

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Fonte: Terra
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