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Prefeitura interdita alça de acesso à Via Dutra por riscos estruturais

Interdição será por prazo indeterminado, diz Bruno Covas; dano é semelhante ao do viaduto na Marginal do Pinheiros, que cedeu em novembro. Por ser ligação com via federal, Prefeitura acionou gestão Jair Bolsonaro para definir solução do problema

23 jan 2019
19h40
atualizado em 24/1/2019 às 12h31
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SÃO PAULO - A Prefeitura de São Paulo decidiu nesta quarta-feira, 23, interditar, por prazo indeterminado, a ponte da alça de acesso da pista expressa da Marginal do Tietê para a pista expressa da Rodovia Presidente Dutra, na zona norte, após detectar danos e risco de queda da estrutura. Nesta quarta, duas faixas da pista expressa da Marginal ficaram fechadas. Como a Dutra é uma rodovia federal, o Ministério da Infraestrutura prevê trabalhar junto da gestão Bruno Covas (PSDB) na obra. No início da noite, houve congestionamentos.

"É um dano na viga semelhante ao que tivemos lá no viaduto da Marginal do Pinheiros (zona oeste), o que levou a equipe da Prefeitura a constatar que, dia a mais, dia a menos, a gente teria o que tivemos no viaduto", disse Covas. O viaduto da Marginal do Pinheiros caiu em 15 de novembro, por problema estrutural no pilar. "A empresa contratada pela Prefeitura para elaborar o laudo apontou hoje (quarta) pela manhã que havia um dano na viga. Nossa equipe veio aqui constatar", contou Covas.

Os técnicos contratados pela Prefeitura para a vistoria visual constataram dois problemas graves. "Tivemos ruptura na viga de apoio e apareceu também uma fissura junto ao apoio. Isso determina que realmente a estrutura não está íntegra. Por questão de segurança, estamos interditando e vamos tomar as medidas necessárias", disse Vitor Aly, secretário municipal de Infraestrutura Urbana e Obras.

Ele destacou, porém, que as obras de reparo não devem durar os mesmos cinco meses que vão durar o conserto do viaduto da Marginal do Pinheiros. "Vai ser mais rápido porque o acidente não foi configurado. Tivemos ruptura num componente e vamos fazer a recuperação."

A Prefeitura estuda as ações viárias para mitigar impactos no trânsito. "A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) está verificando de que forma o trânsito vai ser modificado, porque o fluxo aqui é muito intenso." Ele disse "contar com a colaboração da população, que vai ter de buscar rotas alternativas."

O taxista Roberto Fernandes, de 47 anos, foi um dos que enfrentou as primeiras horas de lentidão em decorrência do bloqueio nesta quarta. "Acabou com o meu dia e provavelmente vai continuar me atrapalhando por um bom tempo. Passo por aqui até cinco vezes por dia, não tenho como evitar", disse.

Ele relatou que o problema se estendeu para outras vias usadas como alternativa. "Hoje a radial Leste estava travada também", acrescentou Fernandes, que disse usar o trecho agora interditado para ir e voltar de casa, além das corridas do trabalho.

O microempresário Cleberson Pereira, de 28 anos, já prevê mudanças na sua rota diária com a interdição. "Tenho que pegar a Dutra para ir e vir do trabalho, então vou usar uma ponte mais na frente. Vai atrapalhar todo mundo", disse.

O analista de recursos humanos Paulo Eduardo Oliveira, de 29 anos, reforça a dimensão do problema. "A Dutra é saída pra todo mundo que vai para o Vale do Ribeira, São José dos Campos, por exemplo. É uma rota com tráfego intenso." A Dutra também é um dos principais acessos ao Vale do Paraíba.

Até as 20 horas desta quarta, a interdição provocava congestionamento de 15 quilômetros na Marginal, sentido Ayrton Senna - quase um quarto dos 50 quilômetros do total de lentidão no trânsito da cidade.

Por dia, cerca de 50 mil veículos passam por esse local, em um fluxo com intensa participação de caminhões. A alça é um dos acessos da capital para o Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos, Grande São Paulo. Uma alternativa é usar a Rodovia Ayrton Senna. Outra saída é buscar a Dutra pela pista local da Marginal. A Polícia Rodoviária Federal e a concessionária CCR Nova Dutra abriram nesta quarta à noite o acesso da via principal para a expressa no km 227,7, no sentido Rio.

