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Moradores de rua ganham curso e expõem fotos de seu cotidiano em SC

28 out 2013 - 14h48
(atualizado às 14h48)
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Quatro moradores de rua de Florianópolis ganharam uma chance de aprender uma atividade profissional e já montaram uma exposição na Câmara Municipal para mostrar fotografias de seu cotidiano. A mostra é fruto de uma oficina de fotografia que vem sendo realizada há dois meses com moradores que frequentam o Centro Especializado de Referência para Atendimento à População de Rua (Centro Pop). A exposição é realizada em um espaço cultural da Câmara Municipal e reúne dezessete fotografias produzidas por quatro moradores em situação de rua.

Com equipamentos emprestados, os quatro receberam aulas teóricas e passaram a fotografar as cenas que demostrassem a "visão" que possuíam de sua vida e da região central de Florianópolis. Entre as fotos selecionadas, estão as de paisagens, trânsito, cachorros, da Catedral Metropolitana e de outros moradores de rua.

A ideia surgiu da fotógrafa Virgínia Rodrigues, que presenciou projeto semelhante quando morava na África do Sul. Ela implementou a proposta no Centro POP e diz ter se espantado com a "bagagem cultural" dos quatro participantes.

"Alguns deles já tinham uma noção de fotografia, mas não tinham oportunidade de praticar. Outros já haviam até frequentado museus e exposições de fotografias aqui na cidade", disse. "Essa exposição é uma conquista, fruto de um trabalho que traz muita satisfação. Agora, os próximos passos são deles."

"Cheguei aqui com o sonho de mudar o mundo"

Rodrigo Belle, natural de Frederico Westphalen (RS), é um dos participantes do projeto e mora há nove meses nas ruas em Florianópolis. Ele carrega uma agenda sem as capas, onde realiza anotações e diz estar escrevendo três livros: "uma trilogia sobre a vida". "Sou escritor, poeta, artesão e serei empresário em breve. Cheguei aqui com ideia de mudar o mundo", afirma. "Ainda tenho esse sonho, mas a falta de dinheiro me levou para rua. Encaro isso como uma experiência."

Aos 30 anos, Rodrigo comemora a oportunidade de ter realizado cursos de aperfeiçoamento e comenta a sua situação. "Vim para mudar o mundo e fui para a rua. Mas a rua me deu um curso de fotografia, um de artesanato e outro de percussão. Tudo de graça", afirma. "Na rua, você tem tudo. Quer dinheiro, comida ou o que for, é só pedir. Por isso que tem muita gente que, quando percebe, ficou 30 anos morando e pedindo na rua."

Um dos trabalhos que mais o agradou foi uma fotografia das bandeiras do Brasil, de Santa Catarina e de Florianópolis na entrada da cidade. Abaixo, uma pichação na cabeceira de uma das pontes: "Controle". Rodrigo chega a filosofar ao falar sobre o "ócio" e explicar que tudo deveria servir como aprendizado.

"Somos esponjas gigantes e devemos absorver tudo. Nada melhor do que não fazer nada, e já que tenho todo o meu tempo ocioso, procuro aprender coisas novas", disse. "As pessoas normalmente não têm tempo ou olhos para ver ao seu próprio redor. E o curioso é que cabe a nós, que não fazemos nada, mostrar um pouco do mundo a essas pessoas."

"Fotografia me fez ver a vida com mais sensibilidade"

A fotografia da lateral da Catedral Metropolitana de Florianópolis refletida nos vidros de um prédio foi a primeira feita por Fernando dos Santos Oliveira, 30 anos. O rapaz não esconde o orgulho de ver as fotografias no saguão da Câmara Municipal e diz ter descoberto uma nova "profissão". Assim que deixou Caxias do Sul (RS), Fernando seguiu para Santa Catarina, onde passou mais de um mês nas ruas. Atualmente, vive em uma pensão e trabalha com pintura e artesanato. O próximo passo, segundo ele, é se profissionalizar na fotografia.

