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Eduardo Bolsonaro será representante do pai e não do Brasil, diz americano que estuda América Latina há 5 décadas

O presidente Jair Bolsonaro afirmou que decidiu escolher o filho para ser embaixador do Brasil nos Estados Unidos, cargo vago desde abril, porque ele fala inglês, espanhol e é amigo dos filhos de Trump.

12 jul 2019
16h24
atualizado às 19h47
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Se assumir a embaixada do Brasil em Washington (EUA), o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL) será um representante do pai, e não do Brasil. Essa é a avaliação do americano Peter Hakim, que estuda América Latina há mais de cinco décadas e é presidente emérito do think tank Inter-American Dialogue, sediado em Washington.

O cargo de embaixador do Brasil nos Estados Unidos, vago desde abril, deve ser ocupado por Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da República
O cargo de embaixador do Brasil nos Estados Unidos, vago desde abril, deve ser ocupado por Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da República
Foto: Paola De Orte/Agência Brasil / BBC News Brasil

Questionado por jornalistas, Eduardo disse que aceitará a indicação de seu pai, o presidente da República Jair Bolsonaro.

A BBC News Brasil ouviu especialistas em Relações Internacionais sobre os possíveis impactos da nomeação do deputado federal para a embaixada e também questionou quais são as habilidades esperadas de um embaixador.

Bolsonaro - o pai - destacou que o filho domina o inglês e que é amigo dos filhos do presidente americano, Donald Trump. "O meu filho Eduardo, ele fala inglês, fala espanhol, há muito tempo roda o mundo todo. E goza da amizade dos filhos do presidente Donald Trump."

Nesta sexta-feira (12), Eduardo Bolsonaro disse que fez intercâmbio e que aprimorou o inglês e fritou hambúrguer nos Estados Unidos.

"Não sou um filho de deputado que está do nada vindo a ser alçado a essa condição. Tem muito trabalho sendo feito, sou presidente da Comissão de Relações Exteriores, tenho uma vivência pelo mundo, já fiz intercâmbio, já fritei hambúrguer lá nos Estados Unidos."

'Chanceler de fato'

O brasilianista Peter Hakim diz que Eduardo Bolsonaro pode ficar "um pouco isolado" do meio diplomático e aponta que o esperado de um embaixador é representar não apenas o presidente da República, mas o conjunto de instituições de um país.

"Ele será um representante do pai dele e não do país", disse Hakim à BBC News Brasil. "Um país é mais que a Casa Branca ou o Palácio do Planalto. Há o Congresso, governadores..."

Para Hakim, a indicação também expõe Bolsonaro, devido às críticas de nepotismo - qacusação que os integrantes do governo negam.

"O jovem Bolsonaro não tem experiência e treinamento para ser embaixador nos Estados Unidos", avalia Hakim.

O professor de Relações Internacionais Oliver Stuenkel, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz que o movimento "obviamente afeta a reputação do país".

"É uma notícia muito ruim para a maneira como o Brasil é visto. O fato de o presidente colocar seu próprio filho é uma coisa meio de República das Bananas", afirmou.

Stuenkel destaca que, se Eduardo assumir o posto, o fato de o embaixador em Washington ser mais próximo do presidente que o próprio chanceler, Ernesto Araújo, representa uma perda de poder para o ministro.

"A única maneira de ler isso é que Eduardo Bolsonaro vira chanceler de fato. O novo centro de poder da articulação nessa área ficaria em Washington. O Ernesto já está frágil, mas isso o fragiliza mais ainda."

'Aposta em relações pessoais'

O professor Antonio Jorge Ramalho da Rocha, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), diz que a escolha de Eduardo "é uma aposta em relações pessoais, e não institucionais".

O movimento é arriscado, segundo ele, que estuda a política externa dos Estados Unidos, porque as relações institucionais "costumam ser mais estáveis e produtivas no longo prazo".

Rocha aponta que o profissionalismo do corpo diplomático é uma conquista da sociedade brasileira e que foi ele que garantiu, por exemplo, que a relação com os Estados Unidos não fosse afetada mesmo com as diversas mudanças no governo.

"A sociedade brasileira construiu um patrimônio, que é o Itamaraty e a política externa previsível e equilibrada, que sempre trouxe muito prestígio. A atual administração está dizendo que isso não é importante. O que é importante parece ser uma visão de mundo de combate à marxismo cultural, que não sei o que querem dizer com isso."

Segundo ele, o Brasil "entendeu desde cedo" a importância da diplomacia e foi um dos primeiros países a profissionalizarem o corpo diplomático, no século 19.

