Confira relato de Nana Queiroz, 28 anos, autora do movimento "Eu não mereço ser estuprada", criado no Facebook na última quinta-feira em resposta ao resultado de uma pesquisa do Ipea segundo a qual 65% dos brasileiros acham que mulheres com roupas curtas merecem ser atacadas
A jornalista Nana Queiroz, organizadora da página de protesto no Facebook, disse que sofreu ameaças,
Foto: Reprodução
Desde que iniciei o protesto on-line "Eu não mereço ser estuprada", na noite da última quinta-feira, recebi uma série de depoimentos de mulheres, homens e adolescentes que foram vítimas de abuso sexual. É incrível como essas histórias têm força, muito mais força que os números. E o que vi é que o estupro geralmente não ocorre à noite, num beco escuro. Ele ocorre, principalmente, em situações mais cinzentas.
No Distrito Federal, onde vivo, uma pesquisa publicada no ano passado, por exemplo, indicou que 85,2% dos estupros acontecem dentro da casa da vítima ou do agressor. Os números são chocantes, e me sinto na obrigação de contar sobre alguns rostos por trás das estatísticas.
Joana foi abusada sexualmente pelo pai durante toda a infância. O mais curioso é que ela só percebeu ter sido vítima de abuso na vida adulta - e o pai dela não percebeu até hoje. Sabe por quê? Porque ele nunca a penetrou. Enfiava a mão por dentro de sua calcinha, acariciava seus seios mas, para ele, abuso sexual é penetração.
No entanto, segundo a Lei Ordinária Federal nº 12.015, de 2009, que alterou o Código Penal Brasileiro, o crime de estupro não se refere somente à penetração, mas a qualquer ato de "conjunção carnal ou outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima".
Indignada, a internauta Amanda Oliveira dispara: "É porque não é a mãe/irmã/namorada de vocês! Parem de culpar a vítima! Culpado é o estuprador! NINGUÉM PEDE para ser estuprada! A culpa NUNCA é da vítima!"
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"Ninguém vai me calar", protesta Ana Carolina Souza
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A mineira Ana Flávia de Souza também tirou a roupa para protestar
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"É uma luta diária, mas cansei de ter q me preservar por conta de uma sociedade machista que não sabe se segurar (vide carro das mulheres). Mulher não tem que se preservar. Não nesse sentido. Pra mim CHEGA" (Ana Karenina Riehl)
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A jornalista Nana Queiroz, organizadora da página de protesto no Facebook, disse que sofreu ameaças,
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Internautas fazem campanha virtual contra o estupro
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"Nuinha, e mesmo assim, não mereço ser estuprada", diz Camila Farias
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Carolina Albim: "É fruto da nossa sociedade doente e destorcida que há séculos cria homens de forma que estes acreditem possuir algum direito sobre o meu corpo e minhas escolhas"
Internautas fazem campanha virtual contra o estupro
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Fernando Ramos Silva utilizou bonecas para apoiar a campanha
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Internautas fazem campanha virtual contra o estupro
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Internautas fazem campanha virtual contra o estupro
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"Guarde seus adjetivos machistas e o seus documentos nas calças, porque meu corpo não é seu, independente do que eu vista ou deixe de vestir. Minha pele não é convite para o estupro" (Gleicy Herllane)
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Internautas fazem campanha virtual contra o estupro
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Jade Mendonça citou a pesquisa, ressaltando que muitas mulheres concordam com a afirmação de que a roupa pode provocar o estupro
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O grupo Anonymous Rio compartilhou a foto da internauta Janaína Candido e apoiou a campanha
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Júlia Ruiz: Porque não é roupa, não é atitude, não é a hora, não é lugar e não é a mulher, a culpa é só de quem estupra
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Internautas fazem campanha virtual contra o estupro
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"Rebele-se contra a cultura do estupro", diz Láh de Freitas
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"Ninguém merece, nem que saia pelada na rua", Iane Maria
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"Improviso no papel aquilo que não deveria ser preciso escrever", Lígia Otero
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Internautas fazem campanha virtual contra o estupro
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Mariana Fantinel tirou a camisa para protestar contra casos de estupro
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"Vejo essa mobilização feminina e masculina, como uma grande iniciativa de mudanças" (Mariana Galvani)
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"Em protesto ao resultado da pesquisa do IPEA, que mostrou que quase 70% dos homens brasileiros acham que "se a mulher soubesse se comportar" não seriam estupradas, ou que "se não usassem roupas curtas" não seriam estupradas" - Marycila Oliveira
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Internautas fazem campanha virtual contra o estupro
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O corpo é MEU, portanto as regras são MINHAS e independente da roupa que eu estiver usando não lhe dá o direito de me assediar, pois TODOS NÓS merecemos respeito! Se informem e coloquem a consciência para funcionar, deixem a sua ignorância de lado e vamos ser racionais diante dessa situação horrível. Não à cultura machista!, diz a internauta Nay Geystenber
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Com roupa decotada, Paula Fernandes questionou o resultado da pesquisa que culpa as mulheres
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Paula Vinhas convida as mulheres para a campanha. "Você não concorda com isso? Nem eu! Então bora mostrar o corpo pra mostrar o quão revoltadas estamos? A ideia é que a gente tire a roupa e se fotografe, da cintura para cima, com um cartaz tampando os seios com os dizeres 'Eu também não mereço ser estuprada' e postemos, todas juntas, ao mesmo tempo, online. Quem tá dentro?"
