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Padre não cometeu crime em livro sobre a Kiss, diz polícia

Lauro Trevisan escreveu, na 1ª edição de "Kiss - Uma porta para o céu", que vítimas estavam vivas dentro de caminhão frigorífico

30 abr 2013 - 11h27
(atualizado às 11h31)
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Após o depoimento à polícia, Trevisan disse que não quis causar polêmica com seu livro
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

A Polícia Civil de Santa Maria (RS) concluiu que o padre Lauro Trevisan, autor do livro Kiss - Uma porta para o céu, não cometeu nenhum crime ao afirmar que algumas vítimas estavam vivas dentro do caminhão frigorífico que levava os corpos para serem reconhecidos no dia da tragédia na Boate Kiss, que vitimou 241 pessoas em janeiro deste ano. Conforme a polícia, o religioso alegou, em depoimento prestado no dia 22, que baseou-se em "conversas de rua" e em "diz que diz". Na segunda edição, ele retirou o trecho polêmico.

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"Foi apenas uma frase no meio do livro. É um texto em sentido figurado, não tem nada a ver com os fatos. Para ser caracterizado crime, tem de ter uma conotação criminosa. Nós ouvimos para tirar uma dúvida, a obra do padre é de ficcção", afirmou o delegado Sandro Meinerz. Após o depoimento à polícia, Trevisan disse que não quis causar polêmica e que pretendia levar para o mundo “uma lição de amor à vida, de respeito à vida, de fraternidade e de solidariedade”.

"Não há nenhum interesse em criar polêmica. O meu interesse é dar uma elevação espiritual, é dar a Deus, que, no momento de sofrimento, é a grande força para a humanidade e para aqueles que estão sofrendo", declarou o padre na ocasião. A jornalista e escritora Celina Fleig Maier também também foi chamada para depor por ter feito um relato semelhante em carta para o jornal A Razão, de Santa Maria.

Na carta, publicada em 17 de abril, defesa do livro e contou que também ouviu relatos semelhantes: “Conversando com uma enfermeira, ela foi categórica: também ouviu falar em pessoas vivas amontoadas no caminhão, onde corpos eram empilhados. E, mais, perguntou-me se havia algum médico no local para atestar as mortes. Havia?", questionou ela.  

Sexo no céu
Nas 77 páginas da nova impressão, Lauro Trevisan foi novamente polêmico ao afirmar que se o leitor achar bom, haverá "sexo no céu". Ele escreveu ainda que as pessoas não devem se deprimir e se revoltar, censurou os que buscam "a ambição deslavada" e citou até o cineasta americano Woody Allen para "descontrair".

"Anote na sua agenda que no céu há abundância conforme os desejos individuais, há muita alegria, música inesquecível, e muito amor nos corações. Haverá sexo por lá? Se você achar bom e tiver vontade, haverá. O céu é imune a qualquer possibilidade de saudade, mal-estar, carência e privação. O que você imaginar de bom e maravilhoso, ser-lhe-á dado. Esqueça essa ideia ingênua de passar o tempo todo vendo anjinhos tocando harpa. (...) Uma coisa é certa: pode haver muitas boates no céu, mas boates kiss nenhuma", sublinhou o autor, que tem 78 obras publicadas.

Polêmicas e explicações
Na primeira edição, o escritor causou polêmica e indignou familiares das vítimas ao afirmar que algumas vítimas estavam vivas dentro do caminhão frigorífico que levava os corpos para serem reconhecidos no dia da tragédia. "No auge da balada celestial, o Pai perguntou se alguém queria voltar. Dois ou três disseram que sim e foram encontrados vivos no caminhão frigorífico que transportava os corpos ao Ginásio de Esportes", dizia o trecho.

Na página 11, ele usou o verbo "agonizar" no fragmento "Por que foram ceifados pela morte, sem dó nem piedade, aqueles que se dedicaram, num imenso gesto heroico de solidariedade, a salvar os que agonizavam em meio à fumaça funérea?!" A palavra também foi retirada da nova tiragem. 

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 241 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

Fonte: Terra
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