"A diplomacia sempre foi instrumento importante, que o Brasil conseguiu desenvolver tão bem que conseguiu alcançar projeção internacional maior do que seria de se esperar de país como o nosso", disse Rocha.

"O Brasil vinha aproveitando isso muito bem. Mas a partir do governo Dilma Rousseff, vimos que o Brasil 'saiu em férias' nessa área. 'Para o mundo que eu quero descer', como os jovens dizem. A presidente não tinha visão de mundo, depois o Michel Temer também não tinha interesse na área internacional. Tivemos inércia da política externa que havia sido estabelecida."

Quais habilidades precisa ter um embaixador?

Chamou atenção, no anúncio informal de Eduardo Bolsonaro para embaixador, os atributos do filho citados pelo presidente ("fala inglês, fala espanhol, há muito tempo roda o mundo todo. E goza da amizade dos filhos do presidente Donald Trump").

Depois, Eduardo disse que não está "do nada" sendo alçado ao cargo e que tem "vivência pelo mundo" e que já fez intercâmbio e fritou hambúrguer nos Estados Unidos.

Em entrevista à BBC News Brasil, o ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, defendeu que a indicação "não é por ser filho do presidente da República, é por ter capacidade de atuação política e ideias que são as que a gente considera que são corretas".

Para os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, é necessário ter muita experiência em diplomacia para assumir a função de embaixador em Washington.

Questionado sobre os atributos necessários, Stuenkel diz que "o Eduardo não fala bem inglês". "Ele se defende, mas não fala bem inglês, para conseguir liderar uma negociação."

Mesmo assim, o professor da FGV diz que, embora o domínio de outros idiomas seja relevante, o principal é "ter compreensão sofisticada das Relações Internacionais como um todo - conhecer a História, relação bilateral, as ferramentas que a diplomacia utiliza, ter uma rede de contatos".

"Pode dizer que conhece a família Trump, mas o mais importante é ele saber identificar possibilidades que a pessoa só enxerga quando estudou o assunto por muitos anos", afirmou.

"A gestão da relação bilateral vai muito além de ser amigo de pessoas próximas ao presidente. É cargo que requer profundo conhecimento da política internacional como um todo - e excelente relação com outros embaixadores, que Bolsonaro não vai ter."

Para Antonio Jorge Ramalho da Rocha, que além de ser professor da UnB já deu aula no Instituto Rio Branco (responsável pela seleção para a carreira diplomática e treinamentos), é fundamental ter redes de relacionamento fora e dentro do país, além de experiência de negociações internacionais.

"Também é essencial paciência para ouvir e entender o que está acontecendo no país que ele vive e entender objetivo de longo prazo, além de humildade pra se cercar de pessoas competentes."

Rocha diz que, se Eduardo tiver "humildade e bom senso", vai se cercar de quem entenda da dinâmica da política internacional.

"Há gênios políticos, como Getúlio Vargas, que não falava bem nenhum idioma além do português e entendeu o funcionamento da política internacional. Gênios você tem um a cada cem anos. A menos que o filho dele seja um desses gênios, vamos enfrentar situação de ter pessoa despreparada para o cargo."

Rocha conclui: "Bolsonaro quer apostar nos familiares para contornar canais institucionais, acreditando que dessa maneira será mais efetivo. A ver."

Indicação no dia seguinte ao aniversário é 'coincidência'

A indicação informal do presidente da República aconteceu no dia seguinte ao aniversário de 35 anos de Eduardo Bolsonaro, completos na quarta-feira (10). Ter pelo menos 35 anos de idade é um dos requisitos para ocupar o cargo de embaixador - o outro é ser brasileiro nato.

O cargo de embaixador do Brasil nos EUA está vago desde abril deste ano, quando o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, removeu o diplomata Sérgio Amaral do posto.

"É uma coincidência. Assim como também foi uma coincidência o fato do vereador Carlos Bolsonaro ter 17 anos quando foi eleito vereador no Rio de Janeiro. Completou 18 anos em dezembro, tomou posse em janeiro. Parece que papai do céu fez a gente no ano certinho para completar as idades mínimas no futuro", disse Eduardo.

Caso a nomeação se confirme, ele terá de renunciar ao mandato de deputado federal, para o qual foi eleito com 1,8 milhão de votos em São Paulo.

"Se for da vontade do presidente, ele realmente, de maneira oficial, me entregar essa missão, eu aceitaria", disse Eduardo em uma entrevista a jornalistas no escritório da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara, que ele preside.

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