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Silvia Dias Pereira também participou da campanha
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"Tá aqui minha resposta para os 62% das pessoas que não entendem que sou livre para fazer o que quiser e que nada, absolutamente nada, justifica um ato de estupro" (Stella Montiel)
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"Pior é ver gente fazendo piada sobre isso e achando algo super normal de acontecer" (Thais Marinho)
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"O tamanho do meu decote, não define o tamanho do meu caráter. O tamanho do meu short, não define o tamanho da minha dignidade. O tamanho da minha saia, não define o tamanho da minha integridade. Ônibus lotado não é motivo para encochar, metrô lotado não é motivo para apalpar, roupas apertadas não são desculpas para estuprar", diz Thaís Montanari
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Internautas fazem campanha virtual contra o estupro
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Internautas fazem campanha virtual contra o estupro
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Com uma foto nua, funkeira Valesca Popozuda protestou em seu perfil no Facebook contra o estupro
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Outra história. Certa noite, Maria estava entediada. Foi à casa de um amigo em quem confiava muito para ouvir música e beber até cair. Temerosa de dirigir para casa embriagada, ela pediu para dormir em seu sofá até que o efeito do álcool se dissipasse. Acordou algumas horas depois com a bruta inserção de um pênis em sua vagina. Ela gritou, protestou, exigiu que parasse. Ele prosseguiu até não conseguir mais lutar contra ela. Argumentou que a culpa era dela por ter dormido na casa dele.
Nesse caso, vale um raciocínio básico: na dúvida, é estupro. Não tem certeza se ela está suficientemente consciente? É estupro. Não sabe se álcool ou drogas afetaram sua capacidade de julgamento? É estupro. Ela está semiacordada? É estupro. Devíamos nos concentrar em explicar aos homens como não estuprar, e não em dizer às mulheres como não serem estupradas.
Marco foi estuprado aos cinco anos pelo irmão. Na vida adulta, ele teve coragem de contar aos pais. Pressionado para dar explicações, o abusador, que era bem mais velho que Marco, afirmou: "Eu já havia percebido que ele era gay, imaginei que ele iria gostar, e ele gostou".
Mas crianças não podem "gostar" ou não de sexo. Elas ainda não têm a maturidade e os critérios para definir se desejam ou não uma relação sexual. A ONG Childhood, que trabalha com vítimas de pedofilia, explica que "a natureza sexuada, inerente a qualquer criança, não pode ser entendida no sentido genital, mas sim no contexto de uma série de experiências psicológicas e físicas que vão, aos poucos, dando forma a seu pensamento e a seu corpo, ao que ela pensa sobre seu corpo e como o sente".
Mais: vocês sabiam que mais de um terço dos abusadores de crianças são também menores de idade? Ou seja, você que forçou seu primo ou prima mais nova a ter envolvimento sexual com você também cometeu um abuso, mesmo sendo menor de idade. Este é o caso de Marcelo, um belo homem que foi abusado constantemente por um primo cinco anos mais velho durante a infância. Quando enfrentou o abusador, apoiado pela família, na vida adulta, o abusador alegou: "Eu também era menor de idade, portanto, não sou culpado". É, sim. Mas, claro, deve ser tratado como um menor ofensor, que não tinha seu caráter ainda completamente formado.
Finalmente, gostaria de dizer que tenho recebido e-mails de pessoas que sugerem castração e pena de morte para abusadores. Não creio que a solução esteja por aí. A lei brasileira já protege amplamente o abusado. Temos que pedir que ela seja aplicada e não que endureça. O trabalho deve se concentrar em educar os homens para que não estuprem, as mulheres para que denunciem, os policiais para que não culpem as vítimas e os familiares para que não acobertem os casos de abuso intrafamiliares.
O primeiro passo para evitar mais histórias como as de Marco, Marcelo, Maria e Joana é a mudança do discurso. Diga às suas filhas que elas são dignas e que seu corpo é só delas. Ensine seus filhos a respeitar as mulheres e buscar o sexo como uma experiência mágica a dois. Não deixemos esse movimento morrer. Eu lancei a pergunta, agora, a resposta é com vocês!
Nana Queiroz, 28 anos, é autora do movimento "Eu não mereço ser estuprada", criado no Facebook na última quinta-feira em resposta ao resultado de uma pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) segundo a qual 65% dos brasileiros acham que mulheres com roupas curtas merecem ser atacadas. O movimento ganhou a adesão de 44 mil pessoas e repercutiu em vários países. Jornalista formada pela USP, Queiroz estuda desde 2009 o sistema carcerário feminino do Brasil. A pesquisa dará origem ao livro "Presos que Menstruam", a ser publicado até o fim de 2014.
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