Reparos serão feitos em parceria entre governo federal e Prefeitura

Como a Dutra é rodovia federal, Covas conversou com o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas. "Nos colocamos à disposição para ajudar e, se for o caso, fazer a recuperação da viga", disse.

"Faremos a intervenção no viaduto emergencialmente em parceria com a Prefeitura", disse o ministro ao Estado. Um engenheiro da pasta deve avaliar a estrutura hoje, junto com técnicos do Município. "Daí dimensionaremos a solução e alocaremos o recurso para dar a resposta mais rápida possível", disse.

"É provável que a intervenção seja feita por meio de convênio com a Prefeitura, uma vez que ela já está trabalhando na recuperação de outros viadutos", acrescentou Gomes. As saídas estudadas, segundo Covas, eram a União fazer os reparos ou a Prefeitura executá-los e depois ser ressarcida.

A vistoria que motivou a interdição é exigência do Tribunal de Contas do Município (TCM) para liberar a contratação de empresas de engenharia sem licitação. Essas empresas vão realizar inspeções estruturais em 34 pontes e viadutos da capital. A proposta de vistorias se deu após o viaduto da Marginal do Pinheiros ceder. Até o último dia 8, o Município já havia vistoriado 11 estruturas. Em oito, foi detectada a necessidade de vistoria mais detalhada com urgência, para evitar interdições.

Obra deve desalojar catador

A interdição da estrutura na Marginal do Tietê, e as consequentes obras previstas, podem desabrigar ao menos uma pessoa do local. O catador de material reciclável Lindomar Macedo, de 63 anos, vive embaixo da ponte que dá acesso a Dutra há cerca de três anos. Lá, uma cama e uma cozinha improvisadas formam o ambiente para quando ele regressa do dia de trabalho.

Macedo foi pego de surpresa nesta semana quando técnicos iniciaram uma inspeção na ponte. "Os fotógrafos estavam aqui e perguntei o que estava acontecendo. Eles falaram que era uma perícia", disse.

Aos olhos dele, nada estava muito errado. "A não ser por uns estalos altos que dá quando começa a passar caminhão à noite", disse. Com a perspectiva de instalação de um canteiro de obras no local, o sul matogrossense de Três Lagoas já prevê mudança. "Vou mais para frente, de viaduto em viaduto, até achar um bom."

Orçamento de reparo em pontes é menor que em 2018

A previsão de gastos no orçamento de 2019 da Prefeitura para serviços de manutenção e reparos das chamadas "obras de arte" - pontes e viadutos - ficou menor do que a previsão feita pelo Município no ano passado. São previstos R$ 31,7 milhões, ante R$ 44 milhões no orçamento anterior (queda de 28%).

Essa redução ocorreu mesmo após o rompimento das estruturas do viaduto da Marginal do Pinheiros, em 15 de novembro. O acidente ocorreu antes da aprovação do orçamento pela Câmara Municipal, o que só se deu em 26 de dezembro. O Estado procurou a Prefeitura no fim da noite desta quarta para se manifestar sobre a previsão de gastos, mas a assessoria de imprensa informou que não conseguiria levantar as informações a tempo.

No ano passado, dos R$ 44 milhões previstos, apenas cerca de R$ 9 milhões terminaram sendo efetivamente gastos. A justificativa da gestão Bruno Covas (PSDB) para isso foi que a licitação que a Prefeitura lançou para fazer reparos nesse tipo de estrutura foi barrada pelo Tribunal de Contas do Município (TCM). Com isso, o motivo de os recursos não terem sido gastos não foi ineficiência da Prefeitura, mas porque a licitação estava travada.

Enquanto fazia a vistoria na alça de acesso à Via Dutra nesta quarta, Covas afirmou que pedirá ao TCM que reconsidere a decisão, adotada em novembro, de exigir laudos técnicos antes de liberar a contração emergencial (sem licitação) de empresas de engenharia para fazer análises mais detalhadas sobre as condições das pontes e viadutos. O Estado não conseguiu contato com o TCM nesta quarta à noite. /COLABOROU NAIRA TRINDADE

Estadão
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