PUBLICIDADE

Sócio da boate Kiss rompe o silêncio e fala sobre a tragédia com 242 mortos

1 dez 2013 09h02
| atualizado às 09h11
ver comentários
Publicidade
Elissandro Spohr, o Kiko, um dos sócios da Boate Kiss
Elissandro Spohr, o Kiko, um dos sócios da Boate Kiss
Foto: Facebook / Reprodução

Um dos proprietários da Boate Kiss, Elissandro Spohr, o Kiko, rompeu o silêncio quase um ano após a tragédia que matou 242 pessoas em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Processado criminalmente por homicídio e tentativa de homicídio de centena de pessoas, ele falou em entrevista ao jornal Zeho Hora que não se surpreendeu em ter se tornado o inimigo número 1 das famílias das vítimas, que lutam pela sua condenação.

A tragédia da Boate Kiss em números
Veja como a inalação de fumaça pode levar à morte 
Veja relatos de sobreviventes e familiares após incêndio no RS
Veja a lista com os nomes das vítimas do incêndio da Boate Kiss

“A Kiss era o Kiko. Todos que iam na Kiss eram meus amigos. E o único advogado, a única pessoa que está defendendo a Kiss, é o Jader (Jader Marques, advogado de Kiko). Eu sou um único que se defende e tenta dar uma explicação”, falou o empresário, que acredita que o incêndio pudesse ter sido evitado caso as autoridades tivessem feito seus trabalhos. “Eu confiei nos órgãos públicos, tudo que fiz foi de acordo com o que foi exigido. Se tenho um erro, foi em fazer o que os órgãos públicos exigiram. Se tinha coisas erradas lá, eles tinham que ter me orientado.”

Kiko entrou como sócio na boate em 2010 e, segundo ele, uma das exigências que fez foi de que o estabelecimento tivesse toda a documentação em dia.  “O Ministério Público bate muito em obras que foram feitas, que não tinha engenheiro, o que não é verdade. Tenho projeto de engenheiro, de arquiteto, ART. A pressão do MP foi muito grande. Em julho de 2011, recebemos notificação do MP. Era sobre ruídos”, desabafou o empresário, dizendo que na época o promotor informou que o problema era excesso de som.

“Disse que nós tínhamos que resolver, que o Alexandre (antigo sócio) já tinha feito algumas coisas. O Alexandre apresentou projeto, contratou o mesmo engenheiro que eu contratei depois. Eles acusam que tinha janelas obstruídas, mas isso está no TAC (Termo de Ajustamento de Conduta). O revestimento fechando as janelas eu não fiz parte, essa primeira espuma das portas, eu não fiz. Eu nem sabia que o Alexandre tinha ido ao MP. Tinha barras de ferro desde a inauguração.”

Sobre a instalação de guarda-corpo na boate, Kiko disse que era para organizar melhor as filas e que nunca se pensou em um incêndio dessas proporções. “Mas eu nunca poderia imaginar que ia pegar fogo. Fui no fórum esses dias. Grita fogo lá. Também tem (guarda-corpo). Acham que não vai esbarrar? Como uma mesa vai atrapalhar, um bar, as cadeiras. Qualquer coisa atrapalha em situação de emergência. Não era só a Kiss que tinha isso. Eu coloquei para organizar a fila. Nunca imaginei fogo, nossa preocupação era uma briga. Ninguém entra num lugar pensando que vai pegar fogo”, disse ele ao jornal.

Espuma tóxica
Sobre as obras de levantamento de piso e mudança de lugar no palco, Kiko diz que fez parte do TAC, ao contrário da colocação do guarda-corpo. Já a colocação da espuma, que fez com o que o fogo se espalhasse, teria sido colocada com orientação profissional, de acordo com ele. “Quando entrei na sociedade, vizinhos reclamavam do barulho, antes de o promotor me chamar. Liguei para o Alexandre e para o Mutti. O Mutti, que é engenheiro, me disse que o Samir (engenheiro Samir Samara) tinha feito a primeira acústica da boate. O Samir me disse para colocar uma espuma no palco - a vizinha que reclamava era de lado com o palco - , disse que já tinha avisado o Alexandre que era preciso colocar espuma. Eu comprei do Samir a espuma, a primeira espuma, em novembro de 2010. Foi revestido o palco e o lado da parede que dava na vizinha.”

