"Não há estuprador em série na Ilha", diz polícia do Rio
Na tentativa de conter a onda de pânico que se espalhou pela Ilha do Governador por causa de supostos ataques de estupradores, o comandante do 17º BPM (Ilha), tenente-coronel João Silvestre Araújo, e a delegada da 37ª DP (Ilha), Renata Teixeira, se reuniram ontem com 80 diretores de escolas públicas e privadas, na subprefeitura do bairro. O objetivo foi tranquilizar pais e estudantes. Os policiais garantiram que não há um estuprador agindo em série na região.
Dos 11 casos registrados na delegacia este ano (oito consumados e três tentativas) apenas dois teriam sido cometidos por um mesmo criminoso, descrito como sendo um homem negro, que circula num Gol preto e armado com uma faca.
Apesar das informações oficiais não comprovarem os ataques, o clima no bairro beira a histeria. Uma das diretoras contou que alunos só andam na rua em grupos grandes e alguns passaram até a levar facas e canivetes nas mochilas. "Estamos perdendo o controle da situação. Os pais chegam mais cedo às portas das escolas e muitos estão se unindo para tentar identificar o tal tarado, jurando fazer justiça com as próprias mãos", disse.
"Trabalhamos em cima de fatos. Até o momento, o que existe de concreto são casos isolados, praticados por agressores de diferentes características, que nada têm a ver com um maníaco, um psicopata que ataca em série", garantiu a delegada, lembrando que outro boato, divulgado pela Internet, sobre o rapto de crianças para retirar órgãos e vendê-los, também está espalhando medo no bairro. "Os telefones da delegacia não param. Estamos enfrentando enormes transtornos na rotina de investigações de outros crimes", lamentou Renata.
O comandante classificou o clima como "histeria coletiva, provocada por um temor infundado". "Para acalmar a população, desloquei policiais de outras áreas para reforçar o patrulhamento nas escolas. O pior é que as pessoas estão partindo para a agressão de inocentes", comentou o Silvestre.
Segundo o tenente-coronel, na semana passada, um oficial da Marinha quase foi linchado na porta de um colégio, onde esperava pela sobrinha. "Depois de perseguido por uma multidão, ele foi salvo por PMs quando já estava encurralado numa rua sem saída". Na noite de domingo, um morador de rua foi espancado por um grupo que pensou que ele iria estuprar uma adolescente.
Medo perto de matagal
Três funcionárias de uma firma prestadora de serviços do Terminal de Cargas do Aeroporto Internacional disseram já ter sido perseguidas pelo "tarado do Gol preto". "Ele me abordou próximo a um matagal na terça-feira. Corri e ele correu atrás de mim. Me salvei porque uma van que passava na hora parou e entrei nela", contou F., 25 anos, ao lado das colegas C., 33, e J., 41.
"Na Vila Joaniza, mulheres estão voltando mais cedo para casa e evitam sair à noite. O mais absurdo é que essa situação está sendo gerada por um inimigo invisível", afirmou Ricardo Tavares, vice-presidente da associação de moradores.
Pai não deixa filha sair para passear com o cachorro
A propagação dos boatos tem mudado a rotina dos moradores. "Não deixo mais a minha filha sequer passear com o cachorrinho dela na porta do prédio. A gente não sabe até que ponto isso tudo pode ser apenas boato", justificou o adminstrador de empresas, V., 42, pai de F., de 15 anos, que mora num edifício na Freguesia.
Pela Internet, há quem peça socorro até a traficantes. No dia 25, às 21h54, um anônimo postou no Blog Notas e Destaques: "Fernandinho (referindo-se ao traficante Fernando Tavares de Freitas, o Fernando Guarabu, chefe do tráfico do Morro do Dendê) acaba com ele (estuprador)". Em outro comentário, às 21h14, mais uma mostra do clima de histeria: outro anônimo convoca moradores para "capturar o tarado e botar no microondas".