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Pandemia esvazia geladeiras e faz brasileiros cortarem carne

Pesquisa do Unicef mostrou piora na alimentação dos brasileiros; consumo de comida industrializada, como salsichas, aumenta

26 ago 2020
05h10
atualizado às 07h34
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Antes da pandemia, Monica Ferreira da Silva, de 50 anos, tinha o hábito de comprar queijo, frutas e verduras. O filho mais novo, de 10 anos, fazia ao menos três refeições por dia na escola municipal do Rio. Banana, que ele adora, sempre tinha, além de pão integral, leite e achocolatado. Com a crise de saúde global, os armários e a geladeira esvaziaram. "Não entram mais essas coisas porque não tem como comprar."

Movimentação de pessoas em feira livre em São Paulo
Movimentação de pessoas em feira livre em São Paulo
Foto: Anderson Lira/FramePhoto / Estadão

Ela não está sozinha nessa dificuldade. Um em cada cinco brasileiros relata não ter conseguido comprar alimentos durante a quarentena, segundo pesquisa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) divulgada na terça-feira, 25. Dificuldades financeiras e de acesso à merenda escolar influenciam esse quadro, dizem especialistas.

Em maio do ano passado, Monica perdeu a mãe, que bancava a casa. Para dar conta das despesas, trabalhou como diarista, vendia bolos e empadas, mas a pandemia do novo coronavírus atrapalhou. As despesas aumentaram com a permanência do caçula em casa, diante das aulas suspensas.

O filho mais velho, de 26 anos, teve de parar de dar aulas de jiu jitsu, o que resultou em menos dinheiro ainda. A família tenta sobreviver com o auxílio emergencial do governo, que está atrasado, e com a doação de amigos.

"Uma amiga ajudou, deu R$ 100. Outro amigo emprestou mais R$ 100 e vou fazendo compras, pago as contas", relata Monica, que nesse período recebeu duas cestas básicas de doação, uma em maio e outra em junho. "Antes, a gente não tinha preocupação. Tinha carne moída para fazer com batata, cenoura. Isso não tenho mais. Se compro, tem de ficar dosando para durar uma semana. Compro frango, que é mais barato."

Quando a comida é pouca, ela deixa para os filhos e se alimenta com mingau. Durante a pandemia, chegou a ter só arroz e água na geladeira. Na terça, Monica, ainda havia manteiga e um litro de leite na casa.

Na zona leste de SP, desempregada reduz mamadeiras para filho

Já na zona leste de São Paulo, Cicera Bezerra da Silva, de 30 anos, está desempregada. O marido faz bicos como ajudante de pedreiro e o filho de 6 anos está em casa. A família mora em São Mateus, na periferia, e há cinco meses não tem renda fixa: só o auxílio emergencial. "Antes da pandemia, era bom. Graças a Deus, nunca comemos sem mistura (carne), mas depois começamos a comer sem. Às vezes falta e antes não faltava", conta.

Por seis meses, receberam doação de cestas básicas de uma igreja. Se antes a criança tomava até cinco mamadeiras por dia, hoje é só uma, complementada com a comida que dá para comprar. Só entram o essencial e o mais barato: arroz, feijão, ovo e salsicha - este último eles nem gostavam de comer.

O consumo maior de alimentos processados, alertam especialistas, pode elevar as taxas de obesidade infantil. Além disso, faz aumentar o risco de diabete e doenças cardiovasculares.

Mesmo com as dificuldades, Cicera, que não foi alfabetizada, tenta ajudar outras famílias do bairro. "Se a vizinha não tem alguma coisa, dou. Se na minha casa não tem, peço." Ainda sem boas perspectivas, ela mantém a esperança de distribuir sacolinhas de Natal para as crianças da vizinhança. "Se Deus quiser, vai dar certo. Esse está mais difícil, mas vai dar."

Medo de desabastecimento abriu espaço para enlatados

Segundo a pesquisa do Unicef, a dieta do brasileiro também piorou: um terço (31%) das famílias que têm crianças e adolescentes afirma que aumentou o consumo de produtos industrializados, como macarrão instantâneo e biscoito recheado. Nesse grupo, 20% relatam exagero no fast-food, como hambúrgueres.

A autônoma Jordanna Ferreira, de 30 anos, explica que tenta manter o equilíbrio na dieta da filha, mas alguns alimentos industrializados aparecem entre uma refeição e outra. "Em casa, vamos no básico mesmo, arroz, feijão, macarrão e ovo - que é algo que ela ama e come, praticamente, todos os dias', diz ela, de Fortaleza.

Jordanna conta que a filha estudava em escola de tempo integral. Com a pandemia e mais tempo em casa, precisou driblar o tempo para conciliar trabalho e cuidados com a pequena. "No começo, tive um medo maior do que estava por vir, não sabia como iria ficar o abastecimento de alimentos e a questão financeira também me assustou. Afinal, a alimentação na escola já estava incluída na mensalidade. Comprei vários enlatados no início da pandemia e agora tenho um estoque pequeno, mas costumo usar em último caso, quando não estou com tempo para preparar uma carne ou frango."

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Estadão
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