"Fiquei sabendo do curso de fotografia e, como era algo que sempre quis fazer, me inscrevi. Queria muito prosseguir e aprender mais", diz. "A fotografia faz você ver as coisas de uma maneira que não via antes. A sensibilidade fica muito maior."

Fernando comenta o preconceito pelo fato de o trabalho ter sido realizado por moradores de rua. "Às vezes, as pessoas vão para as ruas por uma infelicidade ou por apenas um momento da vida. Acontece, ninguém quer. Uns saem, outros ficam", diz. "Mas em nós sempre fica uma imagem, uma mancha para as pessoas que se acham normais."

Ex-aluno de Scolari vive embaixo de ponte

Outro componente do Coletivo Fotográfico - como eles próprios se denominam -, Eric Edward Conqueira Correia Lima tirou uma foto de um amigo sentado à Beira-Mar. Em outra, flagrou um cachorro pedindo carinho no centro histórico da capital catarinense. Ex-aluno do técnico Luiz Felipe Scolari, Eric mora embaixo de uma das pontes da cidade, acompanhado de uma guitarra.

Natural de São José do Rio Preto (SP) e criado em Caxias do Sul (RS), Eric já passou pela Europa, morou em Buenos Aires e, após uma separação conturbada, passou a viver nas ruas de Florianópolis. Há dois meses, ele dorme sob as pontes Colombo Salles e Pedro Ivo acompanhado da inseparável guitarra Fender preta. "Igual à do Jimi Hendrix, brother", diz.

Bastante surrado e repleto de adesivos e fitas isolantes, o instrumento foi o único bem que lhe restou. "Ela é a companheira mais fiel que tive na vida. Está comigo há décadas", afirma Eric, que tenta reconstruir a vida tocando pelas ruas da cidade, frequentando reuniões do Alcoólicos Anônimos (AA) e do Narcóticos Anônimos (NA), além dos cursos oferecidos pela prefeitura de Florianópolis. "A rua é sinistra. Durmo em meu hotel cinco estrelas debaixo da ponte com os dois olhos abertos por causa da minha guitarra. Já tentaram levá-la, mas não deixo pois ela é só o que me sobrou. Vou me reerguer."

Com muitos conhecimentos sobre músicas, bandas de rock, literatura e atualidades, Eric chega a ser tratado com reverência pelos demais participantes do curso. Ele ainda conta histórias de um professor ilustre, Luís Felipe Scolari. "Fui aluno dele no Cristóvão (Instituto Estadual de Educação Cristovão de Mendoza, em Caxias do Sul). Ele chegava com um Chevette azul, era bravo e um zagueiro horroroso no Caxias, mas era gente boa."

Sobre o futuro, o músico diz que irá continuar tocando em pontos do centro de Florianópolis e que pretende usar a fotografia como um passatempo. Eric tem esperança de ter uma vida melhor. Entretanto, reclama de falta de atenção e de apoio por parte do governo, e pede uma cama.

"O guerreiro sempre se levanta. A vida traz muitas coisas diferentes do que se planeja quando é guri. O Estado muitas vezes não ajuda quem precisa. Tem gente que ganha cama no albergue mesmo ganhando pensão. Eu não tenho para onde ir e precisava de uma cama", disse. "Mas tudo bem. Quero recuperar a vida. E se eu morar em um castelo ou em uma casa humilde, será com a minha arte, e não por favor do governo", afirma.

O Centro Pop de Florianópolis atende pessoas em situação de rua, oferecendo banhos diários, refeições, roupas e calçados, além de atendimento com psicólogos, assistentes sociais, educadores e encaminhamento à rede pública de saúde. O atendimento é realizada de segunda a sexta, das 8h às 18h.

A unidade ainda pretende continuar com as oficinas de fotografia. A professora Vírginia Rodrigues afirma que a organização municipal aceita doações de pilhas, baterias e até mesmo câmeras (mesmo antigas) para atender a um número maior de moradores de rua no curso.

Fonte: Especial para Terra
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