Quando questionado sobre a espuma que teria sido comprada na loja de colchões, Kiko disse que fez uma pesquisa na internet antes da compra. “Entrei na internet, procurei por isolamento acústico e apareceu a espuma que eu comprei. (Quem comprou) foi o Ricardo Pasche (cunhado) a mando meu. Foi instalado por funcionários, paguei um extra.” A espuma foi instalada depois que o secretário de diligências do Ministério público esteve na boate para ver as obras do TAC.

Ao tentar justificar o ocorrido, o sócio da boate disse que achava que tinha um estabelecimento seguro e alerta para as outras boates em todo o Brasil que, segundo ele, são iguais a Kiss. “Para mim a Kiss era segura. Como entrei em várias outras casas e nunca pensei que ia pegar fogo. Toquei em pelo menos 200 casas. Me dói escutar que a Kiss era um labirinto, uma arapuca. Eu quis entrar dentro da boate para mostrar o que era. Estou à disposição para filmar a Kiss e ir nas outras casas para ver se a Kiss era tudo isso, se era diferente. A Kiss era igual a qualquer outra casa. Esse labirinto está no projeto do engenheiro (entregue no TAC). Teve vistoria dos Bombeiros. Na proposta do Alexandre Costa para o MP ele apresenta fechamento das basculantes e que as portas de metal serão revestidas por espuma isolante e revestidas em couro. Nas portas já tinha espuma desde 2009. Vejo os acusadores falarem dessas janelas. Eu não era desse tempo, mas acredito que se tivessem me pedido, teria feito igual. Não pode ter vazamento de som. Se tem janela, tem que ser fechada.”

Pela primeira vez, Kiko diz acreditar que a causa de tantas mortes não foi a fumaça causada pela combustão da espuma isolante, conforme dizem os laudos. “Não acredito (que tenha sido pela queima da espuma). Eu não sei o que é o tóxico. Quem disse que se queimar papel num lugar eu não vou morrer? Eu não entendo disso. O forro de gesso e de lã de vidro queimou todo. Foi feito perícia no gesso, na lã? Não teve fumaça no primeiro instante. Daqui a pouco, foi um horror de fumaça.”, falou.

‘Fizeram de mim um monstro’
Apesar de não negar ser um dos responsáveis pela tragédia, Elissandro Spohr acredita que foi preso porque fizeram dele “um irresponsável, um monstro”. Denúncias de que a casa só visava o lucro, de que seguranças barraram a saída dos clientes e de que Kiko ordenava que os extintores fossem retirados da casa aumentaram essa fama. “Uma funcionária disse isso (sobre a retirada dos extintores), eu tive um grande problema com ela. Ela foi demitida por n motivos. Eu não mandava tirar os extintores”, falou.

Sobre a ocorrência de shows pirotécnicos na Kiss, como o da banda Gurizada Fandangueira, Kiko disse que não tinha conhecimento. “Eu nunca vi usarem. Nunca autorizei. Tem esse negócio da Fuel (empresa Fuel Entretenimento, cuja foto de pessoas fazenda labaredas na Kiss veio a público na época da tragédia). Me procuraram para fazer uma apresentação da Fuel, tirar fotos no pub. Foi uma locação. Essa foto foi feita de tarde, não tinha ninguém lá, era foto para apresentar o trabalho deles. Eu nunca contratei a Fuel”, falou o empresário ao Zero Hora.

Outra acusação que pesa sobre a Kiss é a de falta de treinamento contra incêndios e, mais uma vez, Kiko coloca a culpa nos órgãos fiscalizadores. “Nunca me pediram isso, e acho que não pediram para os antigos sócios. Eu nem sabia que tinha que ter isso. Falam muito em rádio (radiocomunicador para os seguranças) também. Que lugar tem? Se tivessem me pedido, eu teria colocado. Se tivessem me pedido para abrir duas ou três portas, eu tinha feito.”.

Questionado sobre a superlotação da casa, o sócio da boate disse que nunca soube da capacidade máxima da Kiss e que deixava as pessoas entrarem se baseando no conforto. “Eu tenho responsabilidades (na tragédia), quero saber quais são. Confiei nos órgãos públicos. Quero deixar o recado para donos de casas noturnas, empresários: não confiem nos órgãos públicos, pois eles não sabem o que estão fazendo, não sabem o que cobrar. Eu confiei e hoje estou aqui. Poderia ter acontecido com qualquer boate, com qualquer lugar. Tudo que me pediram, fui fazendo”, concluiu.

 

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

 

Fonte: Terra
Publicidade
Publicidade