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Entre sono e romance, peregrinos fazem vigília em Copacabana

28 jul 2013 00h45
| atualizado às 17h48
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Movidos pela fé e pela expectativa do último encontro com o papa Francisco neste domingo, dia de encerramento da Jornada Mundial da Juventude, três milhões de peregrinos aglomeraram-se nas areias, calçadas e ruas de Copacabana para o pernoite de espera pelo Santo Padre. Unidos numa comunidade de crença que permitia a fácil e rápida comunicação entre desconhecidos, a vigília encontrou na beira do mar de Copacabana um local especial de contemplação e comunhão.

A vigília teve início oficial depois das 21h, com o término das atividades de Francisco no penúltimo dia de sua primeira visita sumo-pontifical ao Brasil, mas a vigília como estado de contemplação ainda era uma realidade longínqua. Com incessantes apresentações musicais reproduzidas a alto volume por toda a praia, o acampamento dos fiéis tinha aqueles que já adentravam o sono, exaustos da peregrinação e da chegada prematura para garantir seu lugar na praia, e aqueles muitos que perambulavam pelas ruas de Copacabana em busca de comida ou lugar para dormir.

"Chegamos às 14h e só conseguimos esse lugar aqui", lamentou Taynna Pereira, 18 anos, ao lado de Fernando Coelho, 18 anos, enquanto apontava para sua base noturna de lona preta, bancos, colchões e víveres na divisa entre a areia e a calçada da praia. Ainda que desolada pela distância do palco central, Taynna estava conformada com situação relativamente privilegiada.

A superlotação fez com que muitos desistissem de tentar lugar na areia. Não longe dali, mas já em uma atmosfera urbana e sem acesso aos telões, peregrinos começavam a se abancar na praça Sezerdelo Correia, na avenida Nossa Senhora de Copacabana. “O pessoal ficou se enrolando e deu nisso; chegamos pelo início da tarde e não conseguimos lugar na praia”, disse com bom humor Gleriston Rabelo, 25 anos, enquanto ajudava seus companheiros a encher os colchões de ar.

Ainda assim, mesmo para quem havia conseguido lugar na praia, a situação podia não ser muito agradável. Pouco antes da meia-noite, um grupo de dezenas de peregrinos rumava na avenida Princesa Isabel praia afora, em direção ao Túnel Novo. "Está perigoso ficar na praia. Tem gente que está sendo roubada. Levaram a carteira de um amigo meu. Decidimos deixar a vigília", disse Tiago Francisco Rocha, 26 anos, cujo grupo rumava na avenida rodeada de policiais e guardas que povoaram o bairro.

A sensação de insegurança era compartilhada por outros. Cinco peregrinas de Anta Gorda e Guaporé, no interior do Rio Grande do Sul, passeavam ainda sem saber onde passariam a noite. "Nosso coordenador está com medo, pois acha que pode ser perigoso. Mas nós queremos ficar", afirmou Maeli ao lado das amigas Jaqueline, Julhete, Parisses e Sueli.

Mas a maioria ficou, e foi por volta da 1h que o silêncio começou a predominar na vigília de Copacabana. Com as ruas crescentemente vazias e o movimento nas lonas e sacos de dormir cada vez menor, a praia acalmou. E entre uma maioria que dormia sob a noite fechada e fria, os poucos caminhos livres na areia eram ocupados por aqueles que rumavam para a beira do mar.

Lá, com a água revolta diante de si e com a multidão de fiéis dormindo às suas costas, os jovens da Jornada Mundial da Juventude peregrinavam em grupos em busca da comunhão. Animados pelo cosmopolitismo do momento e ajudados por uma fé comum, suas conversas eram iniciadas e desfeitas em clima amistoso que se manteve durante toda a madrugada.

"Agora há pouco, estávamos conversando com pessoal de Aruba, do Equador. É uma troca de experiências incrível", disse Felipe Seron, 20 anos, de Balneário Rincão (SC). Ao lado de quatro amigos, Felipe contou que estavam tentando chegar na área do palco, mas não conseguiam porque paravam incessantemente para falar com os estrangeiros sobre assuntos cotidianos, como os dias da semana nas suas línguas, futebol e saudações religiosas como "Deus te abençoe". “Não é nada muito profundo", afirmou. "Estamos aqui pela fé. Entendemos que isso mostra que, para se ser jovem e feliz, uma vida simples, sem vícios e luxo, é possível.“

A troca de experiências também transformava a beira do mar em um ponto privilegiado de romance. Aproveitando o mar e a tranquilidade do momento, diversos casais namoravam e se abraçavam na areia ou dentro do mar, com a água tocando as canelas. E mesmo para aqueles que não estavam acompanhados, os relacionamentos amorosos eram tema central.

Às 4h e comandando uma roda de conversas numa mesa de lanchonete na orla, Bruno Ribeiro, 20 anos, contava com animação suas vivências na Jornada. “Eu estava na praia e tinha umas australianas conversando. Eu não falo inglês, mas resolvi dizer ‘Kiss me!’, e nos beijamos”, relatou, entusiasmado, sobre seu encontro com Charlie, uma australiana de 22 anos.

“Não tenho consciência pesada, mas sei que o que eu fiz, pela burocracia do evento, foi uma coisa errada. Era algo que não era esperado pro evento. Mas sei que, para o mundo de fora, isso é algo totalmente normal. Então, estou com minha consciência tranquila”, disse ele, que lamentou não ter conseguido ficar com outras peregrinas que haviam "dado a deixa".

“A gente entende que não é algo esperado aqui. A Igreja diz que devemos ficar e casar com a mulher, então, de certa forma, ficar sem casar é errado”, analisava com certo desânimo João Matheus, 17 anos, lamentando não ter conseguido trocar experiências com peregrinas estrangeiras.

Além do amor pré-matrimonial, o uso de entorpecentes também era desafiado em frente ao mar. À medida que a madrugada avançava, cresciam os casos de latas e garrafas vazias de bebidas alcoólicas deixadas sobre montes de areia.

E assim como o álcool, cujo consumo foi caso raro durante todos os dias da Jornada, alguns fiéis também degustavam cigarros enquanto caminhavam e conversavam com amigos. “Sei que faz mal, que é um vício, mas é bom”, disse a sorridente Maria Fernanda Figueroa, 20 anos, de Tucumán, Argentina.

Mas diferentemente dos hábitos, o silêncio gradualmente construído ao longo da madrugada foi rapidamente quebrado quando, por volta 6h, o sol raiou. A luz acordou os fiéis da vigília e, em questão de uma hora, os banheiros já estavam com filas de dezenas de pessoas enquanto grupos retomavam as canções e orações e os fiéis passavam entre si, saudando em voz alta: "bom-dia". Começava o último dia da Jornada.

Papa Francisco no Brasil
A Jornada Mundial da Juventude (JMJ) 2013 foi realizada entre os dias 23 e 28 de julho, no Rio de Janeiro. O evento, organizado a cada dois ou três anos, promove um encontro internacional de jovens católicos com o Papa. Esta edição da JMJ reuniu mais de 3 milhões de pessoas, entre elas peregrinos de 175 países. A JMJ 2013 marcou também a primeira visita internacional do papa Francisco desde sua nomeação como líder máximo da Igreja Católica, em 13 de março deste ano. A próxima edição do evento será realizada em 2016, em Cracóvia, na Polônia.

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Fonte: